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Literatura russa – Era de Ouro e de Prata

Por Tiago Augustini – TX

Estou aqui para mostrar-lhes o que é ser inútil – claro que isso não chega aos pés (ou a ponta do lápis) do ser inútil que fora Manoel de Barros – vocês sabem o motivo dele se intitular um vagabundo profissional? Bom, alguns sabem, outros não, deixemos isso à outra oportunidade. Sou teimoso e talvez nem queiram saber também; vamos ao motivo do texto e do porque estou sendo inútil. Irei-me confessar logo. Deveria escrever algo sobre a questão política que atravessamos e isso não o faço; não me cancelem. O tema é sobre literatura e se assim é, já é manifestação contrária a Bolsonaro. Chega de galhofa, vamos ao texto.
Tem-se aqui um espectro do que foi a literatura russa nesse pedaço de pedra circundando uma estrela de plasma. Não sobre toda literatura russa, não sou literato e quiçá estudioso do tema; eis aqui um curioso, leitor aguerrido. Falarei sobre um viciado, o querido Dostoiévski; do álcool e da jogatina apenas. Pedro Esberno, combatente da jogatina ilegal do jogo do bicho nacional, analisou-o friamente para poder iniciar a leitura de qualquer livro que dele fosse. Esse Esberno é um traquinas; perguntem-no sobre o projeto do presídio em Ituverava que ele, o austero Peter Sberno, derrubou porque os autores dessa ideia eram jogadores do bicho: “Um Gulag em nossa gloriosa urbe? Nada passará por meu cadáver, muito menos um Gulag ou nobiliárquico! Um Gulag? que ideia! jamais!”, bradava pelas avenidas com as mãos cerradas em riste; possuo até uma figurinha no whats desse momento. Observem-me sendo prolixo e falando do Ituveraverso novamente. Parei, saudades, Esberno.
Bom, falaremos do gigante e barbado Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. Não sobre sua história, não sou biógrafo, mas de sua literatura e onde ela ocupa lugar no compêndio dos maiores da literatura russa e sobretudo mundial. E, para isso, alguns apontamentos são importantíssimos; vamos a eles.
A crítica divide a literatura russa em 4 momentos:
1 – literatura medieval, até as reformas de Pedro, O Grande, até séc. XVIII;
2 – literatura russa imperial – até o fim do império;
3 – pós revolucionária, escritores soviéticos;
4 – literatura pós soviética, perestróika até hoje.
Os leigos ou entusiastas – que aqui me incluo – dividem-nas assim, apenas em duas que são: Era de Ouro e Era de Prata (podem ser Geração de Ouro ou Geração de Prata, vai do gosto do freguês e, como todos sabem, o freguês sempre tem razão; só não a tem se mugir em favor do Presidente. Como sou eu o escritor dessas parcas linhas, aqui mando eu!). Como não sou bobo nem nada, irei reduzir a explicação às Eras de Ouro e de Prata e não as divisões da crítica, porque de bobo já basta quem acredita que o presidente pegou corona.
A Era de Ouro inicia-se com os poemas e a prosa de Pushkin, considerado O Grande, em maiúsculas, escritor russo, tido como um ser metafísico mesmo; unificou linguagem, busca referências de todo o povo e faz a cultura russa ser uma só, bem matreiro o Pushkin.
Contemporâneo a Pushkin surge Gogol, que usa o humor, dá cor local para a literatura. O próprio Dostoiévski disse que os escritores todos (claro, os Russos) nada seriam se não fosse O Capote, de Gogol. Esse é o momento que a literatura russa se diferencia da literatura francesa, isso se encontra também na construção de São Petersburgo (Petrogrado) que passa a
ser a capital do país.
Ressalva especial: São Petersburgo tem uma arquitetura com características
europeias, foi uma busca do Império Russo para integrar a Rússia para mais perto do ocidente; enquanto Moscou possui arquitetura típica da cultura russa oriental. São Petersburgo é a capital cultural daquele país, a maioria dos escritores dessas gerações tem como personagem e, sobretudo, paisagens, as vielas, ruas, prédios e canais daquela urbe. Uma curiosidade importante: em 1914 é quando a cidade muda-se seu nome para Petrogrado; em 1924, após a morte de Lenin, passa-se a Leningrado e com a queda da URSS em 1991, torna-se a São Petersburgo, nome original em referência ao czar Pedro, O Grande, é “grande”, mas não combateu o jogo do bicho como fez o outro Pedro, o Esberno, de Ituverava!
Ainda na Geração de Ouro, o grande Mikhail Iurievitch Lermontov, poeta. E também os grandes mestres de todos nós: Tolstói e Dostoiévski. Foram esses dois que deram o status da literatura russa no mundo, pois suas obras espalharam-se pelo globo. Turgueniev também faz parte como grande expoente, mas ele já tinha uma escrita voltada especificamente para o exterior, enquanto Dostoiévski falava com o povo russo e sua cultura. Inclusive, Turgueniev, contemporâneo do nosso Fiódor, dizia que o “estilo de Dostoiévski não é bem acabado”, mas Dostoiévski disse que se ganhasse tanto quanto Turgueniev escreveria muito melhor. O problema era a falta de Rublos ao combativo Fiódor ou não? Aliás, vocês vêem problemas na
literatura dele?
Tchekhov, ainda na Era de Ouro, com seus contos e peças foi muito popular, pois deu vida a milhares de personagens que passaram a fazer parte do povo russo. Essa corrente era majoritariamente composta pela literatura realista, pessimista, não que o romantismo também fosse excluído, longe disso, Dostoieviski escreve Noites Brancas, uma novela do
estilo romântico, no auge do realismo; era afrontoso nosso querido Fiódor.
Já na Era de prata, os escritores não eram tidos como menores, mas escreviam em outro momento da história cultural da mãe Rússia. Gorki, Vladimir Korolenko; essa é uma geração de poetas, Anna Akhmatova, Marina Tsvetaeva, Boris Pasternak e Osip Mandelstam.
Vale lembrar que Pasternak fora nobel de literatura em 1958; é o autor de Doutor Jivago, sua magnum opus, por isso ela não é menor em nada, nadica do beleleu.
Em seguida, com proeminência de poetas soviéticos e, de grande renome, convenhamos, temos Maiakóvski (Caetano escreveu uma música, O Amor, em homenagem a um poema de Maiakóvski de mesmo nome, ouçam-na, é linda!), Daniil Kharms, entre outros.
A escola literária dessa geração é diferente, pois a maneira com que esses escritores abordaram seus temas também era diferente. Maiakovski (que era um vermelho, ou seja, a favor do Partido Comunista) era futurista, já Bunin (que era um branco, ou seja, era ainda a favor da monarquia) teve que se exilar. Com muitos absurdistas, a literatura russa passa ser mais simbólica, e tem uma clara exaltação da revolução de 1917.
Literatura não é ciência exata, vemos nuances e estilos múltiplos em vários escritores em diferentes gerações, como diz o bordão “isso aqui não é para cagar regra”, serve apenas como auxílio e amparo para reconhecer os escritores e suas preferências e tentar compreender do que eles estão falando e as maneiras como falam. Como diz Flávio Ricardo Vassoler, a alma humana em sua versão mais desnuda e o mal na literatura de Dostoiévski possui tanta crueldade que Marquês de Sade pareceria infantil. Vale ou não a pena ler os russos?

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