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Convite às Bruxas

Por Isabela Silva (Abusada) – TXI

O que pensam as mulheres ao desafiarem o patriarcado? O que pensavam as milhares de bruxas através dos séculos ao revolucionarem em solidariedade e transformações sociais? O que pensamos hoje em dia ao ver mulheres ocupando espaços de poder?

Este é um convite às bruxas.

Atualmente, mulheres ocupam 34% dos cargos de liderança sênior, cargos em diretorias executivas em empresas, segundo a pesquisa mais recente do International Business Report da Grant Thornton, em que foram consultadas 4.812 empresas, em 32 países. E por mais que o machismo estrutural e a violência contra as mulheres venham crescendo, especialmente durante a pandemia de Covid-19, o Brasil cresceu 9% em relação a 2019 em cargos de liderança sênior sendo ocupados por mulheres. Entretanto, quando discutimos a política, mulheres não chegam a alcançar 15% nos cargos eletivos do país: é o que revela o Mapa da Política de 2019, uma iniciativa da Procuradoria da Mulher no Senado.

Será que mulheres não se interessam por política? Mulheres não são dignas de ocupar cargos de confiança? Somos incapazes de realizar escolhas assertivas, as quais toda uma sociedade possa se espelhar?

Está na hora de conhecermos as bruxas em nosso passado para fortalecer a luta de nossas ancestrais: está na hora de reacendermos a fogueira contra os preconceitos, as inverdades e mitos construídos pela sociedade machista e patriarcal, que nos levou a milhares de mortes e injustiças, às violências e disputas de poder em que perdem toda a sociedade: é hora de queimarmos a desigualdade histórica que nos foi imposta!

Num primeiro momento, é necessário que se compreenda que as lutas de mulheres são muitas: não é possível que haja um debate de empoderamento e fortalecimento de pautas feministas sem um olhar crítico à gênero, raça e classe, conforme ensinado por Ângela Davis. A divisão sexual do trabalho, embora seja um fato que acometa a todas as mulheres, é um fardo maior às classes mais baixas e ainda mais quando tratamos de mulheres pretas. Não há espaço para o feminismo no século XXI que não traga o olhar interseccional, pois não há espaço em nossa sociedade para maiores desigualdades entre mulheres. Há espaço para o fortalecimento de nossas pautas e de nossas lutas, mas apenas ao passo em que possamos reconhecer de nossos privilégios: apenas ao passo em que possamos compreender, formular e auxiliar mulheres a alcançarem seus objetivos, garantindo o seu protagonismo.

Nessa mesma perspectiva, é essencial que conheçamos o passado e possamos enfrentar nosso futuro. Adiante, apresento mulheres históricas no Brasil de matriz africana, as quais deixaram um legado de resistência e liderança:

Dandara dos Palmares é uma das líderes mais conhecidas no Brasil, uma guerreira e lutadora contra a escravidão no país e por direitos, liderança do Quilombo de Palmares, em que passaram cerca de 20 mil habitantes existentes na região. Já Anastácia ajudava na fuga de escravos, uma lutadora contra violência física e sexual de homens brancos, punida com mordaça de folha de flandres e gargantilha de ferro. Por sua vez, Zeferina foi uma guerreira que combatia colonialistas com arco e flecha. Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira, escreveu um romance abolicionista. E Maria Aranha, grande liderança do Quilombo de Mola (TO), venceu todos os ataques escravistas e organizou a sociedade local. Para fechar esse pequeno dossiê de mulheres, brevemente descritas por alguns de seus marcos, apresento Tereza de Benguela, a rainha Tereza do Quariterê: uma grande liderança quilombola, que coordenava toda a  estrutura política, econômica e administrativa do quilombo. Líder do Quilombo de Quariterê (MG), abrigava índios bolivianos em fuga e que contava com um sistema de defesa com armas trocadas com homens brancos ou resgatadas por aqueles que foram escravizados.

