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Vencedores e perdedores: análise do primeiro debate à Prefeitura de Ribeirão Preto

Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

Nesta quinta feira (15/07), o Centro Acadêmico Antônio Junqueira de Azevedo e o Jornal Ócios de Ofício, ambos da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto – USP, organizaram o primeiro debate entre as candidatas e os candidatos à Prefeitura de Ribeirão Preto.

Participaram do debate o Promotor de Justiça aposentado e professor universitário Antônio Alberto Machado (PT), o policial Coronel Usai (PRTB), a escritora Cris Bezerra (MDB), o engenheiro Emilson Roveri (Rede), o professor Mauro Inácio (PSOL) e a professora universitária Suely Vilela (PSB).

O atual prefeito Duarte Nogueira (PSDB), Fernando Chiarelli (Patriota), Vanderley Caixe (PCdoB) e GB33 (PMN) não responderam às tentativas de contato da organização. Rodrigo Junqueira (PSL) confirmou a participação, porém não compareceu (provavelmente devido aos problemas de registro de sua candidatura).

O debate foi feito em três blocos, sendo o primeiro de perguntas dos organizadores, o segundo foi composto por perguntas de estudantes da FDRP e o último com perguntas de quem estava acompanhando ao vivo nas redes sociais. Em respeito às medidas sanitárias, tudo ocorreu de forma online.

A primeira pergunta foi sobre geração de emprego no pós-pandemia. Aqui o destaque (e destaques podem ser positivos e negativos) foram Emilson Roveri (Rede), que aposta todas as suas fichas em turismo e no final de sua resposta joga pra plateia uma renda mínima municipal – que é uma medida econômica fundamental – sem qualquer detalhamento. Sobre a renda mínima, Mauro Inácio (PSOL) se aprofundou tanto quanto o candidato da Rede.

A segunda pergunta foi sobre transporte público. Com destaque – positivo – indo para Antônio Alberto Machado (PT) que fez a proposta mais simples e direta para a medida: rever o modelo de concessões. “Ribeirão Preto tem um modelo que privatiza o transporte urbano ao invés de concedê-lo”. E, temos um destaque negativo para o Coronel Usai (PRTB), que prometeu tudo e mais um pouco sem descrever nada.

Em seguida foi debatido o ensino na rede municipal no pós-pandemia. Como Suely Vilela (PSB) foi Secretária de Educação do atual prefeito Duarte Nogueira, irei focar em sua resposta. Lendo durante toda sua fala, aposta em um plano de transição focado em identificar as defasagens entre alunos. Depois disso ela pula para uma defesa da educação em tempo integral, mas deixa claro que não é viável nos dias de hoje. Sinceramente, esperava muito mais de alguém que trabalhou com educação durante toda a sua vida e já foi responsável pela educação em nosso município. Os destaques positivos vão para Mauro Inácio e Antônio Alberto Machado, justamente por se colocarem contrários à volta as aulas presenciais no atual momento. O ultranegativo fica com o Coronel Usai, que como o bolsonarista que é, aposta no “protocolo” do Ministério da Saúde, exigindo uma rápida – e inconsequente – volta às aulas presenciais.

Depois debateu-se saúde das mulheres. Aqui ninguém se sobressaiu, com quase nenhuma proposta sendo detalhada ou sequer apresentada. Os destaques minimamente positivos vão para Cris Bezerra, Mauro Inácio e Antônio Alberto Machado, que ao menos tiveram coragem de denunciar a péssima gestão tucana na saúde de nossa cidade.

A última pergunta do bloco inicial foi sobre moradia e ações de reintegração de posse durante a pandemia. Suely Vilela não tinha resposta para a pergunta, e, aparentemente, foi orientada a falar o nome de Rafael e Ricardo Silva sempre que isso acontecer. Emilson Roveri, que defendeu a regulamentação fundiária das “favelas”, levou uma bela invertida de Mauro Inácio, que focou sua resposta na dignidade dos moradores das comunidades e denunciou a resposta elitista do candidato da Rede. Como Antônio Alberto Machado foi Promotor de Habitação, sua resposta foi de longe a mais técnica e mais detalhada: reedição do Programa Lotes Urbanizados e Regularização Fundiária, ao mesmo tempo que denunciou o desmanche do Programa Minha Casa Minha Vida, pelo governo Bolsonaro, e o fim da CDHU, pelo governo Dória.

