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Se eu fechar os olhos agora e o Brasil que persiste

Victor Aragão – TXIII da FDRP

Sempre me fascinou como a famosa frase de Tom Jobim “O Brasil não é para principiantes” sintetiza de maneira simples a complexidade que envolve as relações no Brasil, sejam elas políticas, sociais ou econômicas. Entender como essas dinâmicas se intersectam e como elas moldaram realidades sociais tão distintas dentro de um mesmo território não é uma tarefa simples de se empreender. Isso explica, em alguma medida, a grande quantidade de pensadores na Academia brasileira que tentam compreender o complexo processo de formação do Brasil e o porquê de muitos problemas ainda persistirem em nosso país. Afastando-se um pouco do âmbito acadêmico, a literatura também se constitui como uma excelente ferramenta para se empreender tal tarefa, em que, por uma via ficcional, pode-se perceber de maneira mais clara como essas dinâmicas ocorreram (ocorrem) na realidade.

Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre, lançado no ano de 2009, é um excelente exemplo de como a literatura pode ser essa ferramenta. A obra tem como ambiência justamente uma cidade da antiga zona do café fluminense e condensa as complexas dinâmicas sociais do interior do Brasil, auxiliando-nos a melhor enxergá-las. O enredo constitui-se no empreendimento de dois garotos de 12 anos – Paulo e Eduardo – que, ao se depararem com o corpo de uma mulher morta, Anita, no lago em que costumavam brincar, são detidos e levados para a delegacia, sendo tratados como suspeitos. Ocorre que pouco depois o dentista da cidade, marido da vítima, confessa que foi ele quem assassinou a esposa, o que por sua vez fazem os dois meninos serem libertos. Entretanto, Paulo e Eduardo suspeitam das motivações do dentista quanto ao assassinato de Anita e, percebendo a falta de lógica da motivação dele e a indiferença da polícia quanto ao caso, decidem investigar a fundo toda a história que circunda este trágico acontecimento.

A priori, Se eu fechar os olhos agora é apenas uma história policial que tem como pano de fundo o interior fluminense. Porém, o que faz este livro ser tão interessante é justamente a costura que o autor executa entre o enredo e o seu cenário. O primeiro ponto a se destacar é que o aspecto mais cativante do romance é justamente a investida dos dois meninos para investigarem quem matou Anita e por quê. A jornada dos dois acaba lhes revelando o lado mais sórdido do ser-humano que ambos ainda não haviam se deparado e é a partir desse conflito que os dois iniciam seus processos de amadurecimento, sendo assim introduzidos da maneira mais sórdida no mundo cruel dos adultos. Mesmo a história se passando em um relativo curto espaço de tempo, acompanhar o desenrolar da história pela perspectiva dos dois garotos traz uma amenidade para um cenário permeado pela violência e pela hipocrisia.

Porém, o aspecto mais trágico do livro talvez não seja nem o assassinato de Anita, mas sim a atualidade com que o livro se mantém. Se eu fechar os olhos agora se passa no ano de 1961 e, mesmo lendo-o 60 anos depois do período em que história transcorreu, o livro ainda ilumina diversas questões que ainda acometem o Brasil. Os dois meninos, ao investigarem o passado de Anita e perceberem sua ligação com os homens poderosos da cidade, acabam deparando-se com o lado corrupto de uma sociedade que ainda vive os resquícios do coronelismo o qual perpetua, há décadas, famílias no poder, trazendo melhorias e ao mesmo tempo desgraças para as cidades que dominam. É interessante notar também a maneira perspicaz com que o autor expõe alguns contornos que o racismo ganha no Brasil, seja pelos conflitos familiares pelos quais Paulo passa por ter pele escura em contraste ao seu irmão Antônio que tem pele clara, seja pelo fato de Anita embranquecer ao longo de sua trajetória de vida e expor as nuances que o colorismo pode assumir na vida de uma pessoa.  

