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A DILAPIDAÇÃO ÉTICA DE JOÃO ROMÃO

Por João Vitor Basso Fabricio (Shade) – TXIII

Caro leitor, não imitando o Bruxo do Cosme Velho ou mesmo ousando desafiar tua percepção, já pode notar que esse escrito é uma continuação de um projeto de análises de grandes personagens da Literatura Brasileira sob uma perspectiva ética (seria isso devido ao bacharelado em direito? Já engolido pelo universo acadêmico da ética?).

Bem, deixe para me colocar no divã após a leitura de mais essa leitura, só que, desta vez, focaremos no inverso da primeira. Na Radiografia Ética de Augusto Matraga acompanhamos um processo de ascese espiritual desse valentão que passa a ser “santo” por meio de uma ressignificação de sua existência, que se dá pela tomada consciente de ações éticas que buscam a verdadeira e refletida  eudaimonia tematizadapor Aristóteles em Ética a Nicômaco. Já nesta obra diante de teus olhos parcamente curiosos, vamos trabalhar a decadência: chegou a hora de se colocar João Romão no banco dos réus, sem qualquer um de seus contos de réis e artimanhas capitalistas para nos cegar o julgamento.

Tomando o referencial teórico do Existencialismo Sartreano e, novamente, do Mestre de Estagira (processo por repetição de pensador em dois textos subsequentes? justificável e cabível no mínimo), faremos, numa apropriação de termos de Umberto Eco em sua Interpretação e Superinterpretação, um piquenique: eu apresento uma crítica de uma história de degradação da personalidade de uma personagem, nos sentamos virtualmente para o colóquio, e você faz o que desejar com esse texto; de preferência, me dê uma crítica, mas não recusarei o elogio caso haja.

Nesta breve análise, será abordada, de forma crítica, a evolução comportamental do protagonista João Romão da obra O Cortiço, maior livro na representação do movimento naturalista brasileiro, escrita por Aluísio Azevedo. Para o desenvolvimento desse ensaio, serão apresentados o contexto socioeconômico, espacial e temporal no qual a personagem principal e as demais se inserem, dando relevo à influência do meio nelas e vice-versa. Ademais, serão consideradas as decisões morais tomadas por João Romão com foco nas relações que elas têm com a falsa autorrealização do ser e como, apesar de aparentarem benefícios, trazem sofrimento tanto para seu agente quanto para as pessoas a ele vinculadas. Em suma, esse homem, tendo começado sua trajetória como um migrante português despossuído que tenta ganhar riquezas nos trópicos, usa de todos os meios, sejam eles lícitos ou ilícitos, para alcançar sua fortuna, mesmo contra a moralidade e bem-estar de seu próximo ou de si mesmo, visto que ele se impunha severas restrições para chegar a essa finalidade. Apesar de ter conseguido o capital que almejava, o lusitano perde-se na sua avareza patológica, sempre estando com um desequilíbrio interno, buscando incansavelmente mais lucros, mesmo que isso não lhe trouxesse a satisfação plena; além de ser preciso ressaltar como essas ações dele impactaram negativamente nas pessoas em seu entorno. Esse será um ensaio que se propõe não à análise de uma personagem, mas de uma personalidade que expressa a dilapidação ética de um ser e como isso impacta nele mesmo e em seus semelhantes, sob a perspectiva ponderada das éticas aristotélica e existencialista.

O Cortiço é uma síntese entre a arte literária e a realidade social; nesta obra, busca-se, por meio de uma ótica naturalista, dar contorno a um romance de tese na qual as personagens são meios para a comprovação das ideias do autor. No caso, Aluísio Azevedo buscou representar os tipos sociais da sociedade carioca no final do Império do Brasil na segunda metade do século XIX, ainda aristocrática, escravagista e extremamente desigual; dando ênfase ao fator de como os cenários nos quais essas pessoas estão envolvidas determinam sua personalidade. Todavia, para além dessa visão limitada do determinismo, esse ensaio não vai tomar a contexto como definidor do ser, mas como influência que exerce efetivamente na formação pessoal, não se olvidando a autonomia decisória das personagens e sua responsabilização por suas consequências. Aqui, se faz mister o uso do existencialismo em Sartre para se contrapor ao caráter absoluto do determinismo expresso por Aluísio Azevedo e, outrossim, entender que o meio influencia o ser, entretanto, é o sujeito que será responsável pelas tomadas de decisões que significação sua essência. Assim sendo considerado, passa-se para a análise crítica da trajetória da protagonista e sua relação com o que se pode pensar como uma existência virtuosa, equilibrada e digna, com base na perspectiva do filósofo grego já mencionado.

