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Mesma moeda

Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

Oito anos na presidência dos EUA e oito anos em guerra. Essa frase pode resumir muito bem o período de Obama na Casa Branca. Maior orçamento militar da história. Maior quantidade de mísseis disparados desde a Guerra do Vietnã. Maior número de operações realizadas em outros países desde o final da Segunda Guerra Mundial. Primavera Árabe, escândalos de espionagem da NSA, Guerra da Síria, bloqueio econômico da Venezuela, reativação da Quarta Frota do Atlântico Sul…

Essas e outras tragédias e crimes humanitários tiveram participação direta do ex-mandatário estadunidense. E mesmo assim, ele e seu partido são muito admirados por setores progressistas da sociedade, vistos como antagonistas a Donald Trump. 

Sobre Trump, sequer preciso dizer que ele é um monstro. Porém, é necessário dizer que não existe quase alguma diferença real entre Obama – agora, Biden – e Trump. Da mesma maneira que a diferença entre republicanos e democratas é praticamente inexistente: defendem o intervencionismo em outros países, são contra uma série de direitos trabalhistas (básicos, em qualquer outra parte do globo), são contra um sistema universal de saúde e gratuidade do ensino superior, não fazem absolutamente nada para controlar o absurdo armamento da sua população, promovem o encarceramento em massa de populações mais pobres e não brancas.

A única diferença é que os democratas disfarçam um pouco melhor sua verdadeira face. Não aceitam a saúde universal, mas abaixam o valor do seguro para uma parte minúscula da população. Não promovem o desarmamento, mas em meia dúzia de estados instituem uma checagem de antecedentes criminais. Bombardeiam dezenas de países e, ao invés de se gabar disso no Twitter, fingem que nada aconteceu e vão em talk shows se divertir com o apresentador e arriscar um rap. 

Digamos que estar sob um governo democrata ou sob um governo republicano é como ter um marido que te agride. A única diferença é que um deles te compra um presentinho e fala que vai tentar mudar, enquanto o outro fala que você mereceu e que se não se comportar na próxima vez vai ser pior.

E essa agressão, com uma sutil diferença, é a base de todo o sistema democrático e político estadunidense. Democracia essa que é imposta a todos os países do globo: a ilusão da mudança. Os EUA são o suprassumo do governo feito pela elite e para a elite, e a melhor maneira dessa elite se manter no poder é promovendo uma narrativa de alternância de poder. Colocam dois iguais em polos distintos e, enquanto a população se digladia para fazer seu lado vencer, o sistema se perpetua. Não importa se é Obama, Biden, Trump, Bush, Clinton que está no Salão Oval. Para o planeta o resultado é sempre o mesmo: America first. E por America quero dizer os EUA de Bezos, Gates, Bloomberg e afins, o americano comum é simplesmente uma vítima do sistema, mas, evidentemente, uma vítima menor que a criança que só passa fome em Caracas ou em Damasco simplesmente porque seus países não cederam ao imperialismo estadunidense. Não aceitaram a ilusão democrática.

Bem, por que disse tudo isso? Porque ultimamente uma das coisas que mais me irrita é ver gente de esquerda exaltando o Obama. Quem espionou o Brasil foi o Obama. Quem reativou a Frota do Atlântico Sul foi o Obama. Quem iniciou a crise na Venezuela foi o Obama. Quem começou as relações ilegais entre FBI e Lava Jato foi o Obama. Republicanos e democratas são e sempre serão duas faces da mesma moeda. E ambos arrebentam países periféricos, como o Brasil, da mesma maneira. O fato de Obama ser simpático não justifica uma gota de admiração.

Em cinco semanas, os estadunidenses vão às urnas escolher seu novo governante. E essa falsa democracia vai continuar seu processo de perpetuação. Enquanto brasileiro, espero que Biden vença, por entender que isso vai aumentar o isolamento internacional do governo Bolsonaro. Enquanto pessoa que vê nos EUA o grande mal do século XXI, não ficaria triste com uma vitória de Trump, por entender que isso vai aumentar o isolamento internacional de seu próprio país, abrindo espaço para um enfraquecimento ou, até mesmo, derrubada desse sistema antidemocrático, imperialista e ultracapitalista.

Contudo, independentemente do resultado, tô torcendo para não ver nenhuma postagem em comemoração à vitória de quem quer que seja e, muito menos, fotinhos do Lula e Obama apertando as mãos, ou da família Obama entrando no Palácio da Alvorada como se fosse uma capa de disco gospel.

Não é admissível que se idolatre quem nos apunhala enquanto sorri e afaga. O marido que bate e faz um agradinho depois é tão criminoso quanto o que só bate e ameaça. Não podemos mais nos contentar com essa ilusão. É momento de se conscientizar e buscar modos de conquistar mudanças reais.

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