Feminismo · Frames de Ofício

Striptease! Mas não para você

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Por Ana Paula Silveira (Boto) – TXI

Para que a gente possa ter uma conversa sincera no texto de hoje desta coluna cinematográfica, eu preciso dizer a vocês: “Striptease” (1996) não é um filme que eu assisti recentemente, como costumamos fazer com as obras relatadas por aqui. Entretanto, essa análise só pode ser feita hoje por dois motivos: quando eu assisti ainda não era estudante da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (USP), o que faz com que fosse impossível eu ter contato com o Ócios e produzir tal conteúdo para cá; e a percepção da situação como trago neste presente relato dependeu de todos esses anos de amadurecimento, de aprimoramento dos meus conhecimentos, não apenas relativos ao esporte e ao cinema (este segundo são bem limitados, preciso admitir), mas em relação a um aspecto muito gritante de todos os filmes que se assemelham a esse (e não são poucos): a hipersexualização dos corpos femininos e o machismo estrutural.

Já que fui direto ao ponto, prossigamos. “Striptease” é um filme de Andrew Bergman, lançado na segunda metade da década de 1990, que conta a história de uma mulher que se encontra desesperada, pois ficou desempregada, após manobras extremamente sexistas de seu ex-marido, e que briga na Justiça pela guarda da filha. Não diferentemente da realidade, porém, de forma muito romantizada, o filme mostra como, diante deste cenário angustiante, acaba entrando para o mercado do sexo, virando uma stripper numa boate em Miami. É muito óbvio que a história vivida por Demi Moore não abarca minimamente a questão da marginalidade social em que vivem as chamadas “profissionais do sexo”, principalmente ao considerarmos a condição das travestis, até porque prostituição não é a atividade que ela exerce também. De toda forma, é necessário ressaltar: a abordagem cinematográfica hollywoodiana da situação de mulheres que vivem em condições semelhantes – que por questões econômicas, passam a vender o próprio corpo -, é muito, vou chamar aqui educadamente de, eufemista.

Isto posto, precisamos entender por que foi interessante para mim, como pole dancer praticante há mais de meia década e feminista, querer conversar sobre esse assunto. Vou lhes contar, brevemente, um pouquinho sobre mim: eu comecei a praticar pole dance (que também é considerado esporte) com 15 anos de idade, quase 16. Entre idas e vindas nos estúdios por conta da graduação, estou quase batendo os 7 anos de prática, e é muito natural que ao assistir um filme como esse eu fique incomodada. Ok, e por que você quis assistir esse filme, então?

Uma coisa interessante do pole dance é que não existe padrão na nomenclatura dos nomes dos movimentos, das poses e dos giros ao longo do globo. Digo interessante, mas para mim que sou metódica para caramba é bem irritante (kkkkk). E é importante saber disso, porque logo que adentrei esse universo maravilhoso do pole dance (pratiquem!), eu aprendi um giro chamado “Giro Demi Moore”. Juro. É movimento básico, básico, básico. Tipo o que você aprende na segunda aula. É lindo, fácil, e serve de transição para diversos movimentos. E me lembro bem que a professora ao me passar esse giro, explicou que tinha esse nome porque a atriz, Demi Moore, fazia-o numa cena de um filme. Eu fiquei curiosa. Anos depois, inclusive após descobrir que o nome técnico é “Giro Back Hook”, eu achei este filme no catálogo da Netflix (não está mais), e me recordei deste comentário. Convidei minha mãe para ver comigo, e lá estávamos nós duas no sofá numa tarde comendo pipoca e assistindo um filme chamado “Striptease”. O filme cumpre bem seu papel em estereotipar a prática do pole dance completamente atrelada à strip. E voilà, descobrimos a minha motivação principal para falar sobre este filme: fazer pole dance não implica em fazer striptease. E eu vou te contar porque isso é tão problemático.

Falemos o óbvio novamente: hipersexualizar corpos femininos é problemático por essência, e fim de conversa. Mas com o advento do cinema, esta prática ganhou mais um instrumento para cumprir um dos preceitos da sociedade patriarcal: objetificar os corpos das mulheres e colocá-los a serviço dos desejos e dos prazeres dos homens. “Striptease” é apenas um entre a dezena de filmes que colocam mulheres para arrancar a roupa e ganhar audiência. Vale comentar que a produção de Bergman movimentou mais 100 milhões de dólares americanos. Você provavelmente não deve saber, mas o pole dance tem origens centenárias. Era uma prática muito tradicional de ginástica feita por homens na Índia em mastros de madeira. São os primeiros registros. E essa concepção deturpada e sexualizada que se tem hoje é promovida justamente pelo cinema e pela indústria musical que recorrentemente fazem produções audiovisuais com mulheres de corpo padrão (vamos falar disso mais pra frente) dançando na barra (Não poste, não cano, não pau, nada disso. Barra.) e fazendo strip. Para ilustrar, podemos encontrar exemplos além de “Striptease”: a cena de peruca rosa de Natalie Portman em “Closer – Perto demais”; Christina Aguilera em “Burlesque” (estilo, inclusive, relevante na concepção atual que se tem de pole como prática sensual); cenas do clipe de “Rockabye” da Clean Bandit; Shakira, Jennifer Lopez, Lindsay Lohan, Miley Cyrus, Madonna, Britney Spears, Kate Moss, Flávia Alessandra, e outras tantas mulheres que já apareceram nas telas ou em shows fazendo alguma coisa que remetesse ao pole dance. Sempre de forma sexualizada.

