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Boca de Cachorro Louco: por Kah Dantas

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Por Tiago Augustini(TX )

“Isto não é ficção”. Pronto, meu hipócrita leitor, meu igual, essa frase é o incipit do livro do Starbooks dessa semana. Pode claramente integrar os melhores incipt já criados pela humanidade literata deste globo, perde-se apenas para o “No princípio, Deus criou os céus e a terra”, da Bíblia, esse é imbatível, mas temos O Estrangeiro, de Camus; O Mito de Sísifo, também do Argelino, Lolita, do Nabokov e etc, a lista é longa, mas, enfim, por que digo que esse início é incrível? Ora, vejam isso: 

“Acordei-o possessa de raiva, exigi que me contasse a verdade, porque eu tinha direito de sabê-la, perguntei insanidades, mas a decepção só se multiplicou depois que ele avaliou as mentiras e permaneceu calado, “é você quem está me acusando”, ele disse, e a decepção cobriu-me os olhos e tomou as minhas mãos, e eu puxei-o para fora da cama e atrapalhei o seu sono, mas então ele me deu um chute bem no meio das costas, não sem força, e depois esmurrou o meu braço e me chutou outra vez para fora da cama, fiquei olhando-o incrédula, porque nunca imaginei que ele fosse capaz de tanto, ele ainda não estava satisfeito, e quando o chamei de “covarde” e “mentiroso”, comparando-o a uma criatura com quem eu tinha me relacionado anos antes e que tinha mentido para mim do mesmo jeito, para então ir embora e me deixar cheia de dívidas, ele me odiou e me deu um soco na boca do estômago.” 

Estas são as palavras de Kah Dantas, em seu livro Boca de Cachorro Louco (a imagem que esse título remete peço que a todos que perguntem à Kah, vale a pena), não se trata de ficção, o livro conta a história de um relacionamento abusivo que Karine viveu – sofreu. Senhores, como bem suspeitam, sou um tipo que compra livros e o livro da Kah entrou em minha vida em 2019 – reli-o para escrever essas pobres linhas – e agora na quarentena percebo que a temática possui relevância maior. Isso muito devido ao aumento de casos de violência contra a mulher que são agredidas por seus parceiros (procurem os números e as fontes, mas deixo um dado – somente em abril o aumento foi de 35% e, por enquanto, esse aumento passa dos 50% de um número que já é muito alto para um país que se diz “democrático” e “livre”). 

Mas voltando ao livro. Kah Dantas escreveu este livro que conta a trajetória de sua vida com um agressor. Bem, serei mais leve, é a história da Kah Dantas vivida num relacionamento abusivo que dura 80 capítulos, do livro, claro, porque imaginem o tanto que dura, na percepção de tempo da Kah, as agressões psicológicas e físicas? Ele teria o triplo de suas 138 páginas. Mas eu disse sobre os capítulos, pois eles são curtos, duram uma página ou duas, mas exprimem toda a angústia tanto da vítima, que é Kah, tanto do agressor que em sua cabeça acredita ter posse de alguém e como sei disso sem o conhecer? É simples, vejam isso: 

“Puta. Vagabunda. Mentirosa. Tu quer dar pra ele, é? Tu já deu pra ele? Fala a verdade! Eu não quero conversa com puta não! Minha primeira namorada era virgem, sabia? Tem vergonha não? Foi por isso que teu marido te deixou? Porque tu é uma puta mentirosa? Eu não sei onde eu tava com a cabeça quando resolvi colocar meu pau dentro de ti. Essa porra 

vai é apodrecer! Para de falar comigo, sua puta! Tenho nojo da tua voz! Vou só pegar minhas coisas e vou embora. Não encosta em mim, não, que eu tenho nojo. Não quero saber. Você é uma puta. Eu sabia que tu era assim, não sei pra quê insistir nisso. Sério que tu ainda tá falando? Cala a boca! Tu não tem dignidade não? Eu não te amo, não. Sério que tu pensa que eu gosto de ti? Sério mesmo? Eu só queria te comer, otária. Tu foi pra onde? Heim? Fala, puta. Tava onde? Tava falando com quem? Se tu mijar fora do caco, eu te mato, viu? Tem certeza, né? Depois não diga que eu não avisei… Tá comigo porque quer. Tu sabe que a gente não vai mais se deixar não, doidinha. Se tu me trair, eu te mato. Tô te avisando! 

