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Me Encontre

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Por Thadeu Vilas (Amante) – TXII

*Antes de iniciar propriamente a análise do livro, vou esclarecer uma coisa: não  vá ansioso para ler uma continuação direta de Me Chame Pelo Seu Nome, pois o mais novo romance de André Aciman passa bem longe disso. Caso tenha em mente que o foco do livro não é mais, exclusivamente, o relacionamento de Elio e Oliver, você conseguirá ter uma experiência de leitura muito melhor. Agora que tal ponto já foi elucidado, vamos, enfim, para meus pensamentos sobre Me Encontre. *

Acho que poucas obras recentes (tanto literárias quanto cinematográficas)
tiveram tanto impacto quanto Me Chame Pelo Seu Nome. Uma grande quantidade de pessoas se sentiu tocada pelo romance interrompido de Elio e Oliver; outra grande quantidade odiou o enredo, tanto pela lacuna entre as idades dos protagonistas (apesar de ser uma diferença de 7 anos, a escolha dos atores deixou a impressão de que algumas décadas separavam os amantes) quanto pelo final clichê (Oliver deixar Elio para se casar com Mico). Admito que apesar de ser fã da obra, concordo com as críticas, mas isso definitivamente não diminuiu a minha empolgação para ler a sequência: Me Encontre, uma obra dividida em quatro capítulos: Tempo, Cadenza, Capriccio e De Capo.

São quatro histórias diferentes, com focos em personagens diferentes e que acontecem em momentos diferentes, mas que se ligam por um elemento: a relação entre tempo e amor.

O primeiro capítulo é narrado por Samuel, o pai de Elio. Após 10 anos da volta de Oliver aos EUA, Samuel, agora divorciado, está indo visitar Elio em Roma, e acaba conhecendo uma mulher com a metade de sua idade e extremamente interessante no trem: Miranda.

Em um momento estão conversando no trem de uma forma semelhante ao que acontece em Before de Sunrise, logo em seguida Samuel está comemorando o aniversário do pai de Miranda, depois ela está assistindo sua palestra, depois jantam juntos, caminham e terminam em uma noite de amor. Sim, tudo isso aconteceu em somente um dia.

Samuel não sentia que havia perdido sua vida, mas ao mesmo tempo não se
sentia vivo. Ele olhava para o passado, reconhecia que ele poderia ter tomado outros caminhos, mas ao mesmo tempo não se arrepende tanto de suas escolhas. Mas vivia como se estivesse petrificado e não soubesse como seguir. Já Miranda ainda é relativamente jovem; espontânea e aventureira, ela vive a vida intensamente, mas nunca conseguiu achar alguém para desfrutar dessa aventura com ela. Ela se jogava de relação em relação e quando sentia que não havia mais nada entre os dois, ia embora sem se importar. Ao se encontrarem, os dois sentiram algo novo, algo que podia originar um futuro bom para ambos.

A relação se desenvolve apressada, como se eles quisessem repor todo o tempo perdido. Juras de amor, segredos profundos, medos, tristezas, tudo fluía naturalmente entre os dois. A diferença de idades não foi um empecilho em nenhum momento, pois ambos só tinham o desejo de amar em mente.

Em uma passagem, Samuel cita palavras de Goethe que sintetizam o sentimento passado pelo capítulo:

“Tudo em minha vida até agora foi mero prelúdio, atraso, passatempo, desperdício de tempo, até que conheci você”.

Os personagens só queriam viver o presente e o futuro, pois tudo que aconteceu antes não era digno de ser pensado.

O segundo capítulo (Cadenza) é narrador por Elio, 5 anos após Tempo. Agora
vivendo em Paris, Elio continua preso no passado: preso nas lembranças da casa de praia no interior italiano com Oliver. Teve apenas uma relação estável que durou 2 anos, mas que abandonou por não estar pronto para se comprometer mais, enquanto seu parceiro estava. Desde então, somente havia tido relacionamentos casuais (com homens e mulheres), até que conhece Michel, um homem com o dobro de sua idade (Elio tem agora 32, então Michel tem 64) e cheio de arrependimentos.

