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OCIOSFORK: OLORUM, DE MATEUS ALELUIA

Por Thadeu Vilas (TXII)

Olorum é, na religião ioruba, o pai de todos os orixás, o senhor do destino, a maior divindade de todas, e foi em sua homenagem que Mateus Aleluia resolveu batizar seu mais novo álbum de estúdio (Olorum, 2020). Ex-membro da banda Os Tincoãs, Mateus utiliza questões raciais, amorosas e religiosas como matéria-prima de seu terceiro disco em carreira solo, fazendo, sem dúvidas, um dos melhores lançamentos do ano.

O disco pode ser dividido – não de forma extremamente rígida, mas sim fluida – em 2 partes: músicas mais festivas e alegres e outras mais recolhidas e emocionais. Um ótimo exemplo do primeiro grupo é a crescente Amarelou, um sambinha que se começa com violinos e vai se desenvolvendo até chegar numa euforia de vozes e percussão, enquanto o artista canta sobre memórias e o passar do tempo, de uma forma nostálgica, mas que passa longe de provocar tristeza no ouvinte. Filho do Rei e Pimenta Mumuíla são outras duas faixas que praticamente convidam o ouvinte a se levantar e dançar com os ritmos que flutuam entre samba, bossa-nova e brega, dando um tom animado e celebrativo ao disco.

Porém é no segundo bloco onde nós somos presos pela força do trabalho. É no intimismo que Mateus Aleluia cresce e encanta a todos. Seja na faixa de abertura em que canta “Olorum, sai do seu reino e vem me ver / Olorum, seu povo está cansado de sofrer” refletindo sobre as chagas deixada pela escravidão e as constantes opressões que o população preta sofre, ou então na poética e esperançosa Samba-Oração, na qual clama por mudanças, Mateus Aleluia consegue abordar temas extremamente relevantes de forma sensível e tocante. Os versos, as batidas de percussão, as cordas, tudo se encaixa delicadamente para fazer uma experiência intensa, em que sentimentos de dor e esperança andam lado a lado.

Seja na festividade ou na introspecção, um elemento presente do início ao fim do álbum é a ancestralidade africana de Mateus Aleluia. Ambientada nos ritmos – principalmente em Kawô Kabiyesilê e Kyriê! Epa Babá… – e dando conteúdo às letras – exemplo perfeito seria a já citada Filho do Rei -, o artista faz de sua cultura o objeto central da obra, como forma de celebração e respeito (algo que alguns estudiosos brasileiros talvez não entendam a importância), e o violão e tambores foram os instrumentos escolhidos para embalar o versos e acompanhar a voz grande, por vezes melancólica, do cantor.

Olorum é uma obra belíssima e atemporal: intimista o suficiente para convidar o ouvinte a mergulhar nas memórias de Mateus, mas que ao mesmo tempo é muito maior do que só as experiências pessoais do artista, servindo de identificação para diversas outras pessoas e versando sobre problemas sociais que afligem grande parte da população brasileira. Sem dúvidas um dos melhores lançamentos do ano e que todos deveriam dar ao menos uma chance de escutar.

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