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Lovecraft, a Pandemia e o Fim do Mundo.

Por Julia Gallo (Post) – TXII

É engraçado como os livros que você lê parecem dialogar diretamente com a sua vida.
Ainda bem no começo da quarentena eu senti que precisava de um tempo, me distanciei
significativamente de todas as redes sociais e fiz uma lista de leitura que passei a intercalar com minhas crises de pânico por não entender merda nenhuma de processo e algumas (poucas) caminhadas. Um dos primeiros livros dessa lista foi uma coletânea de contos que procrastinei desde os dezesseis anos para ler.

Seria bom ressaltar que eu não procrastinei porque acreditava que não iria gostar, naquela época, o autor daqueles contos era sem sombra de dúvida nenhuma o meu favorito: Lovecraft conseguia sintetizar meus gêneros prediletos (a ficção científica e o terror) de um modo que não parecia haver qualquer possibilidade de um dia terem existido separadamente, eu não me lembro de ter lido qualquer coisa dele que não tivesse amado então aquela leitura me parecia uma garantia de que eu ainda começaria a quarentena ansiosa, isolada e sobrecarregada pelo EAD mas, para compensar, teria um ótimo escape para me fazer sentir como se -pelo menos por alguns momentos- eu estivesse em outro lugar, ok… talvez um lugar horrível com monstros ancestrais ambiguamente descritos, relíquias feitas em pedras desconhecidas pelo homem e algum tipo de culto obscuro sem uma motivação muito bem definida mas, ainda assim, me deixe escolher entre lidar com o Cthulhu ou o Bolsonaro que vou com a lulinha sem pensar duas vezes.

Então não tinha muito o que dar errado, certo? Eu iria fazer uma leitura rápida, divertida e ia acabar me sentindo aliviada e com aquele sentimento de completude maravilhoso que se tem toda vez depois de terminar um bom livro, mas não foi bem assim…

Primeiro de tudo: o Lovecraft é preconceituoso, tipo, ele parece ter mais medo de pessoas
negras, mulheres e imigrantes do que de um monstro ancestral cujo objetivo de vida é, em síntese e sem justificativa nenhuma, causar o fim do mundo. Um dos contos é uma espécie de versão racista de Frankenstein em que ele pega toda a reflexão linda da Mary Shelley, sobre como os verdadeiros monstros são os responsáveis por perpetuar a marginalização e o preconceito, e subverte de um jeito nojento em um conto de terror no qual a única coisa assustadora é a quantidade de vezes em que ele sente existir a necessidade de afirmar que o estudante de medicina perturbado, que desenterrava cadáveres (e em um momento chega até mesmo a matar um homem para usá-lo como cobaia) era superior e mais inteligente do que as pessoas que ele torturava simplesmente por ser branco e loiro (algo que o narrador repete, pelo menos, sete vezes no decorrer do conto).

Segundo: ele repete sempre a mesma fórmula. Além dessa versão grotesca de Frankenstein, os outros contos quase todos tratam de (adivinha?) um homem branco que (quase) sempre estuda na universidade de Miskatonic e começa a pesquisar sobre algum culto perpetrado por pessoas “inferiores” (aí a coisa varia muito: judeus, mulheres, ciganos, negros, asiáticos, literalmente qualquer pessoa que não seja um homem branco rico – até porque pessoas pobres também são apontadas como inferiores em vários momentos) o culto o leva a começar a pesquisar mais sobre essas culturas, e, via de regra, esse contato com o desconhecido é mortal: um personagem arqueólogo que deseja explorar uma caverna no deserto e descobre uma civilização exótica perdida acaba engolido por um lagarto astral, o outro que começa a pesquisar sobre o Cthulhu acaba morto pelos seus seguidores e o estudante de medicina psicótico acaba morto pelas pessoas “revividas” que usou para seus experimentos (literalmente a única coisa satisfatória no livro todo) e assim vai. Mas a parte engraçada é que justamente por isso o Lovecraft acaba sendo extremamente consistente: ele realmente tem medo de tudo minimamente desconhecido, tudo de estranho com que a sociedade branca, americana e burguesa na qual ele se insere tiver contato (na sua opinião), invariavelmente, vai acabar a destruindo – não importando se esse “estranho” seja um lula gigante com asas de morcego e rosto de lagarto adormecido no fundo do mar ou um casamento interracial.

Todo o contexto da vida de Lovecraft ajuda a entender porque tanto medo do estranho: no pós primeira guerra mundial, com toda uma geração ainda traumatizada pelos seus horrores, com uma revolução russa cujas implicações o mundo todo ainda lutava para compreender e um flerte com o nosso estilo de globalização atual fizeram com que aquele americano médio, interiorano, que se achava nórdico e tinha ilusões de uma grandeza aristocrática fosse obrigado a perceber que a cidade e os prédios que se sobrepuseram a ele durante toda a sua vida não eram tão grandes assim. A sua literatura é a forma que encontrou de lidar com isso; seus contos demonstram um sentimento de impotência quase sufocante diante de um enorme, e incontrolável, mundo desconhecido que se revela aos olhos de um narrador que luta para entendê-lo com uma lógica perecida junto ao senso de realidade que tinha antes daquele momento, com a morte do mundo como ele o conhecia. Os sentimentos dominantes em quase todas suas histórias são a frieza, a alienação, e o isolamento, ele emprega sua linguagem de uma forma na qual a introduz arcaísmos numa escrita mais “moderna” e acaba por fazer a narrativa ainda mais “estranha” de modo que o leitor nunca consegue, de fato, situar-se completamente nela e acaba quase tão perdido quando os personagens.

Aí nasce uma contradição enorme na obra de Lovecraft: se, por um lado, seu racismo e visão de mundo são completamente ultrapassados (isso é, se desconsiderarmos nosso atual presidente e cerca de 30% da população), o sentimento de solidão ao ver o mundo com o qual você sempre esteve habituado morrer e um novo nascer me doeu muito e é, agora mais do que nunca, extremamente atual. Em meio a uma pandemia, com a plena consciência de que a vida não vai nunca -nem mesmo quando o coronavírus for erradicado- voltar ao normal, que o mundo como eu conheci acabou e que vou ser obrigada a dobrar, desdobrar e adaptar meus costumes em uma nova realidade desconhecida, assustadora e infinitamente maior que eu.

Se antes, para mim, era coisa mais absurda do mundo uma sociedade continuar vivendo normalmente enquanto uma força desconhecida matava todos que entravam em contato com ela, hoje vejo meus vizinhos fazendo um churrasco com os amigos enquanto milhares de
pessoas morrem.

Nota: o livro de contos foi o “Lovecraft: medo clássico volume 1” da editora Darkside.

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