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“Bom dia, Verônica” e o que realmente importa quando tratamos de violência contra a mulher

Por Kaká Palácio (União de Mulheres de São Paulo)

No dia primeiro de outubro, estreou na Netflix a produção brasileira “Bom dia, Verônica”, baseada no livro homônimo de Ilana Casoy e Rafael Montes. O thriller policial tem no elenco Tainá Muller, Eduardo Moscóvis e Camila Morgado, o que garante atuações impecáveis. A série, sucesso de público e já com especulações sobre nova temporada, caiu no gosto da crítica, que não se cansa de tecer elogios pela abordagem do tema da violência contra a mulher.

Poderia dizer violência doméstica, mas aqui propositalmente prefiro me referir a violência contra a mulher, pois a série se passa numa Delegacia de Homicídios na cidade de São Paulo e aborda além da violência doméstica, a pornografia de vingança, o boa noite cinderela e outras violências contra a mulher que ultrapassam as fronteiras das relações familiares.

Importante conhecermos os autores e roteiristas da série para que possamos entender a ótica da narrativa e as consequências que o enfoque escolhido pode trazer para a compreensão do tema violência contra a mulher.

Rafael Montes é um jovem e bem sucedido roteirista e escritor de livros de suspense e policial. Ilana Casoy é criminóloga, especialista em assassinos em série, e escritora de sucesso de livros sobre crimes reais. Segundo os autores, em entrevista ao podcast “Modus Operandi”, a parceria tinha como objetivo escrever um livro no estilo dos “blockbusters” “Colecionador de Ossos” e “Silêncio dos Inocentes”, com uma protagonista mulher, e que não fosse uma heroína perfeita, mas uma personagem profunda, com várias camadas.

Fantástica escolha, até que o suspense policial envereda pelo complexo tema da violência doméstica e contra a mulher. Aqui a série segue um caminho extremamente perigoso, focado no aspecto policialesco e punitivista, em detrimento da proteção a vida das mulheres vítimas de violência.

Perigoso por quê? A série tem uma verossimilhança incrível. Aliás, seu grande mérito está em retratar de maneira bastante realista o ciclo da violência doméstica e como é difícil rompê-lo: a violência psicológica, a vulnerabilidade da esposa que ama o marido violento e se culpa por ser agredida, a violência patrimonial (a personagem não tem acesso a dinheiro, não trabalha, não tem celular), a fase da “lua de mel” pós-agressão.  Os agressores são retratados como pessoas reais, o cara que você conhece no aplicativo de encontros, o marido que tem um lado carinhoso e terno, apesar de ser um agressor violento e serial killer.

E aí começa a minha preocupação. “Bom dia, Verônica” não é Jessica Jones. Não é uma super heroína da Marvel ou DC, que você separa facilmente da realidade. E não sou contra a violência na ficção. Adoro “Bastardos Inglórios” e acho maravilhoso o gozo que nos proporciona ao ver Hitler sendo metralhado na cara, e um psicanalista poderia falar melhor sobre o papel terapêutico que a dramaturgia tem ao dar vasão aos nossos impulsos mais perversos, inclusive para prevenir a violência real.

Mas essa separação entre ficção e realidade não acontece de maneira tão simples com a protagonista Verônica. Ela é uma mulher normal, uma escrivã de polícia como tantas que existem. E aqui peço licença para falar como a dramaturgia influencia a sociedade brasileira, como as novelas, em especial, influenciaram e influenciam o público, trazendo à tona as mais diversas discussões e formando opiniões.

Será que uma vítima de violência doméstica, que vê sua vida retratada na obra ficcional, vai entender que existem formas de romper esse ciclo? Vai entender que existem serviços públicos e uma rede de atendimento e enfrentamento a violência contra a mulher para assistí-la a de fato sair da situação de risco? A série disponibiliza ao final de cada episódio uma página “wannatalkaboutit.com”, que leva a um site da Netflix, que elenca uma rede de serviços, de acordo com a temática abordada em algumas séries. Mas isso seria o suficiente? Explico-me adentrando no enredo a série.

Verônica tem bom coração e realmente quer ajudar as mulheres, mas fracassa terrivelmente. Em Romeu e Julieta, William Shakespeare coloca na boca de Mercutio um antigo aforismo de origem desconhecida extremamente verdadeiro: “As melhores intenções pavimentam o caminho para o Inferno”.

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Foto: Reprodução.

Verônica, assim como seus criadores, tem coração de polícia. Está focada em prender e punir criminosos. E por mais que tenha empatia pelas vítimas, nada sabe sobre como ajudar uma mulher vítima de violência. Verônica força barra na sua atuação com as mulheres. Em nenhum momento as encaminha para um atendimento psicológico (que ela claramente também precisa). Não sabe como dar suporte emocional e nem está preparada pra isso. Ela quer salvá-las (acredito nisso), mas não percebe o quanto suas atitudes as vulnerabilizam e põem em risco de vida. Sim, Verônica põem as vítimas em risco, por mais que essa não seja a sua intenção. E esse é uma dos problemas que poderiam ter sido explorados na série: o despreparo de profissionais que querem ajudar mulheres vítimas de violência. Não basta bom coração, qualificação é essencial.