Mas Kah não o conheceu assim, os primeiros capítulos nos informam um início de relacionamento particular, poético até, um quê de romance interiorano. O sexo sempre foi muito bom entre os dois e isso está no livro de forma clara e explícita. Sim, meus fariseus, há cenas sexuais explícitas, mas isso de forma alguma é sem objetivo. E o que é mais incrível é o que nos causa ao ler o decorrer da história – é poético sim, mas é uma dor imensa acompanhar a progressão dos atos violentos – os psicológicos são muito piores, se o pobre leitor dessas parcas linhas não conhece alguém que já viveu num relacionamento desses, com certeza mora sozinho e isolado desde a infância perdido no espaço. 

“Tiago, pare de ser ingênuo, ela não saiu desse relacionamento porque assim não o desejou”, diria o bolsominion olavista que se esforça muito para gostar de mulher. Kah tratou desse assunto no livro, aliás, ela pensava sobre isso durante o relacionamento, mas essa parte do livro não irei transcrever, são interessantes suas análises sobre isso. O final do relacionamento é marcado também no livro, ela também questiona sua autoria, o que a mãe irá pensar? O que o novo namorado irá pensar sobre esse livro? O que você pensaria, leitor quarentener? Se não for um bolsominion há centenas de coisas a se pensar, não é mesmo? 

Depois que li o livro me senti completamente impotente e resolvi conversar com Kah, ela me explicou que, às vezes, era agredida e buscava logo um papel e uma caneta para relatar o que acabara de viver, mas que havia momentos em que a tristeza imensa não a deixava fazer nada: “Quantas vezes eu fiquei triste e não consegui escrever?”. Isso nos leva a pensar que os momentos de tristeza certamente são muito maiores; a solidão, que é relatada no livro, é doída, sim, é uma faca atravessada ao peito no 39, A Pior das Solidões: 

“Hoje eu contemplei o vazio. Não é a primeira vez que o faço, mas a intensidade dessa ocasião mais recente me compele a escrever, com tristeza e fúria. E no vazio eu estava, na companhia dele, para descobrir que eu não poderia estar mais sozinha, num lugar mais escuro e silencioso, porque eu flutuava no meio do nada, compreendendo todas as coisas de uma vez só, e a minha cabeça doeu com força e eu o procurei, em vão, porque lá no fundo eu sabia que não o encontraria em lugar algum que estivesse ao meu alcance. Eu fechei os olhos e respirei, de nada adiantava deixá-los abertos e entendi que éramos meros colegas de quarto, quando ele veio se deitar ao meu lado e esqueceu que eu estava li, cálida e amorosa, pronta para ser sua de todas as maneiras possíveis.” 

Dos motivos que resolvi escrever sobre esse livro neste Ócios são vários: a violência às mulheres têm aumentado assustadoramente em meio a quarentena; as pessoas acreditam ser formas de resistência escrever palavras com “x” para torná-las neutras e mostrarem-se inclusivas; precisamos parar de deixar pessoas como Dan Bilzerian famoso, ele jogou uma modelo do telhado em 2014, ela quebrou a perna e, ao ficar sabendo que ela o processaria, disse que acabaria com a vida da modelo tirando tudo, porque ele é muito rico: difere alguma coisa do agressor do livro da Kah? Por que os homens gostam de seguir esse homem? 

Há um outro problema que talvez alguém queira dizer e já o previno desde já. O livro não deve se encaixar ao discurso puro e meramente identitário, isso porque, Asad Haider, em seu: As Armadilhas da Identidade (com prefácio de Silvio Almeida), aloca o identitarismo à ideologia neoliberal pelo culto ao individualismo, é o discurso da esquerda canceladora que acredita que escrever palavras com “x” o tornam inclusivos e defensores de uma causa, mas, de acordo com Haider, apenas expõe-se mais uma faceta do neoliberalismo em seu individualismo egocêntrico. 

“A política identitária sem um horizonte de transformação do próprio ‘maquinário social’ que produz as identidades sociais gera uma camisa de força que faz com que o ‘sujeito’ negro, mulher, LGBTQI+ possa ser, no máximo, uma versão melhorada e menos sofrida daquilo que o mundo historicamente lhe reserva.’’

O livro da Kah Dantas é necessário, estimula a reflexão para situações rotineiras e simples que podem levar ao relacionamento abusivo e nos faz perceber que o consumo de ideologias baseadas unicamente na objetificação, na linguagem fácil e no consumo nos torna vulneráveis a Dan Bilzerians, por exemplo. É uma história forte, doída e que não se esgota à primeira leitura, é o tipo de livro que leva a debates intermináveis. O número para denúncias anônimas para a violência doméstica é 180. 

Kah Dantas fez graduação e mestrado na Universidade Federal do Ceará, é professora e também autora de um outro livro, Orgasmo Santo, que espero ter a oportunidade de escrever sobre ele por aqui. Estudem, meu povo, leiam Boca de Cachorro Louco, conversem com a Kah em seu instagram @contakah e em seu face Kah Dantas.

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