Toda a euforia e pressa do casal do capítulo anterior se dissipa. Extremamente cautelosos e tímidos, Elio e Michel levam o relacionamento num ritmo bem mais lento, principalmente devido a insegurança de Michel derivada do abismo entre as i dades. Michel não consegue ignorar a diferença de gerações, não somente por Elio estar (provavelmente) vivendo o ápice de sua beleza, mas também pelo jovem representar tudo o que ele não teve.Michel teve pais conservadores e estritos, que o obrigaram a seguir a mesma carreira da família: advocacia. Casou-se cedo, teve um filho e uma vida estável, mas tudo não passava de aparências. Gay, ele continuou tendo casos escondido com homens, até que confessou para a esposa sua orientação sexual. A revelação não abalou a relação dos dois já que não havia mais amor presente, somente amizade, sentimento este que inclusive se intensificou com o divórcio, mas o filho não recebeu bem a revelação e se afastou do pai. Michel também carregava diversos arrependimentos em relação ao próprio pai, pois desejava que ambos tivessem sido mais próximos. Considerava sua vida desperdiçada.

Enquanto isso, Elio teve uma criação livre, era extremamente próximo de seus pais, os mesmos aceitavam sua bissexualidade e o encorajavam a ir atrás de quem amasse. Ele não foi obrigado a seguir uma carreira tradicional e pode seguir sua vocação: a música. Elio teve tudo aquilo que foi negado a Michel, e mesmo que não tenha inveja, há tudo isso que acaba separando ainda mais os amantes.

Essa lacunas não são preenchidas, mas ambos aprendem a manejá-las e a relação progride suavemente. Elio volta a se sentir bem e Michel sente-se feliz após muitos anos. Até que, numa visita a sua casa no interior, Michel dá a Elio uma partitura deixada por seu pai. Havia um mistério envolvendo o escritor da partitura: León, um conhecido do pai de Michel que ninguém conseguia falar exatamente qual era o vínculo dos dois.

Elio mergulha para tentar desvendar o enigma e descobre diversas coisas relacionadas ao compositor, e provavelmente sobre o envolvimento com o pai de Michel (provavelmente bissexual e que se envolveu com Léon antes deste ser morto durante a ocupação germânica na França durante a Segunda Guerra Mundial).

O tempo que passam juntos é precioso, mas uma coisa permanece entre os dois, agora não mais a diferença de vivências, mas sim uma pessoa: Oliver. Após tantos anos e mesmo com o carinho que brotou dessa nova relação, Elio não desistiu de seu antigo amor. E mais, o tempo que passou com Michel e os pensamentos que teve enquanto investigava o passado de León fizeram com que ele amadurecesse. No final do primeiro capítulo, Elio disse para Samuel e Miranda que nunca iria procurar Oliver, pois não tinha coragem para encontrá-lo novamente. Mas agora, ele finalmente reuniu a força para revê-lo e decidiu procurar por ele quando fosse em turnê pelos EUA.

A despedida de Elio e Michel é triste, mas singela. Não há ressentimentos, não há desespero, com a mesma calma que se conheceram, eles se despedem. Aqui o tempo não corre como no capítulo anterior, ele somente desliza. Haverá arrependimentos de não ter vivido tudo o que essa paixão poderia oferecer, mas uma fala de Michel sintetiza bem tanto esse momento quanto o capítulo:

“Viver significa morrer com vários arrependimentos entalados na garganta. Como diz o poeta francês: Le temps d’apprendre à vivre il est trop tard, até aprendermos a viver, já é tarde demais”.

Na linguagem musical, candeza é o momento que o solista tem a oportunidade de mostrar sua técnica sem o acompanhamento do restante da orquestra, mas ainda utilizando temas expressos anteriormente na obra. Ou seja, o capítulo se destaca da história principal para dar destaque para Elio, para que esse se entendesse melhor, e quando finalmente crescesse emocionalmente, poderia voltar a peça. E qual seria a história principal? Bem, o romance de Elio e Oliver!

Em Capriccio é a hora de vermos o que aconteceu com Oliver. Professor
universitário, casado e com filhos, Oliver está se mudando para uma nova cidade e vai dar uma festa de despedida. Elio foi abandonado por Oliver então já imaginávamos que ele não teria superado, mas e quem abandonou? Como estaria? O tempo não foi gentil com ele também.

Oliver continuava preso no passado, se arrependia e sentia que havia jogado 20 anos de sua vida fora. Mas no momento duas pessoas despertavam sua atenção (e nenhuma delas era sua esposa): Paul e Erica. Oliver conheceu Paul na faculdade e Erica era sua companheira de ioga, e ele resolveu convidá-los para sua festa de despedida.

