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O Exemplo Macaubaense: O conto

Por Tiago Augustini – TX

Tudo tem-me cansado muito nessa quarentena; o vento que sopra ou não sopra; a falta de sol e de chuva em meu exílio fernandopolense; a falta de aula presencial; a ansiedade; notícias falsas; a falta de investigações à família do Seu Jair; já falei o EAD?; aquele que sai em máscara e todas as modalidades de uso que seja o correto; liberdade de expressão a neonazis; o Queiroz vai delatar?; um Presidente que já tenha passado da quinta série e, sobretudo, de um impeachment. Ando me cansando até de mim – pois tenho saudade dos amigos e amigas que, além dos livros, são eles que retiram de mim a minha alma; sobretudo, até de estar cansado tenho me cansado, parafraseando a jornalista e escritora Jessica Balbino; estás correta, Jéssica, estás correta.


Mas como nem só de cansaço vive-se a sociedade (que descobri ter saudade de shopping), resolvi me propor um problema ao olhar a fumaça do café, pois como acordo com as galinhas e, por isso, o tempo é sobejo durante todo o dia, posso conversar com gente inteligente. Disse de minha hipótese problema ao Ricardo Ricci Balada Filho, um sábio aqui de Fernandópolis – essa espécie de oráculo que toda cidade do interior tem – que, em réplica acolhedora e finesse ímpar, alegou-me:

– “…em Fernandópolis só não mais se acorda com o mugido da boiada e, já que acordas no breu da manhã, terás o tempo necessário para criar o imbróglio e sortidas soluções, reflexões, o que mais for de seu ímpeto para tratar dessa problemática social. Além do mais…” – reduzi a reflexão de nosso literato e cientista social em vias de se tornar palatável a análise, espero que entendam.


Vejam, é opinião séria, a do sábio; merece reflexão, mas também há posição que irei atacar frontalmente, ao menos em parte e explico, já com as devidas escusas ao nosso enciclopedista local: ontem mesmo, às 6h da manhã, meu vizinho, o Andrade, fazendo enorme algazarra e estripulia, estava sob o teto de sua casa, em vias de se esborrachar no chão, o parlapatão, despejando cloroquina e dexametasona em sua caixa d’água, vestido com uma camiseta da CBF e óculos escuros. Óculos escuros às seis! Pois digam-me vocês, como irei concordar com Balada Filho? Vocês concordariam? Nem a família F.D.C, do tradicional conservadorismo macaubaense, se prestaria a esse serviço:

-Despejar-se-ia feijoada nas panelas brasileiras, pamonhas na boca dos infantes e bolos de milho a todos nacionais. Que todos possam morar na Itália, depois nos United States of America e retornem ao Rio de Janeiro! Que todos vão tomar sorvete nesse país!! É isso que o conservadorismo prega! O conservadorismo macaubaense repudia veementemente o despejo de substâncias químicas em caixas e tonéis de água – isso a plenos pulmões, os indicadores em riste e a população ao delírio tremulando bandeiras com a sigla JU.F.D.C.

Ééééé, JU.F.D.C, pelo visto nem só de defesa aos ortodontistas aplicadores de botox vive a militância conservadora macaubaense; fez bem aos munícipes de Macaubal esse discurso no coreto da praça; está nascendo uma nova W. Churchill, uma nova G.V. Mas voltando a tese. O problema é de fácil intelecção e não precisou de muita reflexão: o que faremos com os Bruxos desse país?


Bom, certamente pouquíssimas pessoas sabem que eles são reais e estão entre nós, a dica, portanto, é: coloquem Frederick Wassef, ano 1992, no google. Sim, esse senhor que, além dos serviços como nobre e combativo causídico do presidente da república, prestava serviços de hotelaria em seu paradisíaco e churrasqueador, Hotel Fazenda Cítrico – quem não se inova com um mindset correto às novas oportunidades do mercado fica no ostracismo, diria qualquer coach, INCEL, de mercado. Outra dica, mas referindo-se ao mesmo caso e a esse mesmo advogado: Projeto Humanos: Caso Evandro, no spotify; o maior júri popular do país, em 1992, e ainda sem solução, trata do desaparecimento de crianças por seitas de bruxaria. Não irei me adentrar aos motivos desse caso, pois posso me alongar em demasia e, caso o presidente da república cometa mais um comportamento deprimente – o que é costumeiro, convenhamos; esse relato macaubaense pode perder o objeto e o interesse desses nobres e austeros leitores.


E isso não é só, meus depauterados pela quarentena, a cidade de Macaubal, como Tenochtitlán, além do famoso festival do milho (não preciso mencionar os motivos de nossa líder gostar de pamonhas e bolos de milho, não é?) e ser comarca do ex namorado da Rafa Kalimann, também é conhecida por ser a Salém brasileira. JU.F.D.C confessou-me que seus ancestrais foram para esta urbe para combater, com alho, água benta, pamonha e feijoada, a bruxaria já instalada há muito pelos pais fundadores da vila Coqueiros. F.D.C., aos sussurros, ao pé de meu ouvido, disse

-Eles, esses rastaqueras, começaram os convenciliábulos no antigo prédio do Cine São Paulo, em frente ao também antigo Bar do Ponto. Meu amigo, a escolha do local não foi pra menos, antes dos conventículo, compravam a engasga-gato no bar, a turminha do Canova e do Chamas; depois do convel iam todos ao Bar do Ponto beber cerveja e rir das possessões demoníacas.

