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Levante a Vox

Por Flávia Gomes (Dora) – TXII

Teoricamente, em uma democracia, todos tem sua liberdade de expressão. É assim também em Vox, livro de Christina Dalcher. Até o momento o mundo vira de cabeça para baixo.

Vox, apesar de ser uma distopia, tem muito da nossa sociedade. O questionamento principal do livro é geral: até quando o gênero irá dar vantagens a certas pessoas e desvantagens a outras?

O enredo se passa em um Estados Unidos onde mulheres só podem falar até 100 palavras por dia. Mas não é só isso: elas também estão impedidas de trabalhar, e crianças mulheres não podem mais aprender a ler e escrever.

As coisas mudam após a eleição de um governo de extrema-direita, que prega valores religiosos, tanto mulheres, quanto outras minorias rapidamente começam a perder seus direitos. (Qualquer semelhança é mera coincidência).

É a personagem forte de Dra Jean McClellan, uma neurolinguística, que não aceita os termos do novo governo, disposta a lutar por si, sua filha e por todas as outras mulheres, que precisam recuperar a voz.

“- Honestamente, Jacko…, Você está ficando histérica.

– Bem, alguém precisa ficar histérica por aqui”

Jean é, sem dúvida, a personagem com quem mais me conectei. Talvez, por conta da escrita em primeira pessoa, que nos faz entender seus pensamentos (mesmo os negativos).

Outro recurso utilizado pela autora me surpreendeu: recorrentemente Jean conversa consigo mesmo -mentalmente-, e tudo nos é exposto, como uma conversa constante.

É isso que nos faz acompanhar momentos cruciais de Jean: suas dúvidas acerca dos homens de sua família, que se encontram em uma situação bem melhor que a dela; sua mudança de pensamento; que considerava a luta de minorias uma besteira, até ela própria se tornar uma.

“Pense em expressões como “permissão do cônjuge” e “consentimento paterno”. Pense em acordar um dia e descobrir que não tem voz em nada.”

Em um misto de ficção e terror, o livro te mantêm em um suspense frequente. A escrita é extremamente dura, o que, diversas vezes, me forçou a parar a leitura.

Os capítulos são bastantes curtos, o que dá a sensação de que tudo está acontecendo ao mesmo tempo, como uma montanha russa. Tudo o que você pensa é: ela vai ou não acabar com o sistema?

“A insensatez dos homens sempre foi tolerada”

O pior momento é quando o leitor, no caso, eu, percebe que o que Christina ali escreve não está nada distante da nossa realidade. Na verdade, as proibições já existem – ela só faz elevá-las a um nível mais extremado.

“Talvez tenha sido isso que aconteceu na Alemanha com os nazistas, na Bósnia conservos, em Ruanda com os hutus. Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível. É fácil, penso”

Em mensagens gerais, Vox nos demonstra como discursos bem difundidos podem gerar o caos na sociedade. São diversos os personagens, inclusive mulheres, que acham o sistema correto – Christina chama a atenção para a alienação dentro da sociedade.

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