Política nacional · Política Nacional e Internacional

O Fiel da Balança

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Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

Desde que o Brasil é Brasil, os militares representam um quarto poder. Não um poder independente e harmônico em relação aos outros. Um poder que hiberna, atuando e se abstendo quando convém, mas sempre presente.

A República foi instaurada por militares. Vargas tomou o poder graças a uma aliança civil-militar, assim como, em 1950, militares tentaram evitar sua volta à presidência; em 1955, barrar a posse de JK e Jango; em 1961, militares tentam impor uma junta provisória contra a posse de Jango; e em 1964, finalmente, conseguem tomar o país de assalto, mantendo esse status até 1985. Todos os principais eventos desde o final do século XIX tiveram, quando não só um dedinho, a mão inteira de um general, ou de outro oficial de alta patente.

O que estou tentando dizer com esse corrido resumo da história republicana brasileira sob a ótica militar? Que nossa história é feita de golpes e contragolpes, todos se originando nas casernas ou nos Estados Maiores. E, da mesma maneira que a sociedade brasileira é extremamente plural e dificilmente tem consenso sobre qualquer assunto ou debate, o mesmo ocorre com as Forças Armadas. A principal razão para toda nossa história republicana não ter sido inteiramente sob a sola dos coturnos é graças a uma série de contragolpes que todos esses eventos acarretaram ou quase acarretaram (“Revolução” de 1932 iniciada por militares; em 1955, o contragolpe foi liderado pelo Marechal Teixeira Lott; em 1961, Jango apenas toma o poder graças ao racha do Terceiro Exército liderado por Brizola; e em 1964, não ocorreu uma guerra civil, também entre militares, porque o mesmo Jango não deixou).

Todo esse contexto histórico ajuda a explicar essa errônea interpretação do artigo 142 da Constituição Brasileira (Lula denunciou, enquanto deputado constituinte, que essa interpretação poderia ser feita e, portanto, o artigo deveria ser reescrito). Intervenção militar nos demais poderes é recorrente aqui há décadas e parte da população cresceu vendo e normalizando essa absurda particularidade brasileira. Logo, não deveria impressionar que, em situações de instabilidade institucional, uma massa gigantesca de brasileiros se volte aos quartéis para pedir uma solução. E aqui entramos em uma característica fundamental das Forças Armadas Brasileiras, perfeitamente resumida por José Dirceu: “os militares toleraram o poder civil, mas nunca aceitaram”.

Desde 1985, os militares vêm se abstendo do centro do debate político nacional, o que de forma alguma significa que renunciaram a fazer política. Foram protagonistas na reorganização do Comando Militar da Amazônia e no aumento de missões no exterior – este, um dos principais erros do governo Lula – que permitiram uma maior aproximação com as Forças Armadas Estadunidenses, o que ajuda a explicar a guinada diplomática que demos em direção à vassalagem absoluta aos interesses dos Estados Unidos. Mas o acontecimento mais marcante deste período foi à instauração, correta e necessária, da Comissão Nacional da Verdade no Governo Dilma. Ali de marca o fim da tolerância militar aos governos petistas e inicia sua volta ao centro do debate político.

Após o golpe de 2016, os militares começaram a ganhar cada vez mais protagonismo e assumiram no governo Bolsonaro um papel central que não viam desde o final da Ditadura. Ocupando diversos ministérios e secretarias, além de dezenas de outros órgãos da Federação. Todo esse cenário favorável a seu retorno à estrutura governativa tem deixado os militares à vontade para expor sua forma absolutamente fascista de ver o mundo. Começando pela nota conjunta dos três comandantes elogiando o golpe de 1964 e caminhando pelo completo desrespeito às instituições civis, demonstrado por Augusto Heleno.

Isso tudo coloca os militares em uma verdadeira encruzilhada. Como disse anteriormente, nem as Forças Armadas são unânimes quanto a ideologia e método de atuação. Os mais radicais já estão com Bolsonaro, com certeza muitos em sua juventude, foram próximos dos militares linha dura da ditadura, como é o caso de Augusto Heleno. Outros saíram do governo, como o General Santos Cruz, mas sua influência nas Forças Armadas ainda não é clara. Soma-se a isso um cenário de pandemia e um governo impopular, contudo, com uma base de apoio extremamente fiel. Evidentemente que esse cenário acarreta em embates entre governistas e oposicionistas cada vez mais recorrentes.

Nessa conjuntura de absoluta instabilidade, é que entra o fiel da balança e aquele poder que estava hibernando acorda de vez. É o fim de mais um período de tolerância ao poder civil. 

A ascensão da extrema direita, iniciada com as jornadas de junho de 2013, está chegando a um desfecho. E esse desfecho se iniciará com as manifestações democráticas e antifascistas dos próximos dias.

É momento de união. União das forças democráticas em torno de um único objetivo: resistir. Estamos diante de um golpe de Estado. Um golpe que, caso tenha sucesso, com certeza significará em mortes, torturas e todo tipo de barbaridades que o fascismo tupiniquim julgar adequada.

Como dizia Lênin, “há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem”. Estamos em um ano cheio dessas semanas.

Ainda quero acreditar que, por um milagre, uma ruptura relevante nas forças armadas aconteça e permita um contragolpe ou, ao menos, uma resistência com poder de fogo real. É improvável, mas a esperança é a última que morre. Por ora, só me resta desejar toda a força do mundo aos companheiros e às companheiras que estão na linha de frente de resistência contra o fascismo. Se os militares são o fiel, já passou da hora de destruir essa balança. Precisamos de um novo modelo, em que o fiel seja o povo.

Fora Bolsonaro!

 

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