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04 de setembro de 1970: La via chilena al socialismo

Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

Amazônia pegando fogo, Bolsonaro atacando a imprensa, golpe judiciário no Rio de Janeiro, 4 milhões de infectados por COVID-19 e mais de 120 mil mortos. Assuntos não faltam para serem discutidos. Mas, para qualquer análise minimamente séria sobre o presente, precisamos conhecer o passado. Por isso, caros leitores e caras leitoras, esse será mais um texto de história.

Ontem foi uma data muito especial para qualquer pessoa que acredita em uma América Latina onde as ações do Estado são feitas pelo povo e para o povo. 4 de setembro de 1970: após uma acirrada campanha eleitoral, Salvador Allende, da coligação de esquerda Unidade Popular, é eleito Presidente do Chile. 

Cinquenta anos do primeiro Marxista eleito presidente em uma democracia liberal na América Latina (feito este que só seria repetido nos anos 90 e 2000 com as vitórias eleitorais comandadas pelo Foro de São Paulo). E também cinquenta anos do início do golpe que transformou o Chile na ditadura mais sangrenta de todo o continente.

Como assim a data de sua eleição marca o início do golpe? Simples, na mesma data a oposição conservadora se manteve como principal força no parlamento e foi justamente essa maioria que poucos anos depois serviria de justificativa para a tomada de poder pelos militares. Mas nós vamos falar disso mais pra frente.

Antes do golpe, evidentemente que existiu um período em que Allende efetivamente governou seu país. E justamente por isso que dei ênfase no início deste texto sobre o papel do povo na condução do Estado. Seu programa de governo previa uma série de mudanças estruturais na administração pública, na economia, na educação, na saúde, na segurança, no investimento estatal e até na cultura do país. Um programa ousado, moderno e que não se escondia em seu objetivo: transformar o Chile em um país socialista. Por isso mesmo seu nome só poderia ser “La via chilena al socialismo”.

Empresas foram nacionalizadas; uma ampla reforma agrária foi feita; programas de geração de emprego criados; criação de salário mínimo e previsão legal para sua valorização real; inclusão dos povos indígenas nos sistemas de educação e saúde; alimentação gratuita para estudantes nas escolas; ampliação da isenção de imposto de renda para rendas mais baixas; construção de milhares de moradias populares; campanha de alfabetização em áreas rurais e incentivo para que médicos trabalhassem em regiões mais carentes de serviços de saúde; financiamento de iniciativas culturais populares; criação da Secretaria de Mulheres… É impossível dizer tudo que foi feito, e bem feito, em tão pouco tempo.

Mas Allende foi eleito presidente em uma democracia liberal com minoria no parlamento. E se isso não bastasse, o mundo estava dividido pela Guerra Fria. Não demorou muito para o Condor bater sua asas e atravessar os Andes. Os EUA, durante a administração Nixon, iniciaram uma série de medidas para pressionar o presidente socialista. Essas medidas foram desde articulação com a oposição até pressão econômica, inclusive com manipulação dos preços internacionais de cobre, principal produto de exportação do país até os dias atuais. 

Isso tudo resultou em uma forte instabilidade política e econômica. Inflação voltava a crescer, greves patronais viraram rotina, parlamento votava leis com o único escopo de prejudicar o governo. Basicamente, tudo que ocorreu a partir de 2013 no Brasil foi a farsa. O Chile, a partir de 1972, foi a tragédia.

Em 1973, a corte suprema declara que o governo é incapaz de gerir a crise política e aplicar a lei no país. Poucos dias depois, a Câmara dos Deputados, por 81 votos a 47 (a Constituição previa que este tipo de votação deveria ter aprovação de 2/3 do Senado), convoca os militares para dar um fim ao governo de Allende.

O dia 11 de setembro de 1973 marca o fim da experiência socialista chilena. Militares cercam o Palácio Presidencial La Moneda e tiros podem ser ouvidos por toda a cidade de Santiago (algumas testemunhas afirmam que Allende se posicionou nas varandas do palácio com seu rifle AK-47 – presente de Fidel Castro – e enfrentou os militares antes de ser subjugado por eles). O fim de Allende e o início de Pinochet, o ditador mais violento e sanguinário que já governou nas Américas.

A receita é conhecida: pressão econômica comandada por atores externos (normalmente EUA e/ou Europa), fortalecimento da oposição, corrupção do poder judiciário e incentivo ao autoritarismo. E essa receita, essa história que já foi repetida incontáveis vezes em todos os países periféricos do planeta, deve ser devidamente conhecida e estudada. É isso que há décadas impede o avanço de um mundo mais igualitário.

Mas, tão importante quanto conhecer os golpes, é conhecer aqueles exemplos de pessoas que ousaram sonhar em construir esse mundo.  Allende é uma dessas pessoas. E sempre será um marco para a esquerda de todo o planeta. Um marco que começou há 50 anos, em um 4 de setembro.

La historia es nuestra y la hacen los pueblos.

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