A hipocrisia talvez seja a outra grande questão explorada no livro. Ao longo de sua jornada, Paulo e Eduardo juntam-se ao velho Ubiratan, ex-preso político do Estado Novo. Uma das máximas do velho Ubiratan é “Nada neste país é o que parece” e talvez esta seja a frase que sintetize a trama, bem como seu cenário. Alianças políticas duvidosas, homossexualidade enrustida, feminicídio, violência sexual e tantas outras questões são desnudadas pelo trio inusitado o qual percebe que os bons costumes, tão ferrenhamente defendidos pela família tradicional, na verdade não passam de uma grande cortina – rasgada – que visa esconder a miséria de uma sociedade edificada sobre a exploração violenta de certos grupos. É nessa empreitada que o leitor percebe que o cenário de Se eu fechar os olhos agora não mudou muito e por isso pontuo, mais uma vez, que talvez este seja o aspecto mais trágico do livro.

Evidentemente, a jornada de Ubiratan diverge da dupla de garotos, mas é interessante notar como ele vai se constituindo como uma espécie de mentor para os meninos quanto à resolução do mistério. Não era de se esperar que Ubiratan se surpreendesse com as tragédias que o livro expõe (vide uma de suas máximas), mas sua experiência, além de ser o elemento que conduz Paulo e Eduardo na sua jornada, é o recurso que confere, de certo modo, segurança e ao mesmo tempo esclarecimento com relação a tudo que vai sendo encontrado no meio do caminho. Contudo, a experiência de Ubiratan também é um componente de peso em sua trajetória uma vez que lhe proporciona certa resignação por ele não ver concretizado tudo o que ele sonhava quando jovem como também certa amargura por tudo que ele já vivera, em especial no período difícil que sofrera ao ser preso durante a ditadura Vargas. É nesse interim que os dois meninos, ainda vivendo os últimos anos da infância, se constituem como um bom contraponto ao sentimento carregado por Ubiratan, lhe recuperando um vigor o qual faz o personagem ganhar a simpatia do leitor em meio a sua inusitada dinâmica com os garotos.  

Há de se ressaltar também que o livro não é perfeito em sua totalidade. O excesso de diálogos em algumas partes, embora confiram uma grande dinamicidade à história, podem incomodar certos leitores desejosos de uma narrativa menos “quebrada”. Ainda quanto aos diálogos, alguns deles carecem de naturalidade e podem soar artificiais, de modo que fica clara a intenção do autor em construir um “personagem-tipo” por meio de muitos deles, vide o machista Antônio ou o empresário corrupto Geraldo Bastos. Obviamente, também fica claro que não é a intenção do autor aprofundar e desenvolver todos os personagens da trama, porém, se o seu intuito era realçar o machismo e a corrupção de alguns deles, isto poderia ser feito de maneira mais sofisticada e não trivial, como alguns desses diálogos evidenciam. Em contrapartida, vejo que, se esteticamente essa característica dos diálogos revela a deficiência de sofisticação, nos tempos em que vivemos tal característica pode ser uma boa ferramenta para ilustrar como algumas dessas problemáticas ocorrem, já que elas são colocadas de maneira explícita em muitas das situações que vivemos. É difícil encaixar Se eu fechar os olhos agora em um único gênero, uma vez que ele transita entre o policial, o histórico e flerta com o romance de formação. A violência escancarada e ao mesmo tempo acobertada na história do Brasil, bem como o lado mais podre que o ser-humano pode assumir, são inteligentemente revelados no romance de Edney Silvestre. A aventura de Paulo e Eduardo buscando respostas para um crime tão brutal e os dilemas que os dois garotos enfrentam no meio do caminho complementam os ingredientes que fazem deste livro ser eletrizante e tão importante para os tempos de hoje. Reunir numa cativante (e dura para alguns) obra literária aspectos tão complexos que moldaram e ainda moldam a sociedade brasileira não é para principiantes. Acredito que encarar o Brasil de 1961 em 2021 e notar que ele ainda persiste talvez seja a tarefa mais desafiadora do leitor de Se eu fechar os olhos agora.

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