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OCIOSFORK: DELÍRIOS LÍRICOS

Por Thadeu Vilas – TXII

Em seu sexto álbum de estúdio em carreira solo, Delírios Líricos (2020), Tatá Aeroplano utiliza dos sentimento como matéria-prima para suas canções.

Na letárgica Amoras na Beira do Rio, Tatá canta lembranças de um amor que ainda deixa saudades (Do tempo que eu parei de beber / Fiquei limpo por mais de um mês / Na noite que eu recai / Finalmente eu te conheci / Você me levou pra sua rua / Me contou sua vida / As vidas passadas / As que estão por vir), acompanhado por acordeão, batidas espaçadas, e sintetizadores. A música soa íntima como se o artista estivesse frente a frente com o ouvinte enquanto lhe conta uma história.

Ainda sobre o tema das memórias sobre amores que não deram certo, temos Deusa de 67, composta no início dos anos 2000 e batizada em homenagem ao filme. Enquanto em Amoras na Beira do Rio há uma atmosfera mais tranquila e etérea, na faixa atual as lembranças não são muito tranquilas. O artista canta triste para o fantasma da pessoa que um dia esteve junto, mas que hoje não está mais presente (Sinto o seu cheiro / Sua presença / E vou embora do cinema / Chego em casa e coloco pra rolar / O primeiro disco da Betânia / E vou direto pra faixa oito / A do nosso primeiro beijo), enquanto os sintetizadores tocam ao fundo, dando um ar melancólico e nostálgico.

Além de recordações, há também músicas que utilizam de um passado como forma de análise pessoal, como a delicada Trinta Anos Essa Noite, onde Tatá canta como se sente agora após um término É delírio meu / Valorizar assim a solidão / Mesmo que exista / Uma outra saída / que não seja você / Eu sigo o meu caminho / Pra sempre / ser sozinho.

 Mas nem só de amores o disco é feito, como pode ser visto na faixa de abertura: Alucinações. Começando somente com um violão singelo, a poesia delicada e melancólica de Tatá conduz a música, fazendo um retrato da situação política e social brasileira atual. Uma hora a voz está contida e baixa, em comunhão com as cordas simples, até que então há uma explosão de percussão e as vozes de Bárbara Eugênia e Malu Maria entoam Nos pratos nas prateleiras / O veneno escorre e após o boom a música volta para seu ritmo anterior, havendo tal repetição até que a música culmine para uma erupção psicodélica, onde guitarras distorcidas reverberam enquanto Tatá canta Pra morrer em nome de deus.

A produção do álbum é marcada por melodias calmas e nostálgicas, dando uma sensação de aconchego às letras emotivas. Porém, a atmosfera tranquila por vezes é quebrada, como em Ressurreição, feita em um ritmo mais agitado e conta com percussão bem marcada, ou então por explosões de psicodelia.

Definitivamente, o ponto de maior destaque do álbum é a habilidade de Tatá contar suas histórias, como na cinematográfica Réquiem para um Sonho, na qual o artista versa sobre uma simples saída de casa, mas que pela habilidade poética, acaba ganhando uma profundidade muito grande. Voltamos a pé pra casa /cantando pra chuva cair / as ruas desertas / você me ensinando / a ser mais tranquilo / a gente sorrindo / e mesmo sorrindo / eu não acredito / em deus.

Por fim, Delírios Líricos é um álbum marcado pela solidão, como já se pode analisar desde a imagem trazida na capa: o artista sozinho sentado em um sofá, com um cachorro deitado ao longe, tudo em um terreno natural com vegetação escassa e espalhada. Apesar do sentimento melancólico, o álbum não é frio, não sendo necessariamente doloroso ouvi-lo, mas sim reconfortante, como se ao reviver as experiências do músico paulistano, você pudesse reviver as suas próprias e fazer as pazes com elas.   

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