O segundo bloco alterou a forma do debate: sorteio de quem deve responder, e esse sorteado escolhia outro candidato para também responder a mesma pergunta. No total foram 12 perguntas:

  • Se eleito, pretende melhorar as condições de trabalho e os honorários dos professores?

Suely Vilela focou sua resposta nas condições de trabalho, defendendo uma melhora na infraestrutura das escolas municipais. Sobre os honorários, não respondeu, mas deixou claro: não vai aumentar. Cris Bezerra foi a escolhida para responder a mesma pergunta. Defendeu que os salários de todos os servidores municipais estão defasados. “Eu sou professora e sei o quanto precisamos nos empenhar para melhorar essa situação”, levando a melhor nesta pergunta.

  • Quais são suas estratégias para o patrimônio histórico de Ribeirão Preto?

Emilson Roveri denunciou que a atual gestão não faz nada para defender o patrimônio histórico da cidade: “O Museu do Café está largado as traças”. Também defendeu que uma valorização do patrimônio histórico apenas vai acontecer por meio de capital privado (denunciou a atual gestão, mas deixou claro que vai seguir a mesma cartilha do Nogueira para a cultura e patrimônio histórico). Coronel Usai foca em um levantamento das obras de revitalização que precisam ser feitas e aposta na captação de recursos junto ao governo federal e iniciativa privada para financiar as reformas. Emilson perdeu esse bloco.

  • Como pretende trabalhar a sustentabilidade de forma prática em Ribeirão Preto?

“Precisamos focar em sustentabilidade ambiental, em sustentabilidade social e sustentabilidade econômica”, disse Emilson Roveri. No resto da resposta focou em atacar os demais candidatos, os chamando de populistas. Antônio Alberto Machado fez uma breve descrição do que precisa ser feito em relação a parte ambiental, e depois defendeu que “há dinheiro na cidade” e que “precisamos de ousadia e criatividade para arrecadar bem e gastar bem”. Mais uma derrota do candidato da Rede.

  • Como o candidato pretende ampliar as opções de lazer gratuitas e de qualidade dentro da cidade.

Mauro Inácio defendeu, em uma resposta bagunçada, o aumento de 1% para 2% no investimento em esporte, e que esse investimento chegue para a população periférica. Também defendeu a abertura das escolas aos finais de semana. “Ter esporte e lazer é uma questão de educação e isso tem que estar no plano principal”. Antônio Alberto Machado concordou com o que foi defendido pelo candidato do PSOL, com um aprofundamento nas necessidades da cidade em relação à cultura. Ponto para os dois.

  • Quais as suas propostas para o meio ambiente? Na equipe do candidato há biólogos e ambientalistas de modo geral pensando conjuntamente o meio ambiente de nossa cidade?

Antônio Alberto Machado defendeu a implementação de um programa de arborização e o combate às queimadas, após discorrer longamente sobre as necessidades ambientais da cidade. Mauro Inácio enfatizou que sua candidatura conta com diversos profissionais das mais diversas áreas, e defendeu a criação de uma patrulha ambiental na guarda municipal. Uma proposta interessante é o plantio de arvores frutíferas na cidade, como forma de auxiliar no combate a fome. Ambas boas respostas, com leve destaque para Mauro Inácio.

  • Nos últimos anos há uma campanha de desinformação quanto ao papel das instituições de ensino superior no país. Ribeirão Preto, contudo, conta com diversas universidades e faculdades de alta qualidade. Sendo assim, como aproveitar os estudos e pesquisas feitos por essas instituições na gestão municipal?

“Precisamos trazer para Ribeirão Preto a faculdade municipal”, expôs Mauro Inácio. O resto da resposta foi muito confusa pela má conexão do candidato. Cris Bezerra foi a escolhida para responder. Focou sua resposta na parceria entre prefeitura e faculdades para a prestação de serviços e realização de estudos. Apesar de ter sido uma resposta sem qualquer aprofundamento, ponto para a candidata do MDB.

