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Esporte, racismo e posicionamento político

Por Rafa Tannous – TXII

O esporte é uma das formas de manifestação cultural que obtém maior alcance no mundo todo; sua capacidade de comoção ao público é impressionante e inclusive difícil de ser explicada. No entanto, quando se trata de manifestar-se politicamente através do esporte, há um cenário muito negativo, palco de racismo, preconceito, retaliação e injustiças dos mais diversos tipos, e que precisa ser questionado.

Em 1968, ano marcado por levantes e revoluções ao redor do mundo todo, também foi ano de Olimpíadas no México, em que dois atletas negros estadunidenses John Carlos e Tommie Smith, após a prova de 200 metros rasos, no pódio – John em terceiro lugar e Tommie em primeiro, tendo acabado de quebrar o recorde mundial – levantaram seus punhos cerrados com luvas pretas em alusão ao movimento das Panteras negras, em congruência com a luta pelos direitos civis que ocorria nos Estados Unidos. Em resposta ao ato, ambos os atletas foram banidos de competir e condenados ao ostracismo.

Muitos anos depois, em 2016, Colin Kaepernick, atleta negro, então quarterback dos São Francisco 49ers, iniciou um movimento chamado “Take a Knee”, no qual ele se ajoelhava no início de cada jogo da NFL enquanto o hino dos Estados Unidos tocava, como forma de protesto à injustiça racial e à brutalidade policial. O resultado não foi muito diferente do caso anterior: mesmo não sendo banido de competir, após o fim da temporada seu contrato com os 49ers não foi renovado e ele não foi contratado por nenhum outro time. O movimento “Take a Knee” foi continuado mesmo sem o atleta, até 2018, ano em que a liga lançou mão de uma política que reforçou a proibição do ato de se ajoelhar durante o hino nacional.

Para além do silenciamento de movimentos antirracistas, a censura de manifestações políticas contra-governo também se mostra problemática, sobretudo dentro de um Estado Democrático de Direito. Neste ano, no dia 20 de setembro, a atleta Carol Solberg, após conquistar medalha de bronze na primeira etapa do circuito brasileiro de vôlei de praia em Saquarema, em entrevista ao vivo protestou contra Bolsonaro. Em seguida, a CBV lançou uma nota afirmando que o comportamento da atleta “denegriu” (e este foi o termo racista utilizado) a modalidade – a mesma CBV que postou uma foto em 2018 em que os atletas faziam o número 17 com os dedos. Carol sofreu denúncia pelo ato e será julgada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e uma das alegações é de que sua atitude foi antidesportiva.

Os casos supracitados são muito representativos e, a partir deles, pode-se depreender que o espaço temporal entre um e outro não foi suficiente para que houvesse uma mudança efetiva no cenário esportivo, no sentido de concessão e abertura ao debate político; não somente isso, pois nos dois primeiros casos, também é escancarado o racismo por detrás das instituições que movimentam o esporte, as quais refletem uma sociedade estruturalmente racista.

Para além dos casos acima, vale ressaltar que o silenciamento dos atletas ocorre por outras vias também, pois, além de punir aqueles que protestam, aqueles que sofrem preconceito muitas vezes são punidos, a exemplo do recente caso de Neymar, que foi chamado de “macaco” por Álvaro González, e reagiu com um tapa no adversário, resultando em cartão vermelho. Enquanto o zagueiro espanhol segue impune, o atacante foi punido com suspensão de dois jogos por “ato de brutalidade ou golpe cometido fora do ato de jogo”.

Outro caso que exemplifica essa realidade é o caso do ginasta – negro – Ângelo Assumpção, que, com altíssimos índices de desempenho, tinha potencial de se tornar um grande atleta olímpico, mas após um episódio de 2015, em que ele foi ridicularizado pelos colegas ginastas – brancos – em um vídeo com “brincadeiras” racistas, ele foi praticamente anulado; a CBG tomou providências no sentido de afirmar que não se tratava de racismo e inclusive proibiu Ângelo de falar sobre o caso. As Olimpíadas chegaram em 2016 e curiosamente o atleta não foi chamado para competir. Apenas mais uma evidência – entre tantas – do lado pútrido e racista das confederações esportivas.

Em contrapartida aos casos elucidados, neste ano pudemos presenciar grandes avanços no debate político e na luta antirracista dentro da NBA. Desde o início dos protestos por justiça a George Floyd, grandes atletas da liga como Stephen Jackson e Jaylen Brown foram às ruas se manifestar, isso antes da retomada do campeonato; quando da retomada, além da bolha em Orlando e da redução do número de times participantes, houve outros aspectos diferentes, como a utilização de frases de justiça social nas camisas dos jogadores, entre elas, Black Lives Matter (vidas pretas importam) e Say Their Names(diga seus nomes) e a impressão da frase Black Lives Matter no chão da quadra. A ideia dessas frases era de não distrair os espectadores de problemas sociais importantes.

Mas o episódio mais significativo se deu quando, por uma iniciativa do Milwaukee Bucks, os times adiaram os playoffs como protesto contra a violência policial nos EUA, após o ataque sofrido por Jacob Blake. Eles não simplesmente não jogaram; muito mais do que isso: eles não se deixaram ser entretenimento em um contexto de injustiça social, abrindo um precedente que vai ser – e já está sendo – usado de exemplo por diversas ligas no mundo todo.

As manifestações políticas no contexto do esporte são sim importantes; no entanto, não são suficientes. É preciso que, juntamente aos protestos existam ações práticas de mudança social. E só pra não esquecer: fora Bolsonaro!

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