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OCIOSFORK: Vanusa (1973), de Vanusa

Por Thadeu Vilas, TXII

No dia 8/11, foi anunciada a morte da cantora Vanusa Santos Flores, popularmente conhecida como Vanusa.  Ao longo dos últimos anos, sua carreira foi marcada por diversas polêmicas, e estas, por muitas vezes, acabaram distraindo o público de sua arte. Vanusa, no entanto, tem uma das discografias mais interessantes da música brasileira.

Além de uma cantora com ótimos vocais, Vanusa era uma artista que além de interpretar, ajudou a escrever e produzir diversas de suas músicas (entre tantas: Manhãs de setembro, Neste mesmo lugar, Estou fazendo hora, Quero você e Mercado modelo), mostrando um talento artístico imenso, como pode ser observado em um de seus melhores trabalhos – e meu favorito -: Vanusa (1973), seu quarto álbum de estúdio.

 Tal trabalho flerta com diversos gêneros musicais e ritmos, como a circense Você Não Morreu – atmosfera decorrente do acordeão triste -, a infantil O mago de pornóis, o samba de Quebra Cabeça e o rock da What To Do – que inclusive se assemelha muito à música Sabbath Bloody Sabbath, de Black Sabbath, ambas lançadas no mesmo ano, porém com a música de Vanusa sendo entregue ao público entre 4 e 5 meses antes da gravação da banda britânica, teria a artista brasileira sido plagiada? -, Vanusa entregou um álbum completo e que não dá tempo para o ouvinte se sentir entediado ou confortável demais.

Quanto ao conteúdo lírico, a mesma diversidade de ritmos se repete quanto as letras das músicas. O teor romântico permeia todas as faixas, mas sempre mostrando um lado diferente do amor – ou então da falta dele -. A nostálgica Neste mesmo lugar, que conta sobre as memórias de um amor fracassado ainda não superado, a cheia de gratidão a um ex Coisas pequenas ou então a declaração de amor Quero Você.

Mas há momentos em que o romantismo se afasta um pouco e críticas ao regime militar surgem. Exemplo clássico disso é um de seus maiores sucessos (e faixa de abertura): Manhãs de setembro, música composta em parceria com Mário Campanha e produzida pela própria Vanusa, na qual certos paralelos são estabelecidos com a música Pra Não Dizer que Não Falei das Flores. Porém, a temática não se restringe a ela. Talvez, inclusive, uma das faixas mais interessantes sobre isso é Retrato na Parede, composta por Ze Rodrix, um dos nomes mais conhecidos do “rock rural” e opositor da ditadura, como pode ser visto nos versos: Já não crescem mais roseiras na cidade / Como antigamente / Metade do povo tem medo da verdade / E a outra metade tem medo da mentira / Feitas as contas / Nessa cidade / Todo mundo tem medo / E não sabe de que.

Vanusa (1973) é um álbum complexo, mas extremamente palatável. Romântico, por vezes alegre, por outras triste, mas sem estar alienado ao seu tempo, Vanusa entregou um dos melhores – possivelmente O melhor – trabalhos da Jovem Guarda.

Obviamente sua carreira não se resume a tal disco, sendo os demais, também, repletos de pérolas. Dessa forma, Vanusa deixou sua marca na música brasileira, sendo seu talento a memória que deve ser lembrada com mais carinho e orgulho.

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