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Futebol na Pandemia: uma Metonímia do Negacionismo Brasileiro

Por Amanda Bombardi (Polly), TXII.

Sempre considerei o futebol uma metáfora da vida. Talvez a figura seja outra: a parte explica o todo. O futebol é uma verdadeira metonímia da sociedade em que vivemos.

Na obra “Como o futebol explica o mundo: Um olhar inesperado sobre a globalização“, o escritor estadunidense Franklin Foer demonstra com maestria o modo como diferentes problemas da sociedade, sobretudo ao longo do século XX, manifestavam-se no esporte. Desde a questão dos hooligans e a prática do antissemitismo, até a polarização político-econômica herdada da Guerra Fria, o futebol sempre foi palco para a concretização de problemas teórico-ideológicos, incutidos na mentalidade dos indivíduos. No Brasil, com a volta do futebol às pressas em meio a uma pandemia e um negacionismo endêmico, isso ficou evidente.

Infelizmente estamos acostumados a depararmo-nos com casos de racismo, por exemplo, dentro das quatro linhas, reproduzindo o preconceito enraizado no nosso país. A violência simbólica que testemunhamos durante a pandemia, todavia, é um pouco diferente. Diferente porque, enquanto um caso de racismo escancara o problema, a volta precipitada do futebol tende a escondê-lo. Cria-se a ilusão de normalidade. – Ué, se o futebol voltou, é porque a situação está se normalizando, não é? Não, não é. Na verdade, quando o futebol voltou, vivíamos o pior momento da pandemia no país. Mas havia o auxílio emergencial (que deu a muitas famílias mais do que elas tinham para viver antes da pandemia, tamanha a desigualdade social brasileira), e agora, o futebol. Panis et circensis.

Nesse mesmo momento, as pessoas lotavam bares, abandonavam as máscaras, reuniam-se com “apenas” 30 amigos em churrascos de fim de semana. Antes disso, o Presidente da República já havia ironizado diversas vezes a pandemia e as mortes – “e daí?”, “eu não sou coveiro”, foi o consolo para as famílias que perderam pessoas queridas. É que ele é Messias, explicou, mas não faz “milagre”. Só um milagre mesmo para mudar a mentalidade medíocre e egoísta do brasileiro, agora também negacionista. Sim, estou generalizando, porque o problema é generalizado. É genérico. Quase “genético”, já que cultura também é uma herança transmitida entre gerações (desculpem-me, biólogos).

Voltando ao futebol, naquele dia de Flamengo x Bangu, pelo campeonato carioca, com a curva ascendente, o número de mortes chegava a 45 mil; hoje, o número de vidas perdidas não caberia no Maracanã – palco desse primeiro jogo em meio ao coronavírus -, precisaríamos de mais de 150% da capacidade do estádio. Parafraseando o brilhante Mauro Beting, a maior vergonha do Maracanã não foi aquela, em 1950, para 200 mil pessoas; foi em 2020, com o futebol sem torcida e sem respeito, enquanto 26 pessoas estavam na UTI e duas perdiam a vida, no hospital de campanha do estádio. Não é “só” irresponsabilidade. É desrespeito. É frieza do povo internacionalmente visto como “caloroso” e “acolhedor”. É falta de empatia de uma nação apaixonada por um esporte coletivo, mas que é individualista.

Falando em desrespeito o atual governo não apenas desrespeita vidas; outro alvo são as instituições democráticas. Também os poderes constitucionalmente estabelecidos. E já que estamos generalizando, também a própria Constituição. Não vou falar do meio ambiente, dos povos indígenas, da educação ou art. 142 – vamos focar no futebol. Depois de vestir a camisa de um clube carioca, Jair Bolsonaro editou uma Medida Provisória que, entre outras questões interfere na venda dos direitos de transmissão do futebol brasileiro. Sim, uma Medida Provisória, já que a volta do futebol e as questões relativas ao direito de arena aparentemente eram “caso de relevância e urgência” no meio da pandemia.

Não vou me atentar para a questão dos clubes diretamente atingidos pela MP 984/2020 ou para o problema do desequilíbrio relativo à distribuição dos direitos de transmissão. Aqui, vale lembrar que a Medida Provisória produz efeito imediato, enquanto o Congresso corre para deliberar se a regra será incorporada à legislação. A Medida vale por 60 dias, prorrogáveis por mais 60 dias. Quatro meses, portanto. Se o conteúdo não for apreciado pelas duas casas após 45 dias, ganha status de “urgente” e tranca a pauta. Nada mais é votado enquanto não houver deliberação. Então fica a pergunta: é pertinente ocupar – e, eventualmente, trancar – a pauta legislativa com futebol por meio de Medida Provisória, sobretudo em meio à situação de saúde pública que estamos vivendo? 

É incrível que, em terra brasilis, os absurdos são tão frequentes que acabam banalizados – a Revista Piauí que o diga! – ou, nós que vejamos, atônitos, crianças de 10 anos violentadas física, sexual e verbalmente, por um povo, repito: frio. Medíocre. Egoísta. Cego. Enfim, o futebol brasileiro voltou. E como reflexo da sociedade, os casos de covid-19 entre os jogadores imediatamente aumentaram. Os falsos negativos assustam. Os autofalantes que imitam o barulho da torcida tentam normalizar a situação. As pessoas que lotam bares e praias tentam normalizar suas vidas. Os torcedores que, fora dos estádios, se aglomeram para assistir aos jogos, tentam normalizar o futebol. Há 4 meses, os números de mortes permanece, praticamente, constante. A doença normalizou-se. A morte tornou-se banal.

“Mas se o futebol voltou, é porque a situação está se normalizando, não é?”. Infelizmente, não é porque a situação estava melhorando, e sim porque, negacionistas, tentamos, forçosamente e ignorantemente, “normalizar” a situação. “O Brasil não pode parar”. Então, o futebol – a metonímia – tinha que continuar.

Como já disse, estou sim, generalizando. É fato que, mesmo dentro do futebol, por exemplo, há clubes que se manifestaram contra esse retorno. Antes de ele ocorrer e durante. No primeiro jogo do Botafogo pelo campeonato carioca, os jogadores protestaram, entrando em campo com uma faixa dizendo: “protocolo bom é o que respeita vidas”. Além disso, seus uniformes apresentavam a frase “black lives matter” (“vidas negras importam”) em referência ao movimento contra a violência policial contra os negros, iniciado nos EUA e que ganhou força no Brasil. Também por isso, por haver exceções, eu repito: o futebol é uma metonímia da vida.

No futebol, somos competitivos, somos orgulhosos, somos cegamente apaixonados pelas nossas cores. Mas na vida, sejamos como o Botafogo: lutemos pelo respeito que tanto falta nos dias de hoje; lutemos, em meio a tantos absurdos, pela lucidez. O futebol pode sim, ser uma boa metonímia da nossa vida.

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