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A lei dos pobres e as relações de causa-efeito

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Por João Pedro Toledo (Muvi) – TXI

O horror à assistência pública, a desconfiança na ação do estado, a insistência na respeitabilidade e na autoconfiança permaneceram como características do trabalhador britânico durante gerações”. Essa citação foi tirada do livro “A grande transformação”, do economista político Karl Polanyi. Sua obra é de extrema riqueza teórica, onde ele intercambia assuntos da economia, antropologia, histórica e sociologia. Lendo esse livro nos meados da quarentena me deparo com tal passagem. E ela me incita uma reflexão pertinente para a conjuntura atual: as pessoas têm muita dificuldade de compreender as relações de causa-efeito nas convivências sociais e políticas.

Para observar esse fenômeno na Inglaterra, Polanyi discorre longamente durante o livro a história das mudanças vividas pelo país durante a revolução industrial. Segundo o autor, as mudanças materiais e tecnológicas que passaram a ilha britânica geraram uma pressão para a mercantilização do capital, da terra e do trabalho. Esse último, porém, demorou mais que os outros elementos para adentrar ao mundo do mercado auto regulável. Muito disso foi em decorrência da Lei dos Pobres e da Lei Speenharnland.

Em síntese, elas promoveram o assistencialismo aos trabalhadores mais pobres durante esse período de transição do feudalismo/mercantilismo para o liberalismo. Uma ideia que muitos que estão lendo defenderiam prontamente logo virou um tremendo problema. O que aconteceu na prática foi que os empregadores pagavam salários abaixo do mínimo de subsistência aos empregados e o restante era subsidiado pelo Estado ou pelas paróquias inglesas. Nisso, ou as pessoas trabalhavam com baixíssima eficiência ou preferiam ficar desempregadas e receberem apenas do Estado. Duas práticas pouco bem-vindas no capitalismo, as duas leis tiveram que ser revogadas e os ingleses passaram a horrorizar o assistencialismo, como apontou o autor.

Pelo meu entendimento, a conclusão que os ingleses chegaram é de uma superficialidade tremenda. Pelos escritos de Polanyi, realmente parece que essas leis foram ruins para a sociedade como um todo. Os ricos não tinham trabalhadores eficientes, a classe média tinha que bancar uma massa de indigentes e os mais pobres não conseguiam superar sua condição de necessitados. Contudo, não foram essas leis que causaram a pauperização da população inglesa, mas sim a própria inserção da sociedade no capitalismo. O livre mercado fez sobre a sociedade uma pressão para a mercantilização da mão de obra, cujas consequências foram a política de cercamento, o êxodo rural, a favelização e as péssimas condições de trabalho na indústria. Essas duas leis apenas foram remédios paliativos muito ruins para evitar a mudança brusca da realidade. Elas tentaram evitar o inevitável de forma catastrófica. E os ingleses elegeram essas leis como seu Judas.

E assim que nasce minha reflexão. Da mesma forma que os ingleses não conseguiram entender que o livre mercado e a sede de riqueza foram os motores para a violenta mudança da realidade laboral, os brasileiros de nosso tempo não conseguem descobrir as verdadeiras causas de fenômenos sociais e políticos. Citemos alguns exemplos: “O desemprego está alto porque há muitas leis trabalhistas”; “A Petrobrás fez maus negócios nos últimos anos porque toda estatal é ineficiente”; “A quarentena vai quebrar as empresas, logo devemos acabar com ela”; e ainda o clássico “Se a Dilma cair, o PIB dobrar”.

Todas essas frases de efeito, muito compartilhadas em nossa realidade, apenas demonstram como a falta de reflexão é um dos piores males de um país. O desemprego está alto porque nossa capacidade industrial, maior motor da economia, é dilapida pelos governos desde 1990. As decisões erradas dos dirigentes da Petrobrás não são indicativas que a estatal é ineficiente por natureza. Aliás, foi ela a primeira do mundo a desenvolver a tecnologia de prospecção em águas profundas. Por fim, se as empresas vão quebrar nessa quarentena é muito devido à omissão do governo em lhes promover assistência (exceto se você é um grande banco, claro).

Lembrem-se: encontrar a doença errada é o primeiro passo para o médico matar seu paciente. Não deixem de refletir.

Segue algumas notícias para ratificar aquilo que foi exposto:

https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/economia/industria-impulsiona-setor-produtivo-e-gera-emprego-e-renda/

https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2019/04/epoca-negocios-estagnada-industria-tem-a-menor-fatia-do-pib-desde-o-final-dos-anos-40.html

http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2006-04-21/petrobras-e-pioneira-na-tecnologia-de-exploracao-em-aguas-profundas

exame.abril.com.br/economia/dinheiro-na-conta-e-subsidios-como-paises-mitigam-impactos-do-coronavirus/amp/

www.infomoney.com.br/economia/com-crise-banco-central-ja-anunciou-r-12-trilhao-em-recursos-para-bancos/amp/

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