x

O homem que sabia javanês

Por Flávia Gomes (Dora) – TXII

Desses tempos, lendo a coletânea de Lima Barreto, voltei a um conto que meu avô me apresentou. Mais uma vez, ri. Contudo, diferente de quando era criança, também entendi a gravidade de um Brasil que, desde a época do autor, sabe javanês. Me permiti trazer, desse vez, um conto ao starbooks. Fica aqui o homem que sabia javanês.

“Cansa-se; mas não é disso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.
Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!”

Em 1911, mais de 100 anos atrás, quando Lima Barreto escreveu sobre a sociedade, burocracia e intelectualidade brasileira, talvez não pensasse que ela continuaria a mesma. Fazer o que? Evolução não é para todos. No nosso caso, só se for para trás.

O conto, que passa-se em uma confeitaria, nos apresenta Castelo – fluentíssimo em javanês.

“Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc.” Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me”

Castelo conta então sua história: como, ao ver um anúncio de procura-se professor de javanês, resolveu se candidatar para vaga somente com um dicionário de conhecimento e, no fim, virou diplomata nacional. Opa! Não só diplomata – um diplomata reconhecido, que até mesmo almoça com o presidente. Soa familiar?

O personagem, que começa sua história fugindo do dono da pensão que vivia por conta de falta de pagamento, é uma crítica a sociedade desigual – aquela em que o mundo, como um todo, custa cada vez mais caro e exige cada vez mais dinheiro do bolso dos seus cidadãos. (Quanto tá o preço do arroz por aí?).

Enquanto isso, a casa do barão – que Castelo agora é professor de javanês – mostra toda a riqueza e luxo de quem sempre teve tudo na vida.

O homem que sabia javanês é, sobretudo, uma relação de classes. Sobre como, Castelo, que veio do nada e nem dinheiro para uma xícara de café tinha, resolve fingir saber uma língua todinha – e inventa toda uma história por trás disso – para conseguir o dinheiro da passagem de  ônibus.

Mais que isso, o conto é sobre malandragem, por assim dizer. O jeitinho de Castelo que é a representação do jeitinho brasileiro como um todo. Sobre a ignorância da classe média e alta brasileira, que aplaude de pé os conhecimentos fictícios de um personagem que somente discursa bem.

Enganando até mesmo o Estado, ao se tornar diplomata, Castelo é a personificação de prefeitos, deputados, governadores e presidentes. Admirado por alienados que acham o máximo o conhecimento da tal língua, ganha dinheiro e fama.

“E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. “Qual!”, retrucava ele. “Vá, menino; você sabe javanês!” Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.
O diretor chamou os chefes de seção: “Vejam só, um homem que sabe javanês que portento!”

Há, no conto, uma irreverência a saberes inexistentes: o falar bonito do político, médico, jurista, economista, que, muitas vezes, não passa de uma falar difícil que só torna o real conhecimento inacessível, quando ele existe.

A pergunta que fica é – como Castelo conseguiu tantas glórias? E os exames para provar seus conhecimentos? Preciso informar que alguns deles realmente existiram, sendo Castelo aprovado com louvor, uma vez que ninguém parecia questionar suas respostas. Apenas assumem o que ele diz como verdade.

“Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s