Texto da semana

O que fica é o quê_

Por Tiago Augustini- TX da FDRP

Sinto como todos os viventes deste país a absurda indignação de ter que ficar em casa por mais tempo que o combinado. E houve combinado? Bom, para responder isso preciso criar uma lista para indignações escalonadas a serem proferidas (escalonadas porque é com mais facilidade que indignemo-nos com quem está mais distante): i) quem confeccionou as cláusulas; ii) a quem fora atribuída a responsabilidade para sua aplicação; iii) quem iria observar a correta aplicação  e; iv) a quem cabe o direito/dever de obedecer. 

É fato que jamais farei tal coisa e me parece que o motivo dessa decisão acomete, também, ao menos a alguns desses que me leem: não consigo me concentrar para fazer as mínimas tarefas! É terrível! É por isso que está sendo uma luta escrever os mais simples textos e frases que necessitam de reflexão ou interpretação maiores. Sigamos com o que temos e já peço desculpas aos que me leem.

Esse isolamento me fez pensar o tanto que amigos nos fazem falta, o quanto a presença desses seres nos faz diferentes em espírito, sentimento e produtividade. A amizade virtual é para ser exaltada, mas conversar por uma tela realmente não é coisa que se deseja ao pior dos inimigos, menos para os bolsonaros e sua caterva. 

Foi nessa pandemia que comecei a refletir mais sobre isso, amo ter meus amigos, mas o que é essa coisa da amizade então? É estranho definir tal sentimento mesmo sabendo que tantos escritores, filósofos já tenham o definido tão bem e mesmo assim parece que não cabe ao papel sua (nossa) definição, é coisa da individualidade de cada um? Só Deus pai sabe. Mas não que ler os filósofos e escritores não nos ajudaria a percebermos nossa humanidade, pelo contrário, já está muito claro, como a burrice do presidente, que isso atiça nosso espírito e nos faz mais empáticos e essa empatia não é se colocar no lugar do outro, mas é aquela atitude atitude, aquela ação de fazer sentir – para isso aconselho Cris Dunker, Uma Biografia da Depressão.

Tenho amigos que se enquadram nos mais variados espectros da amizade. Aqueles apenas conhecidos, os que fizeram parte dos mais variados níveis escolares, os íntimos e os que são os melhores – lógico que há mesclas variadas, nada é feito em compartimentos quando se trata de sentimento humano. O ponto interessante é aquele reservado aos melhores amigos, pois qual a diferença desse sentimento para o amor romântico? Isso é importante porque há amores que culminam em amizade. É por isso que os estoicos definem o amor assim: “o amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza.” 

A amizade não é o amor romântico e muito menos o amor erótico – amamos o desejo de alguém, isso leva a crer que amor é aquilo que não se tem. Amizade é aquilo que se tem, meus caros e quanto isso me filio a Montaigne. Esse francês do séc. XVI soube diferenciar o que são ligações interconectadas apenas pelo interesse e oportunidade. Não que sejam menos importantes, mas não é esse o sentimento puro da amizade.

O ponto para a amizade real (e pura), portanto, é aquele em que todos os sofrimentos, desejos, anseios, alegrias do espírito se confundem em um só. Normalmente isso é fácil de se perceber: é quando a distância, o silêncio e o tempo não mudam alteram o sentimento; é aquele momento de poucos minutos ou poucas horas de um café ou conversa num dia qualquer nos faz bem; é aquele meme ou vídeo bem compartilhado, mas isso é feito e sentido em todos os aspectos da alma: há de se compartilhar tudo o que se deseja, pois coisas ou assuntos específicos somente com determinadas pessoas não é a definição de amizade pura, é apenas amizade ou confiança.

É por isso que sinto muita falta dos meus amigos, porque há separação de nossas almas, há esse abismo de sentimento faltante de nutrição, há a falta da comunicação verdadeira, daquele abraço ou sorriso sem motivo visível, mas que somente a amizade o definiria como sua maior demonstração. Não há como terminar esse texto sem citar uma parte de Montaigne, assim ele fala sobre Étienne de la Boétie:

Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que o não saberia expressar senão respondendo: porque era ele; porque era eu. E mais do que poderia dizer, de uma maneira geral e no caso em apreço intervém em ligações dessa natureza uma força inexplicável e fatal que eu não saberia definir.”

Como é comum de tais recomendações a melhores amigos, deixo aqui, então, a parte de meu testamento que cabe a eles: aos meus amigos, desejo que em meu epitáfio contenha tais linhas: “Aqui jaz Tiago Augustini, assassinado por imbecis de ambos os sexos e está aqui contra sua vontade”. 

Isso vai terminar, meus caros e caras, e quando terminar teremos muitas saudades a matar, muita conversa e abraços, enquanto não termina teremos os devidos cuidados com a covid, usemos álcool, máscaras, permaneçam em casa e digam que o presidente é genocida porque ele e sua grei não gostam.

Ps. Queria deixar claro que esse texto parte de uma perspectiva pessoal e entendo perfeitamente a situação daqueles que são obrigados a sair para colocar comida na mesa em plena pandemia – jamais será uma comparação ou minimização da dor. #foragenocida.

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