Política nacional · Política Nacional e Internacional

Emplasto do Messias

a volta dos bichos (2)

Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

Brás Cubas: herdeiro, bon vivant, bacharel em Direito, fracassado dono de jornal, dentre outras coisinhas a mais. Como se pode ver, não existe qualquer formação na área da saúde ao longo de sua vida. Mas isso não é algo que o impede de tentar alcançar a glória através do Emplasto Brás Cubas – o milagroso remédio que seria capaz de curar todas as enfermidades! Por causa do medicamento, Brás morreu, ironicamente, de uma pneumonia.

Hoje, temos um novo remédio milagroso. Seu nome é Cloroquina e é a principal bandeira do governo Bolsonaro para o combate à pandemia. Assim como o Emplasto, as evidências científicas a seu favor são quase nulas, o que não impede que uma legião de fanáticos defenda a droga com unhas e dentes. Esses fanáticos, em sua maioria, também são pessoas sem qualquer formação na área da saúde.

Em uma semana intensa, em que o STF finalmente começou seu processo de “desacovardação” e foi pra cima de uma grande ameaça à democracia e as instituições, as fake news (e recebe como resposta uma promessa de golpe do filho do presidente da República), escolhi falar da hidroxicloroquina porque talvez seja um dos sintomas mais emblemáticos do fenômeno bolsonarista que assola o país.

Dentre as diversas características do bolsonarismo, o discurso possui uma importância central. A fórmula é muito simples: eleva-se opiniões e achismos, que apesar de contarem com pouco ou nenhum embasamento técnico ou fático, a um nível de verdade absoluta. Ao mesmo tempo que incentiva o ataque a todos aqueles que não concordam – e normalmente o fazem de maneira melhor fundamentada – com essas “verdades absolutas”. Um exemplo disso são os debates, que já não acontecem mais, entre Caio Coppolla ou Tomé Abdush e Gabriela Prioli.

Essa é uma postura facilmente verificável. Foi assim com Mandetta e Teich, com a OMS, com os veículos de mídia e com as pesquisas universitárias. Os fanáticos preferem acreditar cegamente no paraquedista ao invés dos especialistas. Preferem acreditar em jornais e mensagens de whatsapp evidentemente falaciosas porque encaixam na narrativa. Se encaixam na história de Bolsonaro contra tudo e todos para salvar o Brasil.

Em tempos de terraplanismo, de movimentos anti-vacina, de seminários de filosofia de Olavo de Carvalho orgulhosamente exposto em diversos Lattes país a fora, esse comportamento não surpreende. Não apenas não surpreende como é um padrão que se repete em momentos de ascensão da extrema direita.

E o discurso bolsonarista é exatamente isso. É um discurso evasivo e raso, mas raivoso. Um discurso que cumpre seu papel de desviar o foco e a atenção da população. Um discurso que pode matar milhares de pessoas desde que isso signifique a consolidação do clã Bolsonaro no poder. É um discurso de extrema direita e, como tal, despreza absolutamente a vida.

Não existe medicamento milagroso. E, se existisse, não seria um com uma lista tão grande de perigosos efeitos colaterais. Também não seria um remédio que sequer funciona no combate à doença desejada. Mas isso não importa, não é mesmo? O importante é defender o mito. Custe o que custar. E até agora está custando o futuro de um país inteiro.

O objetivo do Emplasto nunca foi fazer o bem. Sequer era cura de qualquer coisa. O objetivo sempre foi ser o caminho para a glória do protagonista. Para que olhasse para trás e visse que ao menos fez algo de relevante em vida. Que deixou seu nome marcado. A Cloroquina é isso. É uma aposta. Uma aposta de redenção. É o legado do Messias.

Além das aventuras farmacêuticas, comparar Brás Cubas ao bolsonarismo é uma ofensa ao personagem machadiano. De um lado temos um infeliz solitário, com algumas ações questionáveis, evidentemente, mas não uma pessoa ruim. Do outro temos a personificação do ódio, do mais puro e truculento. E este ódio está nos destruindo. Está transmitindo, de fato, o legado da nossa miséria.

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