É necessário recordarmos que a história por muito tempo foi contada pelos homens brancos, por parte de uma elite conservadora e que se beneficiava da escravidão. Por isso, o estudo decolonial é tão importante: enfrentar a arrogância milenar de uma classe forte, legitimada por diversas instituições, inclusive pelo Estado, é uma tarefa igualmente árdua e duradoura. A revolução das bruxas não ocorrerá do dia para a noite, mas a cada dia e noite podemos e devemos encampar nossas lutas e elevar nossas vozes diante da história, escrita por nossos punhos e continuada pelas milhares de bruxas que virão a seguir.

Atento-me aos espaços de poder e liderança política, pois este é, possivelmente, o campo mais árduo a ser alcançado. Não é difícil compreender que, com o avanço das pautas identitárias, o sistema capitalista começa a utilizar-se de nossas narrativas e nossas demandas para burlar a luta antissistêmica e utilizar a seu favor as figuras de milhares de pessoas que se solidarizam e que fazem parte das lutas mas, seja por ingenuidade ou convicção, afasta-nos do enfrentamento real à luta revolucionária e anticapitalista. Não há como elevar a pauta feminista sem um olhar revolucionário, não há como vencer as trincheiras da propriedade privada, da divisão sexual do trabalho, da desvalorização do trabalho doméstico e subjugação de mulheres sem um legítimo processo anticapitalista.

Como ensinado por Silvia Federici, o “corpo da mulher é a última fronteira de conquista do capital”: o capitalismo, um movimento contrarrevolucionário, enquanto resposta à luta de camponeses e artesãos diante da crise do feudalismo, que colocava em cheque o acúmulo de riquezas das classes feudais, se constitui como um sistema de opressão, a qual mulheres estiveram também nas linhas de frente em seu combate – um “detalhe” não contado na História.

O trabalho, dividido entre produção (para o mercado, portanto, assalariado e realizado essencialmente por homens) e reprodução (da vida, não assalariado, realizado essencialmente por mulheres) é um marco para desvalorização e naturalização dessa relação de poder. E é nesse contexto em que se inicia um processo de apropriação pelo Estado do corpo da mulher: uma máquina de produção de trabalhadores, e com isso, surgem as leis em favor da penalização do aborto e criminalização sobre qualquer tentativa de mulheres terem controle sobre seus corpos. Temas tão importantes e que ainda lutamos contra na atualidade.

Além da família, parte central desse sistema, como uma instituição que legitima a opressão de mulheres pela submissão aos homens, torna-as dependentes. A caça às bruxas, realizada por mais de três séculos na Europa e que é trazida pelos colonizadores no Brasil, consolida a desvalorização capitalista do trabalho de reprodução. Jamais alcançamos o ideal de coletivização ou mesmo de remuneração das tarefas domésticas, como se esta fosse um tarefa intrínseca à mulher, quando não é, tratando-se de uma imposição. Silvia Federici traz essa importante concepção de que é preciso ressignificar toda a visão de desvalorização da mulher em si e também do trabalho. A partir da economia feminista e também de um novo processo de análise da história, percebemos o silenciamento, a opressão e violência por trás do acúmulo primitivo do capital e da luta pelo poder. Foram séculos de desconstrução das inúmeras relações de solidariedade vivenciadas por mulheres: um fardo intrinsecamente ligado ao capital.

Em toda a história, o movimento mais revolucionário que podemos organizar é a emancipação coletiva de mulheres. Precisamos compreender as diferentes opressões as quais mulheres estão submetidas e garantir que suas vozes sejam ouvidas. Enquanto não houver espaço para uma mulher ser presidenta sem que haja um golpe para sua destituição, continuaremos a nos fortalecer. Enquanto o Estado brasileiro, com grande influência escravocrata, aceitar Bolsonaro e Damares como grandes lideranças para o país, reafirmando o status quo, impulsionando instituições vazias e de moral duvidosa, como a religião e a Igreja, continuaremos a nos fortalecer.

Continuaremos a acender a chama das fogueiras, mas dessa vez para que se queimem as mentiras, as calúnias, as opressões, as violências e a submissão. Há muito estamos prontas para ressignificar nossos corpos, nossas vidas, nosso trabalho e nosso futuro!

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