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OCIOSFORK: CLARA CROCODILO

Clara Crocodilo” (1980), Arrigo Barnabé – A música de

Por João Rodrigues – TXI

Eu cheguei nesse álbum pelo Rogério Skylab e, depois de ouvi-lo, entendi o porquê. O tricolor havia exaltado Arrigo Barnabé como um dos melhores artistas brasileiros—ou algo assim, posto de um jeito mais inspirador. Ao procurar mais sobre Barnabé, percebi que esse era o álbum mais cultuado dele dentro desses grupos de Facebook (que muitas vezes tem uma boa quantidade de gente pau no cu, mas bem). A versão original, de 1980, está apenas disponível no YouTube—o que faz ler os comentários depois, até por ser um disco antigo, ser até mais prazeroso justamente por ouvir as histórias repletas de nostalgias.


Quando você aperta o play, você estranha. Eu estranhei. Barnabé fez uma ​joint venture —ui, o inglês é o novo latim!— entre os ritmos, estilos e “””vibes””” da MPB usando o dodecafonismo, que é um estilo/jeito de se arranjar as notas das alturas (grave/baixo). Um exemplo mais claro sobre o que é isso é ​esta música​. Esse estilo é capaz de criar uma espécie de confusão, e, conjuntamente com as vozes em tom de ópera, até uma sensação de sufoco. Mas calma. A sensação de sufoco termina com a imersão: lá pelos três minutos, ou no redor final da primeira música, Acapulco Drive-In, o disco já se mostra claro: ele quer contar uma história. A primeira música se mistura mais com a segunda, ‘Orgasmo Total’. Não vou dar spoiler das letras, afinal isso é uma história, mas adianto que o instrumental é também o meio da mensagem. Instrumentais se fundem com os vocais, sendo estes últimos usados como instrumentos. O feitiço vai aumentando quando chegamos em ‘Diversões Eletrônicas’, onde tudo, narrativa, instrumental, atuação, psicodelismo, tudo, sobe um degrau acima. Ela se desintegra para dar continuidade, intencionalmente deslizante, à quarta música ‘Sabor de Veneno’, em que já é possível ter mais noção da ideia da história. Os vocais ajudam muito nisso: inclusive, ‘Sabor de Veneno’ é o nome da banda que fez este álbum junto com Barnabé. ‘Infortúnio’, a próxima, é como se fosse um daqueles episódios de série que se reservam a contar a história de apenas um dos personagens. Tem uma parte predominantemente instrumental no meio, que dá uma quebra na intensidade do álbum de um jeito gostoso e, sinceramente, necessário. Mas essa quebra não destoa: é tudo história, inclusive o instrumental. Destaque pro “histé-histé-histérica” que, em parte da música, são cantados para parecerem “666”. Aqui, é necessário destacar que o disco é feito com três personagens “falantes’’: o narrador, a “voz feminina” e a “voz masculina”. O narrador e a voz feminina são os mais presentes pelo álbum todo, sendo interessante perceber a influência da voz feminina que por vezes também assume o próprio papel de narradora, controladora e participante da história—na verdade, uma quarta voz aparece aparentemente apenas no final desta música, que, segundo a minha interpretação/teoria/brisa, é um jeito de introduzir uma intromissão quase que noticiária, tendo em vista o caráter assumido de personagens do narrador e da voz feminina que estávamos ouvindo antes, acompanhando a “quebra” de narrativa como veremos a seguinte). E é aqui que chegamos em ‘Clara Crocodilo’. Essa música é o coração desse álbum, na minha opinião: é aquelas coisas que, considerando o resto do álbum, faz com que esse álbum seja realmente um projeto completo, uma proposta inteira. Inclusive, tenho que fazer uma menção que não deve ser passada despercebida dentro dessa faixa:

“Quem cala consente, eu não me calo

Não vou morrer nas mãos de um tira
Quem cala, consente, eu desacato

Não vou morrer nas mãos de um rato”

O álbum foi lançado em 1980, época de decadência para a ditadura militar brasileira. Músicas como ‘Orgasmo Total’ fizeram com que o álbum fosse proibido de ser executado em público, mas o álbum—em específico essa música—, mesmo contendo ataques óbvios ao regime, passou despercebido pela censura. A partir desse ponto, também, você entende a história entre os personagens e a narrativa muda significantemente, mas não se desviando totalmente da estória, apenas divulgando outro ato da peça, como se estivéssemos em um teatro mesmo. Mas não vou dar spoiler, hein? É uma surpresa. A última, ‘Instante’, marca o tom hermético e neblinoso entre a narrativa e dá quase um fim ‘noir’ ao álbum. Seu mistério, o sax, a ópera, a letra, tudo vira e contribui para essa neblina, como a continuidade de um feitiço.

Não ousei a comentar as letras do álbum não só pela questão do spoiler, mas também pela responsabilidade que isso carrega: há tantas possibilidades de interpretação aqui que essa é uma das graças e características marcantes do álbum. Não é todo rebuscado lexicamente, mas a prática de combinar a letra com o tom, a quantidade de recepções, faz com que haja tanta coisa passível de ser absorvida que a cada escutada é possível se depreender uma coisa diferente.

Em resumo, é um álbum experimental que vale conhecer. É necessário perceber que existem músicas para determinados momentos, ocasiões, estados de espírito, enfim. É um daqueles álbuns que não fica como música de fundo, ele se demanda a ser entendido. Por último, já adianto, por mais cringe que soe: é pra brisar.

Um comentário em “OCIOSFORK: CLARA CROCODILO

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