Frames de Ofício

O que a série POSE tem a dizer sobre família e acolhimento?

Filipi Lopes Araujo (66 da ENF)

Pose é uma série norte-americana produzida por Ryan Murphy, Janet Mock, Brad Falchuck, Our Lady J, Steven Canals e Todd Kubrak, que retrata a vida de pessoas da comunidade LGBTQIA+ no final da década de 80. A série é memorável por diversos motivos: tem o maior elenco trans da história; mostra com fidelidade a vida dessa minoria naquela época nos EUA; é um símbolo de resistência da comunidade; promove o conhecimento da dura realidade de profissionais do sexo, especialmente na época do “boom” da AIDS etc.
Contudo, ao meu ver, para além dessas informações, Pose retrata uma das maiores verdades do coração humano: a necessidade pulsante de acolhimento e aceitação que todos temos. Isso é visto constantemente como pano de fundo na série, permeando diversas cenas e interações entre personagens. Essa observação já pode ser feita nos primeiros episódios da série, quando a protagonista transsexual Blanca (MJ Rodriguez) realiza seu sonho de montar uma casa para acolher outros indivíduos em vulnerabilidade social e constituir uma família.
A princípio, sua casa é composta por Angel (Indya Moore), uma profissional do sexo trans, Lil Papi (Angel Bismark Curiel), um vendedor de drogas “anônimo” e Damon (Ryan Jamaal Swain), um jovem dançarino negro e homossexual, expulso da casa dos pais. A residência é apelidada de “Casa Evangelista” (em homenagem à modelo Linda Evangelista), e se torna o lar dos jovens periféricos. As relações interpessoais são repletas de verdadeiro amor, especialmente no trato de Blanca com seus novos filhos (como são chamados os abrigados por ela).
A grande mãe nos ensina a acolher e aceitar aqueles que precisam de nós de uma maneira genuína, incentivando seus sonhos, acreditando em seus potenciais, protegendo-os das ameaças externas, promovendo o autocuidado, encorajando a persistência em meio às adversidades e, claro, impondo regras (o que é um grande gesto de amor, visto que demonstra preocupação pelo bem estar dos que estão ao nosso redor).
Logo no princípio, quando Damon quase desiste de uma audição para entrar na escola de dança, Blanca o admoesta e “faz acontecer”, para que mesmo com o atraso, seu filho tenha a oportunidade de mostrar o seu potencial. Na segunda temporada, Angel recebe uma oportunidade de se tornar modelo profissional, graças à Blanca, que a tira de sua antiga condição de trabalho e a leva para a seleção de novos perfis da indústria da beleza.
Muitas outras cenas do cuidado e amor memoráveis da mãe Evangelista são vistos. Inclusive, muitas vezes ela é criticada como uma otimista tola, visto que compra a briga de seus filhos e acredita neles, ainda que estejam no “fundo de poço” (desilusões amorosas, ameaças de exposição, humilhação etc). O coração de Blanca é evidenciado como um “coração de mãe” até mesmo quando aqueles que a humilham são tratados com amor e misericórdia.
Isso é visto quando a personagem Elektra Abundance, interpretada por Dominique Jackson (uma mulher egocêntrica e prepotente), que ora havia maltratado e desacreditado de Blanca, encontra-se sozinha no quarto do hospital após sua cirurgia de redesignação sexual, mesmo tendo filhos e admiradores, mas que é visitada e encorajada pela mãe Evangelista a adotar uma postura mais compassiva e altruísta perante seus filhos.
Na série, essas são cenas memoráveis, mas uma análise da personalidade de Blanca e de suas relações com os outros ao seu redor nos mostra que, apesar das rivalidades que tenhamos com os outros (o que nos faz enxergá-los como seres não humanos, mas oponentes desprovidos de história e alma), o acolhimento é a melhor resposta, e que todos, independente da idade ou status social, desejam (e precisam) ser aceitos. E quando se mostra aceitação, esta não é vista somente quando os outros personagens demonstram virtudes, mas também quando demonstram fraqueza, maldade, superioridade, desconsideração e outros defeitos de caráter que estão em muitos de nós, mas que não mostramos com facilidade.
Blanca nos ensina que o amor é necessidade de todos, e que a falta dele torna a existência vazia. E o amor, na série, é primordialmente encontrado na expressão de família. Esse grupo social é evidenciado como aquele que proporciona aceitação total, perdão, consolo, correção, apoio e intimidade.
É no lar que Blanca prepara as refeições e conta as boas novas da vida de cada um, mas também é lá que ela tem conversas sobre sexo seguro com seus filhos, e é lá que ela os exorta para não venderem ou consumirem drogas. Inclusive, o jantar à mesa (tradição em muitas famílias) é retratado diversas vezes, mostrando como esse momento pode proporcionar integração e intimidade entre os de casa.
Para aprofundarmos mais o raciocínio, a série enfatiza que família não é aqueles com os quais possuímos consanguinidade (esses são parentes), mas sim aqueles com os quais dividimos nossas delícias e mazelas; aqueles com quem podemos contar nos momentos difíceis e comemorar as pequenas e grandes conquistas.
É nesse contexto que inferimos um certo convite: e se começarmos a ser vulneráveis expondo nosso lado ruim, tirando as máscaras, guardando os crachás e títulos, permitindo que o outro nos acesse e, num gesto de amor, acessar aos outros com consideração e respeito (ainda que não entendamos seu sofrimento)? Esse é o caminho para a construção de intimidade e relações saudáveis que vão além do superficial, descendo aos porões do coração. Não é um caminho fácil, mas segundo Brené Brown, assistente social e pesquisadora em vergonha e vulnerabilidade, não há outra maneira de construir confiança, que não compartilhando informações do coração (até e especialmente as mais desconfortáveis).
Além disso, a série gera uma excelente esperança para aqueles que, por qualquer motivo, não viverão a família nuclear: é possível ser feliz e experimentar verdadeira conexão, mesmo não estando em um contexto romântico ou afetivo-sexual. E, na minha opinião, esse é o grande “tapa na cara da sociedade” que a série implicitamente dá, visto que a ideia de felicidade e, especialmente, intimidade, está fortemente atrelada, no imaginário social, a relações amorosas (em seu sentido romântico-sexual).
Por fim, além de indicar a série para ser maratonada pelo(a) leitor(a), quero enfatizar e encorajar a todes que olhem para si nesses dias e reflita sobre a necessidade de amor, intimidade e aceitação que existe em nós, e que grita de diversas formas, através de emoções, comportamentos e pensamentos (e você pode identificar como isso acontece no seu mundo interno). Somado a isso, podemos pensar em como acolher, ou como aprofundar-nos nas nossas relações, tendo em mente que é possível experimentar conexão, mesmo sendo solteiro.
Convido você a remar contra a maré comigo. É uma jornada desafiadora, mas que com toda certeza vale a pena.

“Sangue não cria família, cria parentes. Família são aqueles com quem compartilhamos bons e maus momentos, e ainda assim os
amamos no final. São esses que devemos escolher”. Hector Xtravaganza (1965-2018)


Vale o comentário: é, sim, possível ser família com nossos parentes, mas se por algum motivo você não tem essa oportunidade, saiba que tem como viver isso com outros que compartilham do verdadeiro amor contigo.

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