  • Como o candidato e a candidata pretendem lidar com casos de violência doméstica em Ribeirão Preto?

Coronel Usai pretende criar um gabinete de inteligência que integre informações de todas as diversas policiais que atuam em Ribeirão Preto. Também defende uma campanha de informação sobre direitos das mulheres, além da construção de um local adequado para receber as mulheres vítimas de violência. Mauro Inácio defende a criação da patrulha da Maria da Penha e um convênio com a polícia militar e a polícia civil com o objetivo de melhorar o treinamento dos policiais e guardas que atuam nesses casos. Apesar de respostas elaboradas, nenhum dos dois demonstrou grande domínio sobre o assunto para propor medidas mais efetivas, por isso, não houve nenhum destaque nesta questão.

  • Quais as causas do atraso da educação básica no município e como vocês pretendem mudar esse cenário?

“As escolas precisam ser agradáveis”. Cris Bezerra defende a valorização do professor e um maior investimento em infraestrutura. Também fez um leve panorama da situação das escolas municipais. Não descreveu nem aprofundou nenhuma proposta. Suely Vilela foi a escolhida para responder. Defendeu que o principal problema da educação na cidade é “a falta de conteúdos” e afirmou que “70% dos nossos jovens saem analfabetos funcionais” do ensino fundamental ao ensino médio. Ponto para a Cris Bezerra, apesar de ambas as respostas terem sido fracas.

  • Ribeirão Preto tem um forte agronegócio mecanizado, que gera pouco emprego, e pouca agricultura familiar. Qual sua proposta para esse cenário?

Novamente para Cris Bezerra, que defendeu a importância das feiras livres e hortas comunitárias como forma de incentivar a agricultura familiar e para melhorar a qualidade da alimentação do município. Defendeu também a necessidade de melhorar o Agrishow como forma de fortalecer o agronegócio. Coronel Usai fez uma análise breve da situação do agronegócio na cidade. Porém, saiu pela tangente com a proposta de chamar o grande e pequeno agricultor para conversas e elaborar um projeto para a agricultura em Ribeirão Preto. Pontos para ninguém. Ambas as respostas fracas e rasas.

  •  Qual a forma mais eficiente e realista no curto e médio prazo para gerar vagas nas creches na cidade?

Coronel Usai defende a criação de convênios com creches privadas para resolver o problema da falta de vagas. Suely Vilela defende que criou mais de 500 vagas enquanto foi secretária de educação. Também defende parcerias com o setor privado para a criação de vagas. Mais uma rodada de fraquíssimas respostas.

  •  Quais serão as suas ações para incentivar a redução de veículos de transporte individual e valorização do transporte coletivo?

Antônio Alberto Machado aposta em um modelo baseado em múltiplos modais de transporte, com o objetivo de permitir que a população não seja dependente única e exclusivamente do carro. Defende ciclovias, ruas completas, investimento em ônibus e corredores exclusivos e mais medidas. Emilson Roveri concordou “em gênero número e grau” com a proposta do candidato petista. Também deu mais destaque para o papel das ciclovias. Ambos deram boas e completas respostas, pontos para os dois.

  •  A avaliação de desempenho deveria ser aplicada para o servidor público?

Suely Vilela defende o investimento mínimo possível em comissionados e afirma que “a maquina publica deve ser cada vez mais enxuta”. Também defende a criação de uma lei para regulamentar a avaliação de desempenhos dos servidores, com o objetivo não de penalizar, mas de maneira construtiva para identificar problemas e fundamentar melhoras. Emilson Roveri novamente concordou com o que foi dito por outro candidato, além de afirmar que “servidores públicos não podem competir para ver quem trabalha menos”. Ponto para a candidata do PSB.

Com essa resposta foi encerrado o segundo bloco. O terceiro, com perguntas de quem acompanhou o debate nas redes sociais, não será analisado neste texto, deixo aqui o link do debate completo para quem quiser conferir.

Podemos dividir em três grupos os candidatos e as candidatas em relação ao seu desempenho no primeiro debate à Prefeitura de Ribeirão Preto: perdedores, neutros e vencedores.

