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Starbooks: O Raio Verde

Por Julia Ferreira Gallo (Post) – TXII

Júlio Verne é um autor tipicamente lembrado por suas obras fantásticas que, geralmente, desenrolam-se nos cenários mais fantásticos e tão tecnologicamente avançados quanto um boêmio do século XIII poderia imaginar -não à toa dois de seus livros mais famosos são Viagem ao Centro da Terra e 20 Mil Léguas Submarinas.


No começo desse ano eu estava em um fórum de discussões sobre seus livros e me impressionei como havia um consenso entre seus fãs em considerar Raio Verde a pior coisa que ele já tenha escrito. Isso ficou na minha cabeça por meses até que eu vi o livro sendo vendido em uma promoção na Amazon e acabei comprando para ver se era mesmo tão ruim assim.


Spoiler: não é.


Eu entendo de verdade porque a maior parte dos fãs habituais de Júlio Verne não gostariam de Raio Verde e consigo reduzir toda a razão desse ódio em duas razões principais: primeiro, que não é de hoje que fãs de ficção científica reagem mal à protagonistas femininas (alô Rey, Ellie, Capitã Marvel e etc) e eu imagino que o fato de a única fala machista ter sido proferida pelo antagonista (em um trecho usado pela narrativa para ridicularizá-lo) também não tenha ajudado em nada na “suavização” da presença feminina. E, segundo, que estamos falando de um autor conhecido como o “pai da ficção científica” (um título sem sentido, diga-se de passagem, porque a criadora do gênero foi a Mary Shelley em Frankenstein), que tem como característica marcante a narrativa das jornadas incríveis feitas pelos seus protagonistas (sejam elas dar a volta ao mundo em 80 dias ou viajar em um submarino panorâmico pelo fundo do mar), são exatamente esses elementos que os seus leitores assíduos desejam e justamente os que Raio Verde não tem.


Essencialmente, ele é um livro de romance. Toda a sua premissa gira em torno da possível existência de um -adivinha?- raio verde, este seria um fenômeno raríssimo que só poderia ser visto exatamente no instante que o Sol poente lançasse seu último raio em um céu límpido e sobre um mar com o horizonte perfeitamente visível. Helena, a protagonista, deseja vê-lo porque uma antiga lenda escocesa dizia que “o mérito do Raio Verde é fazer com que aquele que o vê nunca mais se engane nos assuntos ligados ao coração”, seus tios encontraram um pretendente “ideal” (que só pelo nome de Aristobulos Ursículos já fica bem fácil de adivinhar que provavelmente não é tão ideal assim) e ela decide que antes de sequer cogitar casar-se deseja ver o raio verde para ter clareza sobre o assunto. A partir daí dá-se início à uma jornada dos protagonistas pela costa da Escócia em busca das condições perfeitas para a observação do fenômeno.


A metáfora do raio verde como um símbolo supremo de esperança é recorrente na literatura; em o Grande Gatsby, por exemplo, a luz verde simboliza a busca do personagem pela felicidade que acreditava só ser possível ao lado da mulher amada (que, em muitas vezes, aparece como um símbolo para o american dream). Em o Raio Verde, o papel do raio segue esta mesma linha, em sua jornada pela Escócia Helena reconstrói a história do seu país em retrospectiva (ela começa em uma cidade moderna e vai indo de cidade em cidade até o lar dos primeiros reis) enquanto constrói sua própria, a real jornada do livro é a do amor de Helena e Olivier.


Olivier é o par romântico da protagonista e também um símbolo do espírito aventureiro de Helena; ele é um bacharel em direito que largou uma vida de magistratura para viajar ao redor do mundo seguindo “a luz azul do mar”. Ele e o outro pretendente são opostos completos: enquanto Olivier aprecia as artes, a cultura escocesa e faz de tudo para ajudar Helena a ver o raio verde, Aristobulos é um pedante que passa o tempo inteiro em monólogos a “ensinando”, depredando monumentos históricos e tentando convencer a protagonista que o raio sequer existe.


Porém acaba nem fazendo diferença se era Aristobulos ou Olivier quem estava certo a respeito da existência (ou não) do raio verde; todos os personagens, de uma maneira ou de outra, atingem seus objetivos reais por trás da busca. No fim, o livro acaba sendo um típico romance gostoso (e rápido) de ler, sem muitas reviravoltas (mas como muita simbologia por trás) e um final simples e feliz que agradaria qualquer pessoa que não seja um fã de Julio Verne em busca de ficção científica.

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