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O FARDO DO QUESTIONAR

João Vítor Basso (Shade) – TXIII

O ser e o estar em vida são tarefas, de fato, inerentes a  todos indivíduos, aos quais incumbe-se o desafio de significarem suas existências como entes isolados, coletivos e inseridos em um contexto tanto imanente  quanto, possivelmente, transcendente. Aos homens e  mulheres cabem as justificativas de si, do outro e do  todo, para a coordenação do seu existir por meio de  suas ações e pensamentos que, em conformidade com  a teleologia de Aristóteles, tem, em suma, por  finalidade última a obtenção de felicidade e,  conseguintemente, um afastamento do sofrer.

Para a compreensão do real, surgem distintas  abordagens acerca do método a ser instrumentalizado  para significa-lo. Como bem afirmado na distinta  fenomenologia de Edmund Husserl, as pessoas tendem  criar um “Umwelt”, entendido como forma de  “representação de mundo”, isto é, uma compreensão  subjetiva da integralidade do real. Em consequência, intersubjetivamente, o encontro dos mundos pode criar toda uma “atitude” de pensar e entender a  existência segundo certos princípios e conceitos  culturalmente cristalizados em um meio social.

Entretanto, o contraste tanto entre os ‘’mundos’’  subjetivos como os intersubjetivos pode ser  conflituoso e mesmo violento, gerando uma questão  de ‘’polemos’’,sendo assim um embate entre  perspectivas significantes. Em lato sensu, cria-se uma disputa entre indivíduos e também entre grupos  não só pelo controle da  forma de se enxergar o real predominante, mas  também pela afirmação da identidade e das crenças  pessoais e culturais que são reflexos da significação do todo.

A Filosofia, um dos pilares do Ocidente, surge na Grécia  como uma “nova atitude” em contraposição ao  simplismo narrativo mítico-poético. Os filósofos, pelo  questionamento crítico incessante e irrestrito passam a  ser antíteses aos padrões e convenções superficiais de  explicação do todo usados pelos gregos antigos.

Desde os primórdios, a Filosofia tem incomodado o status quo do conformismo ao colocá-lo em dúvida e dilapidação. Isso fez com que os filósofos fossem  vistos como seres diferentes, alheios ao mundo  prático, perturbadores da tranquilidade geral e  inimigos da ordem, entendida em termos de Bauman, como uma decorrência da “previsibilidade” da organização comunitária.

Assim, os não adeptos da “nova atitude” desenvolveram mecanismos de descredibilização e de desincentivo às ideias e ações dos filósofos por meio da instrumentalização de, dentre outras coisas, risadas e escárnio. Essas são armas usadas para inferiorizar os  adversários filosóficos, ridicularizá-los como sendo  excrescência delirante dotada de pensamentos malucos  e irreais. Todavia, os questionadores também, em  resposta, apropriaram-se dessa tática de combate para  duvidarem dos comportamentos e ideais de seus  oponentes. No entanto, geralmente, os filósofos e  cientistas sofrem com insultos muito mais graves e  intensos do que os por eles empregados. Além de  muitos deles serem combatidos pelas instituições  sociais tradicionais já vigentes.

Vale ressaltar o caráter de “fardo” desse fenômeno ,pois essa perseguição aos filósofos mantém-se  historicamente desde o surgimento da Filosofia. Seja  pelo deboche da escrava trácia à desatenção de Tales ou pela condenação à morte de Sócrates; o pensador é  sempre alguém a ser socialmente combatido. Ademais, esse padrão de hostilidade perdura no Ocidente até a  contemporaneidade e pode ser percebido pelas representações ridículas e caricatas de filósofos e  cientistas em filmes e séries ou até no ato das pessoas  desvalorizarem a função laboral e prática do pensador  crítico em meio ao capitalismo neoliberal.

Em suma, nesse “polemos” (disputa pela entendimento do real)  constante do Ocidente, criou-se um embate entre a forma de representação  do mundo segundo as convenções da tradicionalidade  simplista e a da Filosofia. A construção dos significados  das coisas e dos seres é disputada por ambas as partes  . Nesse confronto ,o riso e o escárnio são instrumentos  usualmente utilizados pelos não filósofos para  desmoralizar a filosofia como atitude significadora e,  assim, além de inferiorizar a perspectiva contrária, eles promovem sua identidade e “verdade”  construída.

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