João Romão, lusitano pobre, que migrou em busca de fazer riquezas no Brasil, começou sua jornada nesse país como caixeiro em um pequeno estabelecimento comercial. Com a ida de seu patrão para a Europa, o português recebe, como pagamento de salários atrasados, a propriedade da vendinha em que trabalhava. Doravante, ele entende que chegara a hora de fazer seu acúmulo como já tendo mais do que o necessário para subsistir; decide por unir-se com Bertoleza, escrava de ganho que vendia alimentos para seu senhor, que morava fora da Corte. Romão aproveitou abusivamente dela para satisfazer seus desejos físicos e, concomitantemente, a enganou para tomar o dinheiro que guardava consigo. Além disso, chegou a pô-la para trabalhar para seus ganhos pessoais descaradamente. E esses “trabalhos” nem sempre eram lícitos; ocorrendo de ambos, em conjunto, furtarem construções e afins à noite para levarem para o terreno do mercadinho, onde o então capitalista iniciante queria construir um cortiço para obter a renda dos futuros aluguéis que poderia ter. Outro recurso muito inescrupuloso foi utilizado por esse indivíduo- ele finge para a escrava que havia de pegar todas as economias dela com a intenção de lhe comprar a alforria, mas ele apenas faz um documento falso para engana-la, tomando para si esses recursos. Nesse momento, já fica evidente que esse homem inicia sua corrida desequilibrada por enriquecer, não se importando com os meios empregados para tal e os prejuízos que eles causam a seu próximo.

O Cortiço logo cresce e atrai muitos inquilinos, o protagonista agora já obtém uma renda considerável, investindo tanto nos imóveis, quanto em outros negócios. Embora tenha ganhado considerável capital, vive na máxima simplicidade, vestindo-se desleixadamente, comendo restos de comida dos que iam almoçar em seu estabelecimento, não gastando com qualquer de suas necessidades. Para essa personagem, o dinheiro tornou-se o fim máximo de sua existência, não mais sendo um instrumento para auxiliar na busca de sua realização como ser feliz. João deixou-se perder no vicio do acúmulo, afastou-se da ponderação, do equilíbrio e da temperança; foi escravizado pela irracionalidade e prendeu-se numa cadeia, num ciclo de insatisfação gerado pelo descontrole do desejo. Nisso, nota-se quão distanciou-se o português de uma busca sóbria pela eudaimonia, apresentada como um processo de constante busca pela felicidade de forma saudável, em que o ser se realiza em sua plenitude racional com equilíbrio, e não sendo autodestrutivo consigo e com seus semelhantes.

Avançando-se no romance, nota-se que o lusitano desenvolve uma inveja pela vida opulenta de seu vizinho, Miranda, que, conquanto não possuísse a riqueza de Romão, detinha influencia e até um título nobiliárquico de baronato. Ele encontra-se logo a, em toda sua destemperança, corroer-se por esse sentimento, mas acaba por ver no casamento com a filha do Barão uma possibilidade de obter esse prestígio social; e, em troca, seu vizinho teria acesso aos benefícios do capital do dono do Cortiço. Entretanto, havia um obstáculo ao matrimônio arranjado por interesses convergentes dos “homens capitalistas”:  Bertoleza.

Ela era ainda a mulher com quem vivia o português; todavia, ele só a usava enquanto via utilidade nela. Por causa do casamento, Romão passa a querer descarta-la, ignorando os sentimentos e a vulnerabilidade social e econômica dela, que tanto o ajudara e estava sendo retribuída com ingratidão e aversão. Com esse intento, ele usa de sua antiga mentira- a falsa alforria- para denunciar ao proprietário de Bertoleza que ele ainda tinha a possibilidade de cobrar sua cativa para si. De fato, é isso que ocorre, o senhor vai busca-la junto a agentes policiais; quando ela percebe que fora enganada, suicida-se e deixa, por fim, o caminho livre para a fria e insensível ascensão socioeconômica do capitalista.

João Romão é um indivíduo em processo de degradação ética, levado pelo descontrole do acúmulo, ele perde sua sensibilidade e humanidade; percebe as pessoas como meios, e não fins em sim mesmos, além de ferir princípios morais que garantem certa paz individual e bem-estar coletivo. Ele inseriu-se num vicio extremo sustentado pela avareza e ganância, distanciando-se da ponderação e da medida justa de se agir para o ser que busca proficuamente sua felicidade e não intenciona causar dor alheia com isso. Na verdade, o lusitano ignora qualquer reflexão, vivendo automaticamente associado à vã procura pelo máximo enriquecimento possível. No caso da alforria de Bertoleza, por exemplo, fica evidente como Romão estava disposto a tudo para concretizar seus planos mesquinhos e egoístas, mesmo que feitos sobre a dor alheia.

O protagonista não é um produto de suas condições, mas sim uma expressão de um ser que se dilapida por meio de suas ações tomadas autonomamente, no entanto sem a devida reflexão. Ele dinamita seu equilíbrio e sua satisfação, ficando cativo de sua irracionalidade, não contando com o cultivo de boas relações interpessoais, legando-se à persistência de sua incompletude e que, por conseguinte, põem em xeque sua potencialidade de vir a ser uma pessoa realmente feliz.

Valeu a pena?

 Foi feliz?

Essa história me faz lembrar de uma fala do Werther de Goethe:

“Desgraçados aqueles que se servem do poder que têm sobre um coração para lhe roubar as inocentes alegrias que brotam dele espontaneamente! Não há presente nem atenção no mundo que bastem para compensar um momento de prazer em si mesmo, envenenado pelo despeito invejoso de um tirano!”

João Romão é o Anti-Werther.

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