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Véspera

Análise do quadro A Persistência da Memória de Salvador Dalí ...

Por Ana Flávia Toller (Curta) – TX

Quando a Clara tinha 7 anos  ficava acordada de madrugada esperando chegar a data. Ela podia contar nos dedos e marcar no calendário os dias favoritos dela: tinha o dia 07 de abril, o 24 de dezembro e o 30 de dezembro; o 11 de outubro também era bom. Sempre que o ano virava e alguém da casa dela fixava um calendário novo na geladeira, ela marcava um X nesses dias: arrastava a cadeira,subia e desenhava um X capenga com um lápis de bichinho. A mãe não entendia, nem o pai; mas na verdade eles nem reparavam muito bem, porque era coisa de criança e que mal fazia, afinal?

Mas, se tinha uma coisa com a qual  eles se importavam, era com aquelas madrugadas em que ela não queria dormir. Com o tempo a Clara foi aprendendo a fingir que dormia, pra que os pais parassem de implicar. Obviamente o sono do dia seguinte a denunciava, mas ela se fazia firme e fingia costume. Afinal, essas madrugadas precediam (ou já eram?) os dias favoritos dela, as datas que esperava chegar:  no dia 08 de abril cantavam parabéns e ela ganhava presente, no dia 25 tinha almoço de família e festa, dia 31 fogos de artifício, e 12 de outubro ganhava MAIS presente porque, afinal, era um outro dia todinho dela e, pasmem, de outras crianças – na verdade, a Clara não entendia muito essa lógica, mas também não entendia o que era lógica, então sigamos.

A Clara gostava da véspera. Ela amava a sensação e continuou amando. Eu concordo com ela e acho que a véspera é um momento de expectativa que transcende o dia oficial. É aquele dia que precede o que vai acontecer, e que preenche a nossa ansiedade boa – um medo do conhecido que esperamos. Bom, só que a Clara não sabia muito bem dessa ansiedade à época, só sabia sentir que amava a véspera. No dia 24 de dezembro, por exemplo, tinha essa movimentação frenética pra deixa impecável um simples  almoço do dia seguinte – e  no dia 25 todo mundo destruía tudo em poucas horas; no dia 30 de dezembro o “Feliz Ano Novo” da moça da loja  fazia finalmente mais sentido, porque só nesse dia a gente estaria “quase lá”, em pouco tempo! E quando chegava o dia 31…bom, aí já estava né; na véspera do seu aniversário, ela esperava o bolo favorito do dia 08 de Abril… fala sério, quer motivo mais gratificante pra perder o sono? Além disso, fazia a conta mental de  “quem será que se lembrará?”. E quando chegava o dia do aniversário…bom, aí já tinha nascido né.

Quando a Clara cresceu, nas entrelinhas do diálogo, um assunto sobre parto pousou naquela conversa entre ela e sua mãe. A Clara, grávida de 6 meses, dizia que estava muito mais pesada do que imaginara e se preocupava com o bebê. A mãe respondeu que aquilo pouco significava, pois quando grávida,  a Clara não tinha deixado sua barriga grande, mas ainda assim deu um baita susto na família. “Ué, mas como assim?” – perguntou Clara à mãe.  “Mas Clara”, ela respondeu, “eu já não te contei que você nasceu de véspera?”.

Como um grande cometa que passa veloz na atmosfera terrestre e desequilibra a natureza das coisas, a Clara se levantou e correu pra encarar o calendário da geladeira da cozinha. Marcou um X – agora de caneta –  vermelha – no dia 08 de Abril.

Eu soube essa história na sessão de hoje da Clara. Ela se dedica há meses na terapia, e estou certa de que estamos, hoje, mais perto de identificar o que há por trás do seu diagnóstico de insônia crônica.

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