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As Pipas e o Vírus

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Por Lucas Machado – TXII

Sabe aquela vizinha chata, cujo prazer consiste em bisbilhotar a vida alheia? Pois bem, minha vizinha veio reclamar do barulho que meus cachorros estão fazendo. Pra ser sincero, eles realmente estão impossíveis, latindo a tarde toda. Ontem, descobri a razão: várias pipas estavam decorando o céu, e meus cachorros não gostam nada disso. A praça aqui em frente de casa virou a Meca dos pipeiros, espaço amplo e com bom vento. Minha mãe logo falou, irritada: “Esses marmanjos não têm nada pra fazer? Ninguém tá nem aí pra quarentena”. Também gostaria que essas pessoas ficassem em suas casas, para tristeza do vírus e alegria dos meus cachorros, mas a vida não é tão simples assim.

Nessa mesma praça, quando o ano letivo termina, muitos jovens da Escola Estadual aqui perto costumam rasgar os livros e jogar os papéis na grama. Não há exemplo mais visual ou mais forte do descaso com a Educação. Não estou pondo toda a culpa neles, pois são vítimas de um projeto bem antigo – e bem sucedido – de sucateamento do ensino público. Sucateamento este que cria uma massa de trabalhadores de baixa formação, de pessoas que inevitavelmente precisaram escolher muito cedo entre trabalhar e estudar. Como suas vidas consistem basicamente no trabalho e no lazer, eles julgam que toda a ideia de quarentena, que culmina na paralisação de seus trabalhos, é no mínimo uma “palhaçada”. Dessa forma, ficam mais suscetíveis a acreditar no palhaço que veste a faixa presidencial. Não à toa, minha cidade votou expressivamente nele e realiza carreatas corriqueiramente.

Diz o cristianismo que o apóstolo Tomé só acreditou na ressurreição de Jesus quando viu as chagas. É preciso ver corpos empilhados na rua para entender o gravíssimo perigo desse vírus? Se você achar essa pergunta muito extrema, veja a situação do Equador, ou mesmo os cemitérios de Manaus. Não adianta argumentar com esses Tomés da praça: tomar suas pipas é uma medida irrisória, se já tiram deles, desde a infância, a possibilidade de se tornarem cidadãos mais conscientes, críticos, razoáveis e dispostos a acreditar na educação e na ciência contra o charlatanismo e as conspirações dos irresponsáveis.

Gostaria que essas pessoas ficassem em suas casas, mas talvez suas casas sejam piores do que a rua. Na praça, encontram de graça o merecido lazer. Escrevo sobre eles sem julgá-los, pois minha realidade é bem diferente: estou escrevendo num notebook, num quarto só meu, acabei de lanchar (meu pai fez as compras) e daqui a pouco irei ver algo na Netflix, jogar vídeo game ou fazer alguma tarefa de uma faculdade que, em certos aspectos, é elitista. Nessas condições tão diversas, não dirijo minha irritação a eles, como faz minha mãe, mas a direciono aos políticos que usurpam deles as armas mais eficazes contra o vírus e a ignorância: Educação e Ciência.

Hoje, uma pipa caiu no quintal de casa. Em vez de destruí-la, como minha mãe queria, preferi guardá-la. Quando a crise passar, vou lá na praça empiná-la, para desespero da vizinha, a qual, infelizmente, mas não surpreendente, votou nele.

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