Política internacional · Política Nacional e Internacional

O mundo em espera

Por Lucca Vinha (Jejum) – TX

O mundo espera. Após mais de três dias de apuração, e uma evidente vitória de Biden nas urnas, o planeta espera ansiosamente pelo resultado oficial e, ainda mais ansiosamente, pela postura de Trump.

Que Biden venceu o jogo democrático é algo mais que certo. Porém, todos sabem que essa eleição ainda está longe de acabar, com Trump deixando cada vez mais claro que esse pleito será decidido nos tribunais. Adivinha quem acabou de fazer mais uma indicação para a Corte mais importante do país.

E qual a postura do resto do mundo? De respeito perante as instituições estadunidenses e, portanto, de espera.

Agora, voltemos um ano no tempo para as eleições bolivianas. A participação de Evo foi autorizada pela Corte Constitucional Boliviana. A votação e apuração foi organizada pelo órgão eleitoral do país. Os votos foram contados em tempo normal e confirmaram o que as pesquisas já falavam, vitória de Evo. Vitória do MAS.

Qual foi a postura do resto do mundo (na verdade dos países ocidentais)? Apoiar um relatório feito às pressas e absolutamente infundado feito pela OEA. A postura foi de pressa e desrespeito perante as instituições do país. A postura foi garantir e legitimar um violento golpe de estado.

Falei da Bolívia, mas poderia falar da Venezuela, de Honduras, de todos os países da Primavera Árabe, do Zaire. Basicamente, todo país pobre e periférico em algum momento já teve que ver os EUA e/ou a Europa intervindo em suas instituições.

O discurso é sempre lindo: defender os direitos humanos da população, levar democracia ao país, auxiliar na pacificação do território, fortalecer o governo legítimo… Sendo que na verdade nada mais é que a versão atualizada da lógica colonial: levar civilização. Nossa intervenção é legitima porque nós, por sermos mais ricos e poderosos, sabemos o que é melhor pra vocês (coincidentemente o que é melhor para os países invadidos sempre envolve um ganho de capital tremendo para o país invasor).

E esse discurso se legitima através do discurso da corrupção. Como um país pobre pode ter instituições honestas? Quando Evo é autorizado a concorrer, a corte constitucional é corrupta. Quando o PSUV vence as eleições, a central eleitoral fraudou os votos. Mas quando Trump exige a anulação de milhares de votos, se o Judiciário conceder, nada mais é que uma decisão legitima de um órgão legitimo. Mesmo Trump tendo indicado os últimos dois nomes, a última poucos dias antes da eleição, e com evidente maioria ideológica.

Onde quero chegar com tudo isso? Na defesa de uma intervenção global nos EUA? Obviamente que não. O que defendo é que o tratamento dado aos EUA e suas instituições, de espera e respeito, seja dado a todos os países do globo.

Existem instituições corruptas? Claro que existem. Existem eleições fraudadas? Sem a menor dúvida. Isso justifica intervenção externa? Jamais.
Nenhum país e povo deve ter suas instituições questionadas por agentes externos. Deixemos que cada país resolva seus próprios problemas. Deixemos que cada povo se organize da maneira que julgar melhor. Os princípios da autodeterminação dos povos e da não intervenção deveriam ser os mais altos na ordem internacional, com a história do mundo estando aí pra provar que só quem ganha com intervenção é o país interventor. Negar isso seria apenas legitimar o caráter neocolonial dos países centrais.
Parabéns para Biden por vencer nas urnas. Se for confirmado como presidente, trate o mundo como os EUA foram tratados essa semana.

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