Para mim, e para todas as pessoas que praticam, isso é muito cansativo, por diversos motivos:

1- Não só mulheres praticam pole dance. Pasmem. Existem homens praticantes, e que não são necessariamente gays. Achou que ele era gay? Ficou decepcionado, por quê? Estava interessado?

2 – Não são apenas pessoas padrão que praticam pole dance. Para ilustrar essa conversa, não encontrei imagens de corpos não-padrão, mas confia em mim: pessoas de qualquer idade – sim, existe modalidade voltada para crianças, e pessoas mais velhas também podem praticar com cautela e desde que tenham condições de saúde – podem praticar, pessoas com todos os corpos, gordos ou magros, musculosos ou não. O pole dance não é discriminatório. Só o preconceito é.

3 – Nem todo mundo que pratica quer ter uma abordagem sensual na dança. Isso é coisa da sua cabeça machista.

Mas ó, não está errado querer rebolar de forma sensual na barra ou tirar a roupa, tá bem? É por isso que existem diversas vertentes do pole dance, e não apenas – pasmem de novo – uma única que implica necessariamente em satisfazer seu fetiche inconveniente por uma striptease. Resumidamente, temos a vertente fitness, a mais conhecida e promovida hoje em dia (a que trataremos mais um pouco aqui), a glamour (sensual), e a exotic (que puxa pra um lado mais sensual a depender do espectador/praticante, mas explora muito além da barra). O que isso nos mostra? Que felizmente, o pole dance, depois da sua popularização na década de 1960 a 1980 como prática intrinsecamente atrelada à striptease, vem ganhando espaço, nos últimos 10 anos, como algo além da dança sensual, como ginástica, esporte, inclusive pleiteando espaço como modalidade olímpica em 2008. Por essa você não esperava, não é mesmo?

E para te provar que o pole vai além da dança – hoje, existe a nomenclatura “pole sport” – e que ao contrário do que o cinema, ainda de mãos dadas com a lógica machista capitalista, promove como sua imagem, a prática do pole dance se assemelha e muito ao ballet, ao tecido acrobático, à ginástica rítmica, e até mesmo ao yoga. Por isso recebe também alguns nomes como “vertical gym” ou “aerial gymnastic”. Saca só as imagens abaixo que eu carinhosamente coletei para vossas senhorias:

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Não restam dúvidas para mim, como feminista e praticante há anos, que o grande problema do pole dance nunca foi a prática em si. Que não é promíscua, não é erótica, não é vulgar. É linda como qualquer dança e prática esportiva. O problema sempre foi como os olhos se recaem para as praticantes, principalmente, mulheres. É comum, logo que você começa praticar que os comentários inconvenientes surjam. Piadas machistas, pedidos para você dançar para a pessoa, cochichos, questionamento sobre sua postura, sobre suas roupas. Muitas mulheres perdem apoio familiar inclusive, ao se tornarem pole dancers. Mas felizmente, hoje, no Brasil, há mais de 10 anos o movimento só cresce, e com uma nova onda feminista, as mulheres nesse meio se apoiam. O pole é meio de autoaceitação. Revisão das nossas próprias limitações, ultrapassando nossos próprios limites físicos (os quais achávamos que existiam). Particularmente, para mim, o pole dance significa muito para o que sou hoje. Mas isso é papo para outro texto.

Por fim, que a cada ano que passe menos mulheres se sintam acuadas de praticar. Que nós não precisemos nos esconder em estúdios de portas trancadas e com entrada proibida para homens (sim, principalmente em estúdios em que não existem turmas masculinas), por medo e por não querermos nos sentir desconfortáveis, por estarmos vestindo as roupas adequadas à práticas (peças de ginástica como tops, shorts curtinhos ou bodies com recortes, para ajudar na aderência da pele na barra e evitar acidentes, como quedas), por estarmos praticando o que amamos, e que as marcas que fiquem em todas as pessoas que se dispõem a sair da zona de conforto e adentrar o maravilhoso mundo do pole sejam só os roxinhos que a barra, invariavelmente, vai deixar. Que se por opção, mulheres decidam seguir uma vertente sensual, que seja com liberdade de fato. Antes de falarmos em liberdade sexual para as mulheres, precisamos discutir machismo estrutural e objetificação dos corpos femininos, uma vez que, toda essa estrutura, por vezes, se aproveita de uma busca de liberdade pelas mulheres, para aprisioná-las ainda mais. Por isso é tão importante questionar obras como essa e as abordagens que fazem obras como essa.

Sim, eu sou pole dancer, provavelmente sou mais forte que você ou sei administrar melhor minha força. Não, eu não sou uma stripper, eu não faço necessariamente striptease. Com certeza, não para você.

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