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O “Cavalão” de Tróia: um presente para Duque de Caxias

Por Pedro Sberni (TX)

A muito utilizada frase de Marx em 18 de Brumário de Luis Bonaparte, “A história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa” bem pode servir para o início desse raciocínio. Não a leiamos, no entanto, literalmente. As Forças Armadas sempre estiveram em posição de destaque na Política brasileira, muito antes do Golpe militar de 64, passando por episódios cruciais como a Proclamação da República, em 1889, República da Espada e adiante.

Não é segredo para ninguém que essas passagens não deixaram saudades. Marcaram negativamente a instituição, o País e levaram a grandes traumas sociais. E quando o digo, não estou a fazer uma divisão de bons e maus, como se o exército fosse malvado e a sociedade civil boazinha, é preciso deixar claro e superar que essas experiências atingiram o cerne, a imagem, a honra e a moral da própria instituição, estigmatizaram. A invasão de competência pode seduzir homens, mas não deixa de macular suas fardas e as próprias Forças.

Ilustrações do desastre são abundantes. Para além do número de mortos, censurados e torturados no período da Ditadura Militar, por exemplo, lembremos da célebre passagem de João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, que afirmou preferir o cheiro de cavalo ao cheiro do povo – escancarando a terrível conjuntura de ilegitimidade e falsa representação característicos do período – acabou pedindo, implorando, que o esquecêssemos.

Ora, presidente, o mínimo que podemos fazer para retribuir o grande serviço que você fez a nação ao demonstrar com clareza e objetividade o desastre que você e a sociedade viviam, é resgatar sua memória. Creio eu que V. Ex a., com isso, criou uma profecia hípica que se realiza no cenário atual.

Com a redemocratização, a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a anistia ampla geral e irrestrita – que colocou sob pequenos tapetes grandes traumas -, as Forças Armadas assumem um papel constitucional de grande importância como instituição de Estado. Com resultados técnicos, mentalidade militar e no cumprimento de suas funções, sob a égide da Democracia e do Estado Democrático de Direito, foram e são apontadas por diversas vezes a instituição mais confiável do país.

Eis que algo não ficou resolvido. Diferentemente dos outros países latino-americanos que passaram por períodos recentes de Ditadura Militar, o Brasil resolveu escolher o caminho da sublimação. Negamos a história para enfrentar as dores desse trauma. Fez-se a Lei de Anistia e, de um dia para o outro, todos aqueles que ocuparam a censura, a tortura e a matança foram absolvidos (ainda que possam guardar a mais eterna e excruciante culpa e por isso precisem justificar mirabolantemente para si mesmos o que fizeram, afinal o Estado não foi capaz de condenar-lhes). A Lei foi recepcionada pela Constituição Federal. E assim fomos, até a formação da Comissão da Verdade no governo de Dilma Rousseff em 2011.

A fratura social ainda dói. Assim como diversas outras que compõem esse Brasil de Brasis. Algum acumulo de energia no subsolo, uma movimentação de reorganização, um desejo inconsciente de repetição desse prazer sádico permeou nossa novíssima República Federativa Constitucional. Aproveitando-se da fragilidade do momento, regurgitou aquilo que viria, cedo ou tarde, como condenação de si mesmo por não enfrentar suas verdadeiras questões – elegemos ele, o Cavalão (Sim, nobre leitor, esse era o apelido de Jair M. Bolsonaro no exército como ele próprio orgulhosamente informou algumas vezes) – o animal preferido de Figueiredo à General Mourão.

Através do discurso sedutor, das promessas materiais e da restauração de um falso orgulho patriótico que inundou o Twitter de Policarpos Quaresma de quinta categoria, o Presidente da República exalta e se devota às Forças Armadas. Sente-se incluso, ou diz-se sentir, na “Corporação”, mesmo tendo sido expulso por planejar explodir bombas no quartel e greves ilegais.

Com alguma resistência inicial, os fardados inundaram a burocracia planáltica – estima-se que, pelo menos, 2.716 militares da ativa estão exercendo funções de postos abertos pelo governo Jair Bolsonaro. Mais ainda, temos um militar interino, Gen. Pazuello, à frente do Ministério da Saúde em plena pandemia. Temos mais ministros militares do que os governos Geisel, Médici e Figueiredo.

Não satisfeito, o Presidente Jair Bolsonaro, eleito pela frágil e desequilibrada sigla do PSL, resolveu, pela primeira vez na história da presidência da república, abdicar de seu partido. Mas não se enganem, Bolsonaro se escora no partido imaginário das Forças Armadas. Se não fosse o empréstimo de prestígio já teria caído.

O ponto que pretendo com esse excerto é chegado. Jair Bolsonaro é um cavalo de Troia para as Forças Armadas. Nenhum outro inimigo foi tão destruidor para as Forças Armadas brasileiras do que o presidente Jair Bolsonaro, sob a roupagem de grande entusiasta e, porque não, membro da instituição.

A confiança nas Forças Armadas deve cair. É questão de tempo. A imagem de técnica e disciplina militar é abalada a cada dia. O ministro da Saúde afirmou, por esses dias, que o Norte e Nordeste do Brasil sofrem influências do inverno do Hemisfério Norte, Gen. Augusto Heleno, antes suposta figura de fibra e intelecto, não passa um mês sem causar espanto por tamanha ignorância institucional e rudeza – chegou a expor, na qualidade de chefe do Gabinete de Segurança Institucional – documentos pessoais na rede e acabou vítima de várias troças.

