Ócios Queer

A autoaceitação como enfrentamento da vergonha: ser queer em um mundo sem referências

Por Filipi Lopes Araujo ( Pepe) – Turma 66 da Enfermagem

Antes de iniciar o texto, quero antecipar que, assim como as outras produções que escrevi para o Jornal, esta também contém muito do meu coração e do momento que estou vivendo, por tratar de um processo de aceitação, reconhecimento e tentativas de acerto. Então, tendo dito isso, me sinto incumbido também a introduzir o termo “queer”: ele é usado para designar pessoas que fogem do padrão hétero e cisnormativo em sua expressão de subjetividade. É, em si, uma palavra ressignificada pela comunidade LGBTQIA+, que pode incluir todas as outras letras da sigla.

Digo que a palavra foi ressignificada porque, a princípio, era usada como ofensa às pessoas da comunidade, mas tornou-se, através da nova atribuição de significado, um adjetivo do qual se orgulhar. E hoje, buscar se orgulhar por ser queer faz muito sentido para mim, visto que a vergonha esteve presente no meu desenvolvimento muito cedo. Desde a infância senti o peso da exclusão por não ser como os outros garotos, a expectativa dos familiares de que eu crescesse como um menino hétero, a dor de buscar me lapidar para ser esse menino, a confusão por não me ver totalmente identificado à comunidade LGBTQIA+, entre outros sofrimentos em busca de aceitação, amor e assimilação.

Tudo isso, creio eu, serviu como contenção para o desenvolvimento de uma personalidade realmente autêntica e sincera, antes comigo e, consequentemente, com os outros, visto que qualquer trejeito, preferência e expressão que se diferia do esperado para meninos era reprovado, no mínimo, com olhares. E em meio a toda a repreensão, depois de percebê-la e decidir mudar isso, o processo começa a acontecer de dentro para fora, numa aceitação sincera e progressiva de tudo que sou, de defeitos e qualidades, fraquezas e potencialidades. E pode crer que esse processo não é fácil, mas é libertador.

Também pude experimentar, nessa jornada (que está longe de acabar), uma conversa muito séria e vulnerável com meus pais, sobre a expectativa que eles tinham sobre mim, em como eu não posso (e nem quero) atendê-las, não como gesto de rebeldia, mas numa tentativa internamente intensa de ser aceito por eles do jeito que sou, naquilo que eles conhecem sobre mim. Graças a Deus, a conversa foi um sucesso e de fato recebi e recebo aceitação dentro de casa.

Contudo, o “problema” é que, enquanto não me aceito muito bem aqui dentro, eu quero a aceitação que vem de fora, não só dos meus familiares, mas do mundo. Quero obrigar a todos que me aturem do jeito que sou, como numa resposta impetuosa por ter me escondido tantos anos num personagem difícil de sustentar, porque, na verdade, eu desejo que eles validem e reconheçam que a minha existência é real e valiosa do jeitinho que é.

Somado a esse desejo de validação alheia, busquei desesperadamente por referências nas quais eu pudesse me apoiar, pessoas que eu pudesse copiar e carimbar em mim suas personalidades. Mas o que penso é que ser queer é extremamente subjetivo: cada queer foge da norma de um jeito. Isso torna a inspiração (ou melhor, a cópia) insustentável com o passar do tempo e o surgimento dos confrontos.

Então, concluí que a aceitação alheia não vai acontecer, até porque tenho a impressão que buscá-la desesperadamente indica que aqui dentro eu ainda não me encontrei. Além disso, a inspiração nos outros, apesar de parecer boa e fortalecedora no começo, se desfará quando eu perceber que a minha maneira de ser queer destoa da deles. Parece-me, por fim, que a aceitação precisa florescer no meu próprio coração, e o meu espelho e ponto de comparação precisam ser eu mesmo, visto que somente eu vivi e viverei essa experiência subjetiva, conhecida como existência terrena.

Essa falta de apoio e tentativas fracassadas de acertar tem me deixado confuso e feito um nó em mim, ao mesmo tempo que me mostra o que não funciona comigo. Não me foi dito que seria fácil, e não será, afinal, dá muito trabalho perceber quando estamos sendo autênticos e quando estamos “perdidos no personagem”. Logo, eu concordo com a afirmativa de que conhecer-se é uma jornada de duração vitalícia, repleta de erros, adaptações e ressignificações, semelhante ao que a comunidade LGBTQIA+ fez com a palavra queer, e assim como quero fazer com minha própria vida. Para finalizar, quero compartilhar que estar, paulatinamente, me conhecendo e aceitando, tem tirado o peso da vergonha de ser quem sou, me trazido leveza, flexibilidade no relacionamento com os outros e a noção de que pertenço ao mundo, mereço ser respeitado e tenho muito a oferecer com meu jeito esquisito, minha forma singular. E essa consciência é o que busco maximizar com a experiência relatada. Além disso, desejo que este texto gere em você reflexões produtivas, que te ajudem a perceber o impacto da vergonha na maneira como existe no mundo, seja você queer ou não.

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