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A RADIOGRAFIA ÉTICA DE AUGUSTO MATRAGA

A hora e a vez de Augusto Matraga (Guimarães Rosa): resumo e análise -  Cultura Genial

Por João Vitor Basso Fabrício (Shade), TXIII

Em meio ao cenário do sertão mineiro da primeira metade do século XX, no qual havia uma enorme desigualdade social, ausência do aparato estatal, predominância de misticismo, uma sociedade agrária, violência generalizada e grande poder dos coronéis, se dá o palco para uma das mais interessantes narrativas de reconstrução de personalidade da literatura brasileira.

O coronel Augusto Esteves (só chamado de Matraga em seu derradeiro momento), descendendo de uma poderosa linhagem regional; tendo perdido a mãe quando muito jovem, e sendo submetido a um pai rígido, problemático e desatencioso, ele foi, na prática, criado por uma avó que mantinha um certo formalismo religioso e queria moldar seu neto para ser padre, mas nunca lhe dera o devido afeto familiar ou mesmo aquele pretendido entre os cristão. Nhô Augusto ( como também era chamado) constitui-se como homem frio, ríspido e extremamente violento; não atentava-se a dor alheia e muito menos buscava uma vivência harmônica com outras pessoas; na verdade, ele se apresentava como um homem superficial que, não refletindo sobre seus atos em si, tornou-se  impulsivo, que abusava de sua condição de poder para satisfazer seus prazeres efêmero e viciosos em detrimento da felicidade alheia. Sendo assim, ele acabava por tornar-se autodestrutivo e, ao invés de projetar uma vida de acordo com o que o filósofo grego Aristóteles chamou de eudaimonia, isto é, a busca equilibrada da felicidade por ações racionais e refletidas conforme essa finalidade última e suprema da existência, a personagem acaba por fechar-se num ciclo de dor e insatisfação.

O conto inicia-se com Augusto em um leilão de “raparigas” no qual ele acaba por envolver-se em confusão, humilha uma dessas moças por sua aparência e ainda expressa-se como homem de vícios dado ao álcool, gastos excessivos e jogos, além de constantemente estar com mulheres diversas apesar de ser casado e pai de uma moça. Após esse evento, as circunstâncias da vida do protagonista começam a mudar drasticamente. A esposa dele, cansada de tantas humilhações do marido, resolve fugir com um amante e leva sua filha consigo. Simultaneamente a tomar ciência da fuga da esposa, Augusto descobre que, por ser um patrão muito cruel com seus subordinados e também por ter drenado sua riqueza com futilidades, já não tinha mais seus capangas a seu dispor; e ainda, eles foram contratados por seu maior inimigo, o Major Consilva. Indo tirar satisfação com seu rival, Nhô Augusto é surpreendido por uma emboscada armada por seus antigos empregados que o humilham e fazem castigos físicos severos nele; o protagonista já prestes a morrer pelas violências, é jogado em um barranco, sendo deixado para pagar por seus crimes com a morte.

Todavia, duas pessoas, como o próprio conto faz questão de dar ênfase, simples e negras, Serapião e Quitéria, o acolhem quase morto e tratam de suas feridas, dão-lhe todo o devido cuidado e afeto até ele se revigorar totalmente. Nesse momento, consuma-se uma reviravolta na trajetória de Esteves, ele, após ter sofrido muito e quase ter perdido sua vida, sente o afeto dos seus protetores e passa a denomina-los por “pai” e “mãe”. Ele, então sente com esse preenchimento de carinho, o qual não tivera na infância, uma chance de recomeçar sua história.

Após ser tratado, seus novos “pais” convocam um padre para orientar Augusto a mudar radicalmente de vida e se tornar um homem bom. Assim diz o sábio e ponderado pregador:

“Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria… Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.’’

Com isso, a personagem entende que poderia, de fato, se redimir e, por meio de uma vida virtuosa e equilibrada, sobremaneira orientada pela ética cristã, que lhe daria a possibilidade de adquirir mais satisfação e felicidade, afasta-se das inquietudes trazidas pelo descontrole e pelos vícios desmedidos. Destacadamente, ele se interessou pela parte da sua máxima redenção, sua “hora e sua vez” prometida pelo religioso como aquele momento para o qual a existência do antigo valentão o levaria a um estado de superação de seu antigo eu perverso. Ele, desse momento em diante, torna-se totalmente obstinado em conseguir alcançar seu objetivo, sua razão de ser, que lhe traria a felicidade. Ainda com algumas características de sua personalidade pregressa, mas com intenções agora mais elevadas e transcendentais:

“Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!… E a minha vez há de chegar… P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!…’’

E dizia: eu terei minha “hora e minha vez”.

