Feminismo · Frames de Ofício · Resenha · Saúde Mental · Violência Sexual

[ALERTA DE GATILHO: VIOLÊNCIA SEXUAL] O Retrato de Crimes Sexuais em I May Destroy You

Por Thadeu Vilas – TXII

O primeiro contato que tive com o trabalho de Michaela Coel foi com a série, escrita e protagonizada pela mesma, disponível no Netflix: “Chewing Gum“. O humor extremamente ácido e satírico – que também aborda, de forma adequada, questões sociais relevantes como racismo, gentrificação, homofobia entre tantos outros – fez com que eu me apaixonasse pelo seriado e, consequentemente, por sua protagonista e escritora. Quando vi o anúncio de “I May Destroy You” fiquei completamente ansioso, afinal, há 3 anos Coel não lançava um projeto autoral novo (mesmo que tenha participado em outros projetos, como “Black Mirror“), mas ao mesmo tempo fiquei receoso, porque como explicado pela autora em uma entrevista concedida em 2018: o objeto central da produção seria a violência sexual que sofreu durante as gravações de seu projeto anterior.

Não vou dar muitos detalhes da obra, para evitar spoilers aos que desejarem assistir – ainda mais que a série foi finalizada há pouco tempo –, mas “I May Destroy You” explora os limites do que é – e do que não é – um ato sexual consentido. Sempre que se comenta sobre violência sexual, a primeira forma que vem à mente é o sexo penetrativo forçado, porém esta não é, definitivamente, a única. Além de uma violência sexual facilitada pelo uso de drogas, a série trata sobre “stealthing” – quando o parceiro retira o preservativo sem o consentimento da outra parte –, o “esfregar sexualmente” sem consentimento – que apesar de ambos estarem tipificados como crime sexual, nem sempre há o conhecimento de seu status como tal –, a série vai mais longe e debate acerca de outras situações em que não é fácil se dizer se houve consentimento ou não: como o caso de uma personagem que fez sexo a três imaginando que os outros parceiros não se fingiram de desconhecidos, mas que após o ato acabou percebendo que os dois, na realidade, eram amigos e tinham mentido sobre sua relação; e um caso de um personagem que se apresentou como hétero, mas logo após a relação sexual revelou ser gay e que aquilo não passava de uma experiência.

Além da própria violência, a série também aborda como as autoridades lidam com o recebimento de vítimas, inclusive no tratamento dado a um homem gay que foi denunciar o crime pelo qual passou. Tudo é tratado de forma extremamente realista, pois Michaela Cole utilizou da experiência de outras pessoas para basear sua obra.

Somente com isso já dá para ver que a obra definitivamente não é leve como o trabalho anterior, mas também não espere algo indigerível. Mesmo com uma temática extremamente séria, a série utiliza de recorrentes momentos de comédia para aliviar a atmosfera pesada, fazendo com que o espectador alterne entre momentos de asfixia e riso leve. Mas não para por aí: a violência que a protagonista sofre ocorre no primeiro episódio e ela é o núcleo central que nos acompanha durante toda a obra. Qual é o tema dos demais 11 capítulos então? Bem, além dos demais crimes – e situações ambíguas – citados, o processo de recuperação das vítimas.

Arabella é a protagonista e mesmo que o foco da narrativa às vezes mude para os personagens ao seu redor, é o conflito dela que acompanhamos com maiores detalhes. E quando falo conflito, não digo somente os crimes cometidos contra ela, mas também as consequências ocasionadas pelo trauma.

Somos completamente inseridos no conflito psicológico de Arabella, desde a negação de sua dor pessoal quando comparada à tragédias de grande porte (a personagem repete para si o mantra “Há crianças passando fome, há crianças passando fome; há uma guerra na síria, há uma guerra na síria; nem todos tem um smartphone, nem todos tem um smartphone”), passando pelo sentimento de culpa, mudando para um hiperfoco nas redes sociais e sua personalidade midiática, vemos como Arabella tenta lidar com seu trauma e acaba adotando certos posicionamentos prejudiciais para si.

O título “I May Destroy You” (em tradução livre: eu posso destruir você) pode ser lido tanto uma referência aos violentadores, quanto – e talvez até mesmo mais adequado -ao processo de lidar com o trauma que Arabella passou – assim como outras e outros sobreviventes –, pois embarcamos em sua jornada de cura emocional, e vemos momentos críticos de sua viagem, onde até mesmo cogita-se o suicídio. O processo de cura de qualquer trauma não é suave ou calmo, e isso a série retrata com perfeição.

A dinâmica disfuncional dos personagens tanto entre si, quanto consigo mesmos é o motor que leva a série adiante, e que faz com que espectadores – mesmo aqueles que nunca passaram por uma situação de violência sexual – consigam se identificar, ter empatia, ou, ao menos, refletir sobre tudo disposto. Então não tenham dúvidas, essa série definitivamente vai mexer com vocês.

Apesar de densa, a série é muito envolvente e te prende na trama, logo não ache que você vai desistir nos primeiros episódios, porque tenho quase certeza que isso não irá acontecer.

Ademais, recomendo fortemente que todos assistam a esse incrível trabalho de Michaela Coel, pois ele vale a pena todas as horas investidas. Só faço a ressalva que vítimas de crimes sexuais talvez se sintam desconfortáveis com algumas cenas, então recomendaria pensar bem antes de iniciar esse programa.

Por fim, “I May Destroy You” foi uma das melhores séries que vi atualmente e merece toda a atenção de vocês – e o final é surpreendente, só para constar –. Espero que vejam!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s