Nos serviços qualificados de atendimento a mulher vítima de violência, um dos princípios é a “escuta radical”. Por “escuta radical” se entende um diálogo em que se respeite a vontade da mulher e suas demandas. Ela está no centro das políticas públicas, e não cabe a ninguém dizer o que ela deve ou não fazer. A escolha é sempre da mulher. Os diversos serviços da rede de atendimento e enfrentamento a mulher vítima de violência devem ouvir a vítima-protagonista e oferecer opções como atendimento psicossocial (essencial para o rompimento do doloroso e complexo ciclo de violência e abuso), aconselhamento jurídico, abrigamento sigiloso nos casos mais graves, aluguel social, profissionalização. O foco é sempre a mulher e suas escolhas. Quer ajudar uma vítima de violência? Encaminhe-a a Rede de Serviços especializados da sua cidade. Conheça a Rede, se envolva, tenha um olhar crítico.

A série até retrata Verônica sendo levada por um amigo a conversar com uma “profissional’ que trabalha numa Delegacia da Mulher (DDM). O diálogo, que não dura dois minutos, é preocupante:

“(Verônica): Quais são as opções da Janete?

(profissional da DDM): Uma ordem de restrição, abrigo da Polícia, ou um serviço de proteção.

(amigo da Verônica): Você confia nessas alternativas? Você acha que ela vai ficar segura?

(profissional da DDM): Quem é esse agressor? Não precisa me dar nome, é claro.

(Verônica): É um tenente coronel da PM. (profissional da DDM): Qualquer caso fica mais grave quando o marido ocupa uma posição de poder. Ainda mais sendo tenente coronel. Ela denuncia, o cara fica preso por pouco tempo. Ele sai… Meu, ordem de restrição? Isso aqui é Brasil, Verônica.”

Este diálogo é um desserviço para uma mulher que sofre violência. Porque a série é tão crível que ela vai acreditar sim que não tem opção. E isso pode impedí-la de buscar alternativas e acabar morta. E não, a solução não é a prisão do agressor. Na imensa maioria das vezes.

A mulher precisa ter apoio psicossocial e jurídico para romper o ciclo da violência. Por ser ativista dos Direitos Humanos das Mulheres e conhecer a Rede de Atendimento e enfrentamento a violência contra a mulher, me causa enorme incômodo quando ouço em debates eleitorais candidatos e candidatas que, quando indagados sobre o tema, se limitam a falar sobre por polícia na rua.

Ouvir um diálogo como esse numa série que pretende discutir o tema, senão ser relevante a respeito, me faz pensar que no mínimo os roteiristas não fizeram a lição de casa.

Para além do diálogo, a obra traz uma rede de corrupção infiltrada em todas as esferas de poder, o que culmina na personagem título se tornando uma justiceira. A descrença niilista nas instituições públicas e no dever do Estado.

Mas aí pode-se argumentar: é uma história policial, não é? Claro, mas que pretende trazer à tona o debate sobre violência contra a mulher e se restringe a dizer que não há outra solução a não ser a vingança privada.

E é exatamente o que o atual governo quer e faz. Fecha serviços de atendimento a mulher, dos de saúde até os abrigos sigilosos e os de saúde mental. Os que se mantém atuantes sobrevivem à míngua do orçamento público. E talvez só se mantenham abertos pela persistência dos movimentos sociais de mulheres.

“Bom dia, Verônica” apostou na ficção clichê de poderes ocultos e corruptos e perdeu a oportunidade de fortalecer a Rede de Proteção a Mulher, explorando os problemas reais que o sistema enfrenta. A falta de verba, o conservadorismo e retrocesso de direitos, o punitivismo populista e policialesco e a inviabilização da mulher, que é o centro da política pública. “Bom dia, Verônica” erra feio e faz coro com o momento político em que vivemos: o desmonte generalizado da rede de serviços especializados, um ministério que junta no mesmo balaio Direitos Humanos, Mulher e Família – capitaneado por uma mulher, que além de não conhecer tecnicamente nenhum dos três temas, é antifeminista, conservadora e fanática religiosa  – e um presidente misógino, que chegou a sugerir que liberando o porte de armas de fogo as mulheres poderiam se defender do feminicídio. E Verônica comprou essa ideia.

Kaká Palacio foi advogada, é servidora do TJ/SP, ativista dos Direitos humanos das Mulheres e Promotora Legal Popular pela União de Mulheres de São Paulo.

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