Texto da semana

Expectativa e Exigência

Por Filipi Lopes Araújo (Pepe) – T. LXVI da EERP

Nos últimos dias tive percepções que não pude simplesmente ignorar. Parei para analisar a minha vida na perspectiva dos outros, meus familiares, amigos e aqueles com quem divido o espaço acadêmico, e me vi cercado pelas expectativas deles, e eles rodeados pelas minhas. Percebi que o “Filipi” que eles descreviam estava distante da pessoa que realmente sou.

Receber os títulos de “estudioso”, “aluno da USP”, “ovelha branca”, entre outros, havia me trazido alguns benefícios, a saber, apreço e admiração daqueles que amo, mas como quase nada na vida é de graça, esses títulos também têm preço. Inevitavelmente, há cerca de dois anos a conta começou a vir cara, pois me vi “perdido no personagem”, e a verdade é que não sou um grande fã dos estudos, nem muito paciente, calmo ou ainda um exemplo de moralidade, mas pelos benefícios desses papéis, busquei sustentá-los por um tempo.

Contudo, no início do mês de março, ficou insustentável, porque o personagem já estava longe demais da realidade, quase sempre dando espaço para o verdadeiro Filipi, que, pasmem, não é lá tudo isso. O Filipi de verdade se estressa, fracassa em demonstrar amor de verdade e considera como fútil algumas regras morais que, na verdade, não fazem sentido (para ele). Ou seja, é humano.

O bom de compartilhar esse “estalo” pessoal é que tenho a esperança que o leitor se identifique e perceba quais os títulos que lhe foram dados (ou tomados por si mesmo), e reflita sobre o preço que tem pagado por cada um deles, visto que a expectativa sempre carrega consigo uma exigência. Para ilustrar: se a expectativa que tenho sobre meu amigo é que ele seja paciente, não exijo dele nada menos que isso, logo é certo que a frustração me aguarda na esquina, quando inevitavelmente tivermos um desentendimento.

Percebe que a expectativa que possuem sobre você está diretamente ligada ao tipo de exigência que te é imposta, e se quiser manter o personagem, precisará se desdobrar para agir de acordo com o esperado? E para aprofundar-nos na ideia, ouso em dizer que a expectativa habita em quase todos os lugares! Ela está nas amizades, nas relações familiares e, especialmente, na Universidade.

Quem de nós nunca sentiu a pressão para participar de uma Iniciação Científica, projeto de Cultura e Extensão, entidade, liga, grupos de estudo, etc.? A resposta é: o calouro antes do primeiro dia de aula. E se não tomarmos o devido cuidado, podemos absorver as exigências, adoecermos mentalmente, perder nossa essência e adquirir um burnout antes dos 30.

Com tudo isso em vista, e considerando nossa própria experiência com o tema, sabemos que a expectativa e a exigência nos corroem, mas também prejudicam aqueles que amamos, pois, muitas vezes, inconscientemente depositamos as nossas expectativas e exigências neles. Logo, vale a pena repensar a maneira como vivemos as relações, porque assim como estes dois elementos pesam em nós, pesam também nos outros.

E agora você pode (ou não) estar se perguntando: como devo me relacionar então? É possível estabelecer relações sem esperar nada dos outros? A minha resposta é: inconscientemente, não, mas é possível reduzir a expectativa, trocá-la por compreensão e consideração do outro (como ele vive? Ele é mesmo essa pessoa que busco me convencer que ele é? Sendo ele humano e não a Siri, posso esperar que ele não aja conforme o script da boa convivência algum dia ou em algumas circunstâncias?)

E quanto a nós? Como lidamos com essa enxurrada de expectativas e exigências que nos cercam? A verdade é que somos porteiros do nosso próprio coração, podendo escolher o que entra e sai dele, e isso implica em recusarmos (antes dentro de nós e depois externar respeitosamente aos outros) os papéis que nos são impostos. Por exemplo, minha cunhada diz: escutem o seu tio Filipi, ele é inteligente. A resposta seria: obrigado, pessoal, mas não sei de tudo, e o que sei pode não estar correto. Assim, já me retiro do lugar de “sabe tudo” e compartilho a ideia de que o erro faz parte de mim, porque essa é a realidade. E esse é um exemplo que eu vivo, mas pensa aí no que acontece na sua vida, e considere largar a máscara.

Quanto ao mundo acadêmico, sei que pode ser mais difícil porque a cultura universitária nos diz que ter dúvidas, errar ou não saber responder é sinal de inferioridade e desqualificação, e não se abarrotar de atividades é perda de tempo. Mas é um esforço ativo e diário que cada um de nós precisa fazer, pegando apenas responsabilidades que queremos e podemos cumprir, ao invés de fazê-lo para florear o lattes. E não devemos hesitar em perguntar, demonstrar desconhecimento ou até mesmo despreparo, afinal, aluno e professor são aprendizes.

Por fim, não digo para os que leem que esse processo é fácil ou rápido (como a escrita sugere), porque, na verdade, é um movimento cotidiano, que nem sempre acontece, e que resulta em decepção alheia por não sermos quem pensavam que éramos, vergonha por poder ser considerado inapto, alívio por finalmente não precisar manter o personagem e felicidade por estar promovendo uma visão de filho, tio, amigo e universitário mais real e humana.

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