De tempos em tempos algum representante das FFA é chamado para reiterar o compromisso com a democracia porque apoiadores, membros e o próprio Jair Bolsonaro ameaçam o Estado de Direito, a democracia, direitos e as instituições utilizando, para si, das Forças Armadas encasteladas no planalto – como se fosse o dono da bola da partida de futebol de pré-adolescentes – ameaça acabar com o jogo se não deixarem ele bater a falta.
Escrevo sob a notícia de que o min. Gilmar Mendes afirmou que “É péssimo para a imagem das Forças Armadas! É preciso dizer isto de maneira muito clara: o Exército está se associado a este genocídio. Não é razoável! Não é razoável para o Brasil! É preciso dizer. É preciso pôr fim a isto…”.

O Ministro sabe o que diz. Não o faz como forma de politicagem barata, mas como jurista que é, sabendo que a conduta do governo federal em enfrentar a pandemia se aproxima de um genocídio – sobretudo na questão indígena, passando também pela desigualdade econômica. Ao que escrevo, morrem 40% mais negros do que brancos e comunidades indígenas da Amazônia são 5 vezes mais atingidas pela Covid-19 do que o resto do Brasil. Sabe, ainda, que os tempos são outros e o mundo sabe o que se passa aqui.

Como nos ensina Marx, com a frase de início, a história de tragédia vira farsa. A leitura institucional do papel das Forças Armadas é e deve ser, mais do que nunca, constitucional. O imaginário popular de uma experiência passada permeia, assombreia e define até expectativas na atuação da instituição – o que torna a participação no governo duplamente perigosa.

Bolsonaro, ao responsabilizar as Forças Armadas, sob a roupagem de farda lúdica, de Cavalão do bem, seduz aqueles que preferem o “cheiro de cavalo” ao “cheiro de povo”. A paranoia bolsonarista conduz ao resultado imediatamente reverso ao que pretende com seu discurso de defesa e exaltação das Forças Armadas.

Finalizo com um trecho que me lembrou diretamente do sequestro institucional e inconsequente das Forças Armadas pelo Presidente da República, levando a derrocada cega de ambos. Explica Zizek em um trecho de “Como ler Lacan”:

Lembremos a figura singular de James Jesus Angleton, o supremo combatente da Guerra Fria. Durante quase duas décadas, até 1974, ele chefiou a seção de contrainformação da CIA, com a tarefa de descobrir agentes duplos em suas fileiras. Angleton, uma figura carismática, extremamente idiossincrático, culto e instruído (foi amigo pessoal de T.S. Eliot, com quem até se parecia fisicamente), era propenso à paranoia.

A premissa de seu trabalho era sua crença absoluta na chamada Conspiração-Monstro: uma gigantesca farsa coordenada por uma “organização [secreta] dentro da organização” da KGB, cujo objetivo era penetrar e dominar totalmente a rede ocidental de informação e assim promover a derrota do Ocidente. Por essa razão, Angleton rejeitou como falsos desertores praticamente todos os desertores da KGB que ofereciam informação inestimável, e algumas vezes chegou até a mandá-los de volta para a URSS (onde eram levados a julgamento e fuzilados, já que eram verdadeiros desertores).

O resultado final do reinado de Angleton foi a total paralisia – muito significativamente, em seu tempo, nenhum verdadeiro agente duplo foi descoberto e detido. Não admira que Clare Petty, um dos funcionários mais graduados da seção de Angleton, tenha levado a paranoia de seu chefe a seu clímax lógico autonegador ao concluir, após uma longa e exaustiva investigação, que Anatoli Golitsyn (o desertor russo com quem Angleton se envolveu numa verdadeira folie à deux, loucura compartilhada) era uma fraude e o próprio Angleton, o grande agente duplo que conseguira paralisar o serviço secreto antissoviético dos Estados Unidos.

Somos tentados a levantar a questão: e se Angleton fosse um agente duplo justificando sua atividade pela procura de um agente duplo (de si mesmo, na versão da vida real da trama de Sem saída de Kevin Costner)? E se a verdadeira Conspiração Monstro da KGB fosse o próprio projeto de pôr em jogo a ideia de uma Conspiração-Monstro e assim imobilizar a CIA e neutralizar de antemão quaisquer futuros desertores da KGB? Em ambos os casos, a fraude final assumia a aparência da própria verdade: havia uma Conspiração-Monstro (era a própria ideia da Conspiração-Monstro); havia um agente duplo no coração da CIA (o próprio Angleton).

Aí reside a verdade da postura paranoica: ela própria é a trama destrutiva contra a qual está lutando. A sagacidade dessa solução – e a condenação final da paranoia de Angleton – é que não importa se Angleton era apenas sinceramente logrado pela ideia de uma Conspiração-Monstro, ou se era o agente duplo: em ambos os casos, o resultado é exatamente o mesmo. O logro esteve em nossa incapacidade de incluir na lista de suspeitos a própria ideia de desconfiança (globalizada).

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