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A Política Sexual da Carne

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Por Flávia Gomes (Dora) – TXII

Há exatos quatro anos e 7 meses escuto coisas como “se já tá morto, qual o problema?”; “com tanta coisa importante para defender, para que levantar bandeira dos animais?”; “é a cadeia alimentar natural, não tem que lutar contra isso”; “nem um peixinho?”; “acho até legal, mas não me vejo sem um churrasco”; “animal não tá nem aí para você” e “só você parar de comer não muda nada”.

Talvez não seja óbvio para todos porque lutar contra o consumo desenfreado de carne é tão importante. E talvez também não seja óbvio como o vegetarianismo e o veganismo se interligam a outros movimentos sociais. Apresento a você “A Política Sexual da Carne: uma teoria crítica-feminista-vegetariana”.

Uma observação: existem diversos tipos de vegetarianos – ovolactovegetarianos (que não consomem carne, mas consomem leite, ovos e seus derivados), lactovegetarianos (que não consomem carne e ovos, mas consomem leite e seus derivados) , vegetarianos estritos (que não consomem nenhum tipo de alimento animal ou que dele provenha) e veganos (que não consomem nada animal em todos os âmbitos sociais). No livro, Carol J. Adams defende o vegetarianismo estrito.

O livro é composto de nove capítulos, distribuídos em três partes.

Carol inicia seu livro explicando que antes de entender as relações entre as lutas sociais, era feminista e vegetariana. A partir de seus estudos, se tornou feminista-vegetariana, um não podendo mais ser dissociado do outro. Pensando em mostrar seu ponto de visão sobre a dominação patriarcal e o consumo de carne, a obra foi escrita. Por isso afirma que “a razão de ser da obra é o ativismo, ela é uma teoria engajada”.

É a partir disso que ela começa a sua defesa de que não podemos hierarquizar causas sociais, apesar de entender a preocupação das feministas de que a defesa dos animais desvia o foco da causa. Ela defende a intersecção, inter-relação das causas “temos que por fim ao ativismo fragmentador”.

Adams propõe uma mudança de perspectiva sobre as carnes e os produtos originais no geral. Para ela, é o esquecimento do que realmente comemos que contribui para que esqueçamos o que – mais precisamente, que animal – foi explorado. Assim, ela apresenta o conceito de “proteína feminilizada”, para se referir a leite, ovos e mel, que são proteínas advindas de um corpo feminino.

O feminismo e o vegetarianismo estão diretamente ligados porque o domínio patriarcal é, e sempre foi, sustentado pelo consumo de carne – ou, como ela chama, de proteína animalizada. A vida toda somos ensinados que comer carne é um ato de viralidade, um sinônimo do ser viril. Na outra ponta da balança, está o entendimento social de que comer vegetais é o que define o feminino. A autora recorre a uma série de frases sexistas no dia a dia que estão ligados diretamente ao consumo ou não da carne. Se você nunca ouviu um “comer salada é coisa de mulher”, meus parabéns.

Adams também traz a tona outro ponto: com a política sexual da carne também é uma política racial sexual da carne. O consumo de carne não é somente um símbolo do poder masculino, como também é do racismo. O consumo de carne mantém uma hierarquia de raça, gênero e classe: “o racismo e o sexismo, juntos, defenderam a carne como alimento do homem branco” . Enquanto os homens brancos ficam com os melhores pedaços de cada corte de carne, negros ficam com o considerado “de segunda classe”. Não obstante, ela faz o paralelo com o fato de que, quando não há carne para todos da casa, são os que a recebem.

“a política sexual da carne é também a presunção de que os homens precisam de carne e têm direito a ela, como também que o consumo de carne é uma atividade masculina associada à virilidade”

Outro ponto é o sexismo linguístico passado através das proteínas animalizadas. É dentro dessa lógica que o não consumo de carne por homens é considerado algo “efeminado, frescura, gay e fracote”.

“O que é a política sexual da carne? É uma atividade e uma ação que animaliza mulheres e sexualiza e efemina os animais”

No capítulo “estupro de animais, retalhamento de mulheres”, Adams fala sobre o referente ausente, conceito de Margaret Homans, que a autora se apropria para explicar o entrelaçamento da opressão sofrida por mulheres e animais.

“Por trás de toda refeição com carne há uma ausência: a morte do animal cujo lugar é ocupado pela carne. O referente ausente é o que separa o carnívoro do animal e o animal do produto final. A função do referente ausente é manter nossa carne separa de qualquer ideia de que ela ou ele já foi um animal […] evitar que algo seja visto como tendo sido um ser […] tornando-se, em vez disso, uma imagem que não está ligada a nada”.

Da mesma forma que animais se tornam referentes ausentes, mulheres se tornam referentes ausentes – em estupros, em violência doméstica, na puxadinha de braço no meio da festa que não foi nada demais.

Tratamos mulheres e animais como referentes ausentes: não estão presentes, somente a sua referência.

No capítulo “violência mascarada, vozes silenciadas”, a autora explica como a linguagem transmite opressões e discute o silêncio das vozes vegetarianas diante da cultura dominante de consumo de carne: “até agora, o feminismo aceitou o ponto de vista dominante com relação à opressão dos animais, em vez de lançar sobre essa opressão toda a luz da sua teoria – nossa linguagem não se centra apenas no masculino, ela também é centrada no humano”.

A opressão dos animais passa por dois níveis. O formal (matadouros, zoológicos, circos, açougues) e pela linguagem. Por que falamos que comemos carne e não um cadáver? Trocar os nomes do que comemos oprime aquilo que é comido. Quer um pedaço de vitela? Muito melhor do que dizer “Quer um pedaço de bezerrinho anêmico morto?”. A violência é mascarada através das palavras, é o “estupro violento” (e tem como não ser?) e o “abate humanitário” (gostaria de uma dose dessa também?).

Para a autora, a dicotomia que a sociedade transformou o vegetarianismo (seletivos, exigentes, confrontadores, hipócritas x sentimentais, infantis, femininos) é uma estratégia: tudo aquilo que se refere ao feminino é visto como frágil, fraco. Ser vegetariano é símbolo disso (já cansei de responder perguntas como: você não se sente fraca? e as vitaminas? nunca teve anemia? não, obrigada).

A sociedade impôs que comer proteína animalizada é normal, não comer não o é. Quando uma pessoa informa que é vegetariana é quase como uma resposta natural perguntar as razões que levaram a adoção do vegetarianismo: “Uma feminista que destaca a violência sexual embutida em determinado contexto é tachada de histérica; e a vegetariana que foca no assassinato dos animais é chamada de sentimentalista […] quem é feminista ou vegetariano torna-se um problema”.

Para a autora, vegetarianismo e pacifismo são dois lados da mesma moeda. Precisamos contestar a sociedade que contesta a guerra, mas naturaliza o consumo de carne.

No último capítulo, ela defende uma teoria crítica-feminista-vegetariana, afirmando que ambos lutam contra a cultura de dominação masculina.

“O consumo de carne nunca é neutro. Os carnívoros se veem como “comendo vida”. Os vegetarianos veem os carnívoros como “comendo carne”.

2 comentários em “A Política Sexual da Carne

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