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THE MIDNIGHT GOSPEL – O Meio e A Mensagem

THE MIDNIGHT GOSPEL

Por Thomas Henrique Garcia (Palmirinha) TIX

ESSE TEXTO PODE CONTER SPOILERS

Inicialmente gostaria de apontar que a publicidade entorno de The Midnight Gospel tem me incomodado. Para além da própria divulgação da Netflix, foram lançadas várias notícias e artigos denominando a obra com “Adventure Time para adultos” ou “Rick and Morty loucão de ácido”. Não que essas alcunhas não tenham alguma lógica, mas me parecem extremamente simplórias para a profundidade temática e, principalmente, formal explorada pelo desenho. Sim, Midnight Gospel é um desenho animado com temática adulta1 que incorpora alguns elementos psicodélicos. Entretanto, resumir a série assim exclui justamente o ponto mais interessante da obra: a experimentação formal.

The Midnight Gospel é, antes de mais nada, a incorporação de um podcast dentro de um desenho animado. O resultado disso é uma forma inovadora para se tratar assuntos como superficialidade, relação do homem com tecnologia e, notavelmente, a morte.

Me deixem explicar: O Show conta a história de Clancy, um homem que possui um “Simulador de Multiversos”, que lhe permite explorar milhares de universos. Em posse de tal objeto, o personagem resolve criar um “Espaçocast”, indo entrevistar as criaturas fantásticas que encontra por esses mundos.

Acontece, que todas as entrevistas feitas pelo protagonista, são “na verdade” entrevistas reais realizadas por Duncan Trussell, dublador de Clancy e um dos idealizadores do programa, com convidados profundamente ligados ao tópico em discussão. Dentre os convidados temos, por exemplo, Drew Pinsky, médico especialista no tratamento de drogas, e Trudy Goodman, consagrada professora de Mindfulness e Meditação.

Essa junção, que poderia soar inicialmente como disfuncional, se revela o grande triunfo do programa, que consegue ser provocativo como poucas coisas do catálogo da Netflix (Não que isso seja lá tão difícil).

DA FORMA

Tanto os desenhos animados quanto os podcasts tem ganhado grande visibilidade nos últimos tempos. Ao mesmo tempo que uma visão inocente sobre os desenhos animados foi relativamente superada com a absurda popularidade das animações adultas, das quais não tem como não destacar Rick and Morty, os podcasts têm se consagrado um canal apropriado para que alguns assuntos fossem tratados com maior profundidade, na medida que a alta poluição visual de nossos tempos as vezes acaba por afastar as pessoas do objeto em discussão.

Justamente esses dois meios, ambos tendo um pico de popularidade, foram mesclados para dar a forma de The Midnight Gospel. O resultado é uma explosão de conteúdo sendo passada ao mesmo tempo para o receptor.

Essa grande quantidade de informação, sendo passada de forma verbal e visual, provoca inicialmente um certo estranhamento. Por vezes as informações verbais propositadamente se distanciam das informações visuais. É necessário desprender uma grande quantidade de atenção para conseguir entender tanto o diálogo quanto a narrativa passada pela imagem. Tal fator pode afastar o telespectador mais despretensioso, mas os aventureiros que resolverem se manter a bordo vão ter uma experiência, no mínimo, inovadora.

Mesmo que estejamos acostumados a processar diversas informações ao mesmo tempo, por exemplo quando respondemos mensagens de aplicativos em paralelo com um filme, a capacidade de síntese dos fatos é reduzida. O programa brinca com isso o tempo todo, diversas vezes temos momentos mais calmos na narrativa visual, o que nos leva a focar mais no diálogos, porém, em um ritmo alucinante, a narrativa visual vai evoluindo até momentos em que se impõe sob áudio, causando quebras no compasso da discussão.

A animação basicamente conta uma história sozinha em cada episódio. Por vezes adotando uma narrativa mais linear, como no episódio 04 “Ordenando um corvo”, mas também renunciando a formalismo quando lhe convém, como nos episódios 02 “Medite como cristo” e 05 “Rei das Colheres”. O enredo da série como um todo só começa a se desenvolver de fato no episódio 06.