Mal sabia ela que conheço bem as histórias das seitas no Brasil. Quem não se recorda de que o “guru” terraplanista, Olavo de Carvalho, não se meteu em duas seitas quando residia no Brasil? (época em que pregava a científica astrologia). Famosa seita Tradição e a outra seita era “mística”, vejam vocês: o pregador dos bons costumes participando de orgias e praticante da poligamia; por isso famílias como os F.D.C. precisam ser exaltadas nesse país; claro, pontuo que não foram os F.D.C que expulsaram o Sid Mohammad Ibrahim para a Virgínia, confesso aos senhores e senhoras, mas foram eles que criaram a cultura de espantar membros perigosos de seitas desse país. Nossa sociedade deve muito à essa família. E por que ir atrás dessas histórias? Lógico que é por um único motivo: medo do Diabo! e quem não o tem anda a riscar o teto de casa com adornos córneos.

Lógico que o medo do Grão-Tinhoso atinge muita gente, podem confessar-se, seus enxota-diabos, os ateus também (na verdade é a curiosidade sobre essas fábulas e historietas que me move, mas credo em cruz) e é o bojo de minha hipótese-problema relatada ao Balada Filho, está aqui confessada, pronto. Quem me mangar que posso ter pesadelos e, pior, acusar que já os tive pelo motivo de bruxos e bruxarias, vou colocar o nome na boca do sapo, tenho dito, sou gauche, não bobo. Cito Macaubal como exemplo vitorioso na luta contra essa grei e quem encontrar JU.F.D.C pelos cantos e recantos desse país que lhe dê um bolo de milho ou um suco de milho e um abraço como agradecimento aos serviços zelosos contra a bruxaria brasileira.


Hoje as coisas mudaram um pouco em Macaubal, mas ainda há resquícios desse passado obscuro que nossa valete vem combatendo de forma dura e exemplar. JU.F.D.C foi a responsável pela colocação da imensa cruz de volta ao seu lugar de origem, a Igreja Matriz. Ela havia sido retirada pela seita para rituais e na cerimônia da realocação, JU.F.D.C, conhecida como a Rainha do Milho, expressou em seu discurso ao prefeito, vereadores e munícipes

-Traaaabaaaalhaaaadores do Brasil, prefeito e autoridades! Nunca antes na história desse país, houve ataque tão vil à nossa cultura e povo. E os pais fundadores dessa profícua cidadela. Hoje é um dia histórico para esse pacato, mas trabalhador povo da ex vila de Coqueiros e agora município promissor de Macaubal. Esta cruz é que move nossa cultura e força, esta cruz nos faz livres dessa força obscura que é a bruxaria!!! Força ao milho, à feijoada, viva Macaubal! – e o povo desde a esquina da rua Campos Salles até a esquina da Sebastião Dibo chorando copiosamente, a emoção varreu a cidade.


JU.F.D.C, muitos dias depois, já em companhia do caçador de jogadores do bicho, Pedro Esberno, disse-nos, com os olhos marejados, o que aquele momento significava para ela e os habitantes da comarca

-Sabem, meninos, aqueles seres abomináveis que realizavam seus convenciliábulo com os testículos de fora, prestaram um desserviço para o país e, sobretudo, para Macaubal – nenhum prefeito conseguiu manter-se no mandato, pois eles impediram, faziam seus feitiços e logo em seguida o prefeito caía. A festa do milho, especiaria de grande valor aos macaubenses, agora pode ser realizada na praça da matriz na paz de Cristo. Graças a Deus conseguimos que eles fossem embora. E agora o povo olha para a cruz e vê a esperança novamente!


Realmente são um discurso e relatos fortes, deveríamos expulsar Wassef e toda família Bolsonaro para honrar o que JU.F.D.C. fez por esse país. Nossa heroína, que já desfilou vestida com a bandeira dos EUA na Festa das Nações de Macaubal, está disposta a replicar o êxito macaubaense no país, resolveu me dar consultoria, caso eu me avance em minha hipótese-problema. Acontece que não quero mais avançar. E não quero por motivo justo; estou cansado.

Amigos e amigas, já repararam que não conseguimos exercer um debate amplo com a população? Não sabemos conversar com quem não está em nossa área de influência. E aqui voltamos ao velho cansaço da impotência política arregimentativa: as figuras de liderança não são criadas do zero, o líder político surge em meio ao debate e da refrega, mas para isso há necessidade de haver o debate e/ou luta; ninguém forçou JU.F.D.C, ela apareceu. Precisamos ensinar o povo a conversar novamente, voltar às bases, ao povo. Ela, em mais um momento confidencial e magisterial, falando a nós, eu e Esberno, sobre a questão racial em Macaubal e o lugar da branquitude na luta antirracista disse, lembrando o velho e inoxidável Machado de Assis

-Ironicamente, meninos, em Esaú e Jacó, o bruxo do Cosme Velho, sugere na fala de um personagem (o monarquista Pedro) que o fim da escravidão negra poderia ser o prenúncio de outra revolução, mais larga: “A abolição é a aurora da liberdade; esperemos o sol; emancipando o preto, resta emancipar o branco” uma líder nata, iremos vencer o bolsonarismo com feijoada e suco de milho.

A saudade dos amigos? É por essas e outras que só aumenta! Quem refutar esse texto foi ou será corno!

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