Política nacional · Política Nacional e Internacional

Filhote! Filhote do Getulismo!

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Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

Você tem brio? Não sei. O que sei é que o texto de hoje é sobre alguém que tinha e tinha pra c******. Como muitos de vocês me conhecem, acredito que possam estar se perguntando quem é o petista da vez que vou homenagear. Pois bem, hoje é um texto sobre uma das maiores referências políticas da história recente brasileira e exatamente a figura que mais faz falta no cenário atual. E não estou falando do “sapo barbudo” (que faz falta também). Já sabem quem é? Leonel de Moura Brizola!

Antes de começarmos sei que alguns de vocês, queridos leitores, estão pensando “ah, mas tem o Ciro”. Então, é a mesma coisa que comparar uma metralhadora tcheca ZB vz. 26 (utilizada na Revolução de 30, a mais importante da história do país, e defendida posteriormente por Brizola) com uma pistola de chumbinho.

Superado esse leve debate, voltemos ao nosso Leão dos Pampas. Gaúcho, engenheiro e ligado ao trabalhismo, nacional-desenvolvimentismo e getulismo desde seu período na UFRGS, ocupou diversos cargos nos poderes Legislativo e Executivo, das mais diversas esferas federais e é, até hoje, a única pessoa a ter governado dois estados distintos. Mas não são os cargos ocupados que fazem de Brizola um marco da política brasileira. Brizola é gigante pela sua coerência e, principalmente, pela sua coragem.

Enquanto governador do Rio Grande do Sul, liderou a Cadeia da Legalidade e derrotou a tentativa de golpe parlamentar comandada por Ranieri Mazzili, garantindo a posse de seu cunhado João Goulart como Presidente da República. Para se ter uma noção da importância e da falta de Brizola, essa batalha foi vencida pela mídia, com uma rede de mais de 100 rádios do sul e do sudeste do país veiculando o tempo todo que Jango era o presidente legítimo e assim ganhando apoio popular. Esse ato lançou Brizola para o cenário nacional ao mesmo tempo que provou para toda a classe política brasileira que o Trabalhismo tinha um defensor de peso.

Não apenas defendeu e garantiu a posse como, em 1964 durante o golpe militar, fez a defesa de uma resistência verdadeira, incentivando que Jango declarasse guerra aos golpistas e enviasse tropas leais ao governo legítimo para combatê-los. Essa ideia, que poderia ter mudado toda a história recente do país, não foi acatada e a ditadura foi implantada sem grandes dificuldades. Essa resistência fez com que Brizola fosse considerado o inimigo número 1 do início da ditadura, o que resultou em sua fuga para o Uruguai, retornando ao Brasil apenas em 1979 com a Lei da Anistia.

Ao retornar, candidatou-se e venceu, para a surpresa de todos, as eleições para governador do Rio de Janeiro, derrotando os fortes chaguismo, lacerdismo e a rachadinha da ARENA, o PDS. Em um escândalo referente a contagem dos votos (Caso Proconsult), quase viu seu mandato ir embora, mas novamente foi à TV e às rádios colocar a boca no trombone e atacar a TV Globo e Roberto Marinho, ato este que garantiu sua posse e resultou em um novo inimigo para o gaúcho. Ainda sobre sua turbulenta relação com a Rede Globo, sempre importante se lembrar do humilhante direito de resposta concedido em 1992, lido em pleno Jornal Nacional por Cid Moreira, em que Brizola força a emissora a admitir sua verdadeira face (algo que sequer podemos imaginar acontecendo com William Bonner nos dias de hoje). Como governador foi responsável pela construção do sambódromo e dos CIEPS, modelo educacional vanguardista e visionário que apenas não foi completamente colocado em prática pela oposição ao seu governo comandada pela família Marinho. A essência dos Brizolões, apelido dados aos CIEPS, foi imortalizada com sua frase:

“Todas as crianças deveriam ter direito à escola, mas para aprender devem estar bem nutridas. Sem a preparação do ser humano, não há desenvolvimento. A violência é fruto da falta de educação.”

Após toda essa história política, Brizola estava mais do que cacifado para disputar a presidência da república, concorrendo duas vezes ao cargo, em 1989 e 1994, em que se destacou por seus debates acalorados com os candidatos ligados à recém acabada ditadura militar. Pessoalmente, eu defendo que os dois maiores debatedores que o Brasil redemocratizado teve são: Brizola e Paulo Maluf. E o debate entre os dois na eleição de 1989 é com certeza um dos mais marcantes e simbólicos já televisionados. Debate que foi imortalizado pela frase “Filhotes! FIlhotes da Ditadura!” (aqui uma curiosidade, essa frase foi primeiramente dita à Ronaldo Caiado, mas se popularizou quando direcionada à Maluf).

Não só de surrar a direita em debates, vivia Brizola, polarizando diversas vezes com Lula, a quem chamava de Sapo Barbudo e com o socialista Garotinho, apelidado de Queijo Palmira. E aqui voltamos para a grandeza política de Brizola: apesar das divergências e críticas, na hora do segundo turno subiu no palanque e defendeu o voto em Lula. Não só isso, como em 1998 aceitou ser vice de Lula, o que talvez tenha sido a melhor chapa presidencial da história do país, mas que foi boicotada por setores petistas que poucos anos depois se uniram para fundar o PSOL.

Após as eleições de 1998, tentou se eleger prefeito do Rio de Janeiro e senador pelo estado, falhando em ambas as vezes, desistindo de se candidatar a outros cargos a partir de 2002, mas se mantendo à frente do PDT, partido fundado por ele em 1979 após perder o direito de utilizar o nome PTB, partido de Vargas, para sua sobrinha neta, Ivete Vargas. Como disse após a derrota em 1998, “serei como um cavalo inglês: só vou morrer na cancha”, e assim o fez, presidindo o partido até sua morte em 2004.

Brizola faz falta pela sua firmeza. Por ter desafiado toda a classe política em 1961. Por ter defendido ir pra guerra em 1964. Por ter desafiado uma das heranças mais malditas da ditadura que é o Grupo Globo. Por colocar o país acima de birras pessoais e subir no palanque de quem por anos divergiu. Em resumo, por ter princípios e ideologias e lutar por elas independente do desgaste político ou imagem. E por seguir na luta mesmo depois de idoso, cansado e seguidamente derrotado. Brizola tinha, e me dói muito em dizer isso, o que Lula sempre teve, mas aparentemente esqueceu desde que saiu da cadeia. Falta brio e Brizola tinha para dar e vender.

O texto teve tom saudosista e foi mesmo. Apesar de diversas críticas e divergências ideológicas que tenho com Brizola, com o trabalhismo e com a social-democracia que nasceu da Segunda Internacional, é inegável que alguém de sua grandeza mereça esse respeito e reconhecimento. Para quem ainda não se convenceu que essa figura seria de fundamental importância para a oposição ao bolsonarismo, fica aqui uma frase que, apesar de dita à Sarney sobre o Plano Cruzado, se aplica perfeitamente ao Brasil em tempos de coronavírus:

“Essa moçada continua querendo curar câncer com injeção de Cibalena”.

Brizola, assim como Lula, faz falta. Filhote do Getulismo que virou Leão. O Leão dos Pampas!

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