Começando pelos perdedores, o principal da noite é o atual prefeito Duarte Nogueira, cuja administração foi constantemente atacada ao longo de todo o debate e sua ausência não permitiu que ele se defendesse. Também perderam o candidato do PMN, GB33, e o candidato do PCdoB, Vanderley Caixe, que, por serem os últimos colocados nas pesquisas, teriam uma grande oportunidade de se apresentar para a população e mostrar seu trabalho e propostas. Além dos candidatos que fugiram do debate, talvez o principal perdedor da noite foi o candidato da Rede, Emilson Roveri. Em uma péssima performance, se escondia constantemente no argumento austericida de falta de recursos e, quando não o fazia, apenas copiava respostas e propostas de outros candidatos. Fechando o grupo de perdedores, destaque para a ex-reitora da USP, Suely Vilela. Além de ter lido respostas pré-fabricadas ao longo da maioria do debate, nem na área de sua especialidade, educação, conseguiu se destacar minimamente, apostando em respostas genéricas e deixando claro que seu governo seria um de continuidade ao de Duarte Nogueira.

Abrindo o grupo dos neutros temos Cris Bezerra, que aposta bastante em sua história e atuação na cidade, mas peca em não conseguir apresentar propostas e, quando o faz, não consegue aprofundá-las. Mas, sinceramente, considerando que sua candidatura foi uma manobra do Baleia Rossi para beneficiar o Nogueira, foi uma performance muito acima do esperado. Fernando Chiarelli, apesar de não ter comparecido, é alguém que com certeza não se prejudicou com a ausência e arrisco dizer que, do mesmo modo de Bolsonaro, se beneficia em não participar de debates. Não foi citado nem atacado por ninguém ao longo do debate, ao mesmo tempo que sua não participação implica em não dar munição para os demais candidatos o atacarem depois (algo inevitável considerando o discurso do candidato). Por fim, o melhor dos neutros foi o candidato do PSOL, Mauro Inácio. Apesar de não detalhar a maior parte de suas propostas, sua performance enquanto debatedor foi muito assertiva e soube crescer em cima das falas de outros candidatos, principalmente de Emilson Roveri.

Os grandes vencedores do debate são Antônio Alberto Machado (PT) e – me dói dizer isso – Coronel Usai (PRTB). Apesar de não concordar com nada que Usai defende e representa, seria ingenuidade dizer que ele não fez um bom debate. Apresentou propostas, as detalhou com clareza, não se envolveu em polêmicas e conseguiu engajar o publico que acompanhava a live. Tem um grande potencial de crescimento nas próximas pesquisas, principalmente na disputa de votos que hoje são do Nogueira. Já Machado se destacou como o candidato que melhor detalhou suas propostas e o fez apresentando um programa de governo coerente e, principalmente, humano e atento às necessidades de nossa cidade. Entretanto, parece faltar energia ao apresentar suas propostas e engajar o público. Se melhorar essa performance, terá mais oportunidade de destaque nos próximos debates, tendo potencial para se consolidar como o nome progressista para essas eleições.

Até o final das eleições essa coluna irá se dedicar única e exclusivamente à sua cobertura.

Parabéns ao Centro Acadêmico Antônio Junqueira de Azevedo, como ex-presidente fico sempre contente em ver o CAAJA crescendo e ganhando cada vez mais destaque, e parabéns ao Jornal Ócios de Ofício, fruto do trabalho dos estudantes da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto e que hoje representa um importante portal de informação e debate em nossa cidade.

2 comentários em “Vencedores e perdedores: análise do primeiro debate à Prefeitura de Ribeirão Preto

  1. Parabéns a Grande Iniciativa do Centro Acadêmico Antônio Junqueira de Azevedo e do Jornal Ócios de Ofício, ambos da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto – USP, sou formado por outra instituição e estava pensando em votar no Vanderlei Caixe, mas depois desse debate vou repensar meu voto em talvez votar no Professor e Promotor Antonio Alberto Machado. Ribeirão Preto carece de iniciativas cidadãs como essa !!!

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