Doravante, ele vai, junto a seus cuidadores, para uma propriedade que possuía e que era bem distante de sua antiga região. Nesse novo ambiente, ele passa a praticar as prescrições dada pelo padre:

“[…]todos [da vila próxima de sua propriedade e dos sítios da região] gostariam logo dele, porque era meio doido e meio santo; e compreender deixaram para depois. Trabalhava que nem um afadigado por dinheiro, mas, no feito, não tinha nenhuma ganância e nem se importava com acrescentes: o que vivia era querendo ajudar os outros. Capinava para si e para os vizinhos do seu fogo, no querer de repartir, dando de amor o que possuísse. E só pedia, pois, serviço para fazer, e pouca ou nenhuma conversa.’’

Fez-se com muito empenho, uma boa pessoa, devotada ao seu próximo e aos preceitos religiosos, bem quista por seus semelhantes e também respeitada não mais pelo medo, e sim por seu valoroso caráter.

Num evento que se segue, após mais de seis anos vivendo nesse estado, chega à região o bando de cangaceiros liderado por Joãozinho Bem-Bem que, fica hospedado por algum tempo na propriedade do protagonista. Nesse intermédio, Augusto observa a violência de seus convidados e acaba por ficar interessado neles; depois de trocar conversas e tiros ao alvo com o bando, o homem quase redimido foi chamado pelo líder do grupo para se unir a eles. Esteves sente-se tentado, entretanto recusa a oferta. Os hóspedes partem, mas deixam o seu benfeitor com uma nova sensação: sentia vontade de mudança, sabia que algo fora despertado nele naquele momento, percebeu que algo iria ocorrer.

Transcorrido um breve tempo, ele começa a perceber certos sinais, de que, na sua visão, indicavam que “sua hora e sua vez” estavam chegando. Tomando para si um jumento, assim como fez Jesus de Nazaré, ele deixou-se levar pelo encaminhamento natural que sua montada lhe daria. Augusto terminou por chegar ao Arraia do Rala-Coco, local onde também se encontrava o bando de cangaceiros supracitado.

Esteves vai, então, ao encontro de seus colegas, e, ao se encontrar com eles, presencia uma cena de grande violência do grupo para com uma família do Arraial. Um dos homens que estavam sendo prejudicados, em desespero, roga aos céus por ajuda: “Pelo sangue de Jesus Cristo e pelas lágrimas da Virgem Maria!…”.

Nesse instante, Augusto então percebe uma revelação de seu destino, era aquela a sua convocação divina- ser o representante das forças celestiais para defender os oprimidos. Foi escolhido para aquilo e logo contrapôs-se aos opressores cruéis. Ele entra em uma intensa briga com o bando, acabando por matar os cangaceiros, mas sai gravemente ferido do confronto.

Após o termino da disputa, Augusto escuta o povo local que dizia

 “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mór de salvar as famílias da gente!…”

O homem cuja família foi salva assim falou:

“Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!… Não deixem este santo morrer assim…’’

Depois de ouvir os comentários das pessoas,

“Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu rosto subia um sério contentamento.”

“Depois morreu’’

Por esse final do conto, nota-se o resultado alcançado da busca pela redenção, a “hora e a vez” de Augusto, agora tido como Matraga- uma metáfora para mudança- que passou de “valentão” a “santo”. Ele termina sua existência com “contentamento”, feliz por saber que conseguiu mudar a si mesmo, promovendo a defesa dos oprimidos, contrariando seu passado de opressor. Augusto Matraga, para além de ter sido influenciado por seu contexto, é também uma representação da capacidade humana de ressignificação existencial, reconfiguração de hábitos pelo empenho próprio e, sobretudo, expressa a possibilidade de se fazer uma reconstrução ética do eu para se buscar devidamente a felicidade por suas escolhas.

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