Erica chegou com seu marido e Paul com seu namorado, mas durante o evento os 3 abandonaram seus parceiros e se fecharam numa roda de conversa. A mente de Oliver oscila entre o presente e o passado e conforme se embriaga, mais sente saudades de Elio. O sentimento explode quando Paul começa a tocar pianono meio da festa, o Arioso de Bach, a mesma música que Elio tocou antes de sua partida. Oliver reconhece tudo de ruim que já fez, ao mesmo tempo que pede por uma segunda chance, sem saber ao certo para quem apelar.

“Penso nas pessoas o tempo todo, mas o número das que magoei é muito maior do que o de pessoas com quem me importei. Nem sei dizer o que sinto embora sinta algo, ainda que esteja mais para uma sensação de ausência e perda, talvez até um fracasso, apatia ou desconhecimento absoluto. Um dia eu tive certeza, achei que soubesse das coisas, que me conhecesse, que as pessoas amavam ser tocadas por mim quando eu entrava com tudo em suas vidas sem sequer perguntar ou desconfiar de que talvez não fosse bem-vindo. A música me faz lembrar do que a minha vida devia ter sido. Mas não me muda.”

Após todos deixarem a festa e ele ficar sozinho com sua esposa, ambos deitam para dormir e Oliver tem um sonho erótico com Paul e Erica, mas percebe que ele só quer Elio, e decide visitar novamente a Europa.

Finalmente chegamos ao final da obra com De Capo e com ela a reunião de Elio e Oliver, agora ambos solteiros. O tempo passou e trouxe para a vida dos dois dor, felicidade, novos amores e o término deles; eles passaram tanto tempo desejando um ao outro, mas sem a coragem de perseguir o sentimento, que foi preciso mais de 20 anos para que finalmente reunissem a coragem necessária para retornar ao que eram antes. Mas agora, finalmente estavam juntos, e toda a espera pareceu valer a pena.

“Tanto tempo, tantos anos, e todas as vidas que tocamos e deixamos para trás, como se pudessem nunca ter acontecido – tempo, como ele disse antes de nos abraçarmos e dormimos tão tarde na noite anterior, o tempo é sempre o preço que pagamos pela vida não vivida”.

Mas, também preciso fazer algumas críticas. Admito que por diversas vezes me senti frustrado ou entediado lendo o livro. A linguagem extremamente poética que me cativou em Me Chame Pelo Seu Nome continuava presente, os personagens continuavam presentes, inclusive foi dado destaque para um dos personagens mais queridos da primeira obra: Samuel, o pai de Elio, mas por algum motivo as coisas não pareciam funcionar, principalmente em relação a Samuel.

O personagem extremamente inteligente, filosófico e sensível que foi apresentado na primeira obra agora soava pedante, pois qualquer palavra dita virava objeto de uma grande reflexão sobre o amor. Os monólogos que o faziam brilhar anteriormente agora manchavam sua imagem. Toda a obsessão de Elio com a história paralela envolvendo o pai de Michel teve o propósito de ensiná-lo a não deixar de fazer algo por medo (o que funcionou), mas ao mesmo tempo ela não foi muito bem incorporada, e por vezes passava a sensação de só ter sido jogada lá. Mas também reconheço que, mesmo odiando Oliver, o terceiro capítulo talvez tenha sido o mais bem escrito, sem excessos e sem falta, tudo pareceu se encaixar perfeitamente na proposta do autor.

Por fim, não posso deixar de comentar que preferi Me Chame Pelo Seu Nome. André Aciman não quis replicar a mágica do primeiro livro no segundo, mas deixou a  desejar na produção de algo novo. Contudo, a linguagem do autor continua bonita como antes, fazendo com que cada descrição te leve diretamente para a Itália ou França e trazendo um sentimento de nostalgia intenso. São nesses momentos silenciosos que Me Encontre cresce e mostra toda a sua grandeza poética, e não nas reflexões forçadas e fora de lugar de Samuel ou nas introspecções de Michel. Somente a cena de Elio caminhando pela rua com sua bicicleta ao lado de Michel se mostra muito mais preciosa do que páginas inteiras do capítulo anterior.

Me Encontre não é um livro ruim e vale a pena a leitura. Caso se despida das expectativas de encontrar algo muito similar a Me Chame Pelo Seu Nome, você conseguirá enxergar a beleza desse livro.

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