O desenho dos personagens, que traz figuras mais arredondadas e contornos mais orgânicos do que as animações convencionais, se prova apto para dar forma aos mundos fantásticos e surrealistas visitados pelo personagem.

Interessante também a falta de pudor que a obra tem quanto a sua forma. Ao final de um episódio, um dos convidados agradece a Duncan pela discussão, Clancy indaga: “Quem é Duncan?”. Ora, essa falta de pudor consegue ser usada como instrumento para sinalizar algum desenvolvimento real do personagem, quando em um dos Clímax de episódio aparece de relance a filmagem de Duncan e seu Entrevistado gravando a dublagem.

DA TEMÁTICA

Independentemente de pontos específicos tratados em cada episódio, dois assuntos estão presentes em toda obra: a superficialidade das relações derivadas das mídias digitais e a iminência da morte.

É tocante a dualidade de Clancy, que consegue abordar assuntos profundos e complexos com tamanha empatia e animação em suas conversas virtuais, mas que age com indiferença e indisposição para qualquer elemento de sua realidade, como as ligações de sua irmã ou os avisos de seu computador.

A metáfora que escancara essa superficialidade do mundano é o formato fálico do “Simulador de Multiversos”. Quando ele coloca a cabeça dentro do simulador, é como se ele voltasse a uma condição em que não houvesse interferências externas, cotidianas, em sua existência. Podendo então ser expelido para um mundo virtual, usando avatares diversos e se permitindo ter alguma empatia.

Cheguei a acreditar que as conversas não tinham relevância para o enredo, dado que aparentemente não se refletiam nas atitudes do protagonista. Entretanto, é curioso que estas são justamente a parte real de todo o show, com explicações sérias de assuntos existências da condição humana, em contraste com as figuras surrealistas apresentadas pela animação.

A meu ver a série não faz juízo de valores entre os dois planos, real e virtual, já que ambos se integram para a construção de uma verdadeira figura do Clancy. Estas contradições do personagem refletem toda a geração de jovens cheios de ansiedade que povoam a internet, e tenta compreendê-la para além de uma visão conservadora que menospreza o personagem virtual criado, mas tenta integrá-lo com num toda da persona do protagonista.

Esta visão também é inclusive responsável, dado que o personagem sente eventuais abusos cometidos por desleixo com o mundo real em favor do virtual. Mas ao mesmo tempo ela escancara a humanidade dele.

Por fim, imprescindível falar sobre a relação do programa com a morte.

Tema presente em todos os episódios, em diferentes graus e maneiras, constantemente nos debatemos com a certeza da morte. Talvez proporcionada pela confusão entre real e virtual debatida acima, que por vezes causa a impressão de não aproveitamento integral da vida, os diálogos constantemente falam sobre como compreender e aceitar a vida. Nisso abordamos drogas, meditação, magia e espiritualidade.

A meu ver aqui a integralização do virtual no todo do personagem é abordado de forma positiva. Cada discussão que Clancy tem virtualmente, mesmo quando não aplicada no mundo real, o ajuda a formar um mentalidade mais madura sobre seu papel no mundo e em sua relação inevitável com a morte.

O final da série aborda essas discussões de forma bela e congruente com o desenvolvido anteriormente.

DA CONCLUSÃO

Série aonde a forma diferenciada se destaca, The Midnight Gospel é uma joia. A explosão de informação obriga a despender esforço para compreender o que se passa, nessa racionalização constante da mensagem passada, nos deparamos com reflexões fascinantes e livres de tabus. Elas deixam de ser bagagem somente do Clancy, e passam a ser nossas também. Vejamos isso como privilégio.


1 Seja lá o que temática adulta quiser dizer. Traçando um paralelo com Adventure Time, outra obra do mesmo desenvolvedor considerada, entretanto, infantil não vejo tantas diferenças de assuntos abordados. Talvez Clancy aborde com menos tabu questões como drogas, morte e religião, mas há assuntos desenvolvidos pelo desenho de Flin e Jake tão complexos quanto estes. A Tragédia por detrás do enredo do Rei Gelado é muito mais complexa do que vários desenhos infantis.

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