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Franz Kafka, além das aparências

Por Caio M. de Polo (Simba) – TXIII, FDRP

Kafka é um escritor que não precisa de nenhuma introdução, sabemos que ele foi um dos grandes escritores do século XX e que suas obras, mesmo com o passar do tempo, parecem nunca terminar de nos comunicar algo. Comumente a interpretação de suas obras acaba se ligando a dois importantes aspectos de sua vida pessoal: a relação conturbada do autor com o pai, sendo este bastante opressivo e fechado em relação ao filho, e sua trajetória na carreira do Direito, desde a formação acadêmica aos anos em que trabalhou em um órgão da burocracia austríaca ligado a acidentes de trabalho. Apesar de se poder atribuir certa credibilidade a interpretações que levem em conta, primariamente, esses aspectos, elas causam um desserviço à grande parte dos leitores que entram em contato com a literatura de Kafka e acabam afastado possíveis leitores. Isso ocorre pois, a um leitor desavisado, essas análises podem fazer suas obras parecerem feitas exclusivamente para pessoas ligadas ao Direito ou para aqueles interessados na psicologia por trás de relações familiares, o que é um grande erro e uma visão diminuta de suas contribuições artísticas.

            O que se propõe nesse texto é trazer à tona um outro aspecto, muitas vezes ignorado de suas obras, o desespero existencial que permeia o mundo e as ações das personagens nos livros de Kafka, a que alguns críticos se referem como “a solidão humana”. Para começar, irei dividir dois focos de interesse na obra do autor: procura/busca e culpa. Quando seus heróis tentam fazer algo para superar sua situação, eles nunca sabem claramente o que seus objetivos poderiam trazer de benefício para si, e às vezes nem mesmo sabem o que realmente procuram. Deve-se pontuar que o ser humano sempre precisa estar em busca de algo, mesmo sem saber exatamente o que é aquilo que ele procura. K., personagem principal de “O Castelo” é atraído pela vila onde se passa a narrativa por uma oferta de um trabalho como agrimensor dada pelo Conde, que tem toda a vila subordinada a ele e ao “Castelo”. K. é o único residente da vila que não possui uma função definida, pois nenhuma instrução sobre seu trabalho foi dada, desde sua chegada, portanto, o principal objetivo de K. é conseguir se encontrar com o Conde para que este o diga o que ele deve fazer. Com isso, ele busca sempre alguém capaz de levá-lo ao Conde.

            Longe de ser apenas uma crítica à burocracia e aos caminhos confusos da Lei, a obra retrata a busca do ser humano por um objetivo transcendente na vida. O escritor francês Albert Camus, em “O Mito de Sísifo”, identifica a busca de K. pelo conde como a busca por Deus, incialmente ele o busca pelo contato com aqueles que caíram nas graças do Conde e têm alguma função ligada ao Castelo, essa seria, portanto, a busca de Deus pela bondade, ou seja, é pela graça de Deus que podemos nos encontrar com ele. Contudo, frustradas as tentativas por esse caminho, ele decide se aproximar de uma família que teve a vida arruinada por uma intriga envolvendo-os e um membro da administração do Castelo. Por esse método, K. busca, agora, chegar ao Conde por aqueles prejudicados por ele, assim se dá a busca por Deus com base no mal, o sofrimento causado por ele é o caminho que levará ao seu encontro.

            É preciso esclarecer que Camus adota essa visão teológica da obra não porque ele acredita que era Deus, de fato, o objeto dela, mas porque a ideia de um Deus coincide com o sentido da vida, K. busca encontrar aquele que dará sentido à sua vida na vila. É curioso pensar que em momento algum o personagem principal da obra tenta abandonar a vila e viver sua antiga vida, tal fato ocorre porque, sendo o livro uma representação da condição humana, não podemos negá-la e nem mesmo escapar dela, estamos condenados a viver como homens e buscar um sentido para a nossa existência, isto é, estamos presos à vila. Além disso, ao longo da obra K. procura acesso ao conde por motivos que variam, não se tratando mais de obter esclarecimentos sobre sua função de agrimensor, simbolizando a incerteza de nossos objetivos como seres humanos, para que, exatamente, buscamos um sentido? Em qual aspecto da vida podemos encontrá-lo? Essas são perguntas que podemos ter ao observar a trajetória do herói. Vale ressaltar que no livro “Amérika” a temática é parecida, mas dessa vez a inquietude do personagem principal não é causada por um sistema burocrático, mas pela busca de um emprego em plenos Estados Unidos do início do século XX.

            Quanto ao segundo ponto que pretendo analisar nas obras de Kafka, a culpa, tomarei como base “O Processo” e “Na Colônia Penal”, duas obras primas do autor. Muito maior que a culpa jurídica, que diz respeito à infração de uma norma, o tipo de culpa aqui analisado relaciona-se com a própria existência, ela não necessita de uma norma para existir, basta haver indivíduos inseridos em uma situação. Tendo isso em vista, torna-se evidente o porquê de em “O Processo” Josef K. nunca ser esclarecido quanto à natureza de seu processo, isso ocorre, pois, sua culpa não se dá por um fato pontual, ela é própria do homem histórico, aquele que, inserido em sua época, é responsável pela consciência geral dela. Em outras palavras, ele é aquela racionalidade do mundo de que falava Hegel, o que o torna responsável pela dialética histórica que está no cerne do progresso humano, essa responsabilidade trazida por sua condição histórica é a medida e o limite de sua culpa.

            Dessa forma, em “O Processo”, a impossibilidade de um contato direto com seus juízes, a não ser em uma rápida passagem em que Joseph K. debocha do Tribunal, e um julgamento claro representam a forma com que os homens são julgados pela história: por juízes que eles nem mesmo conhecem as faces, por processos confusos para eles, baseados na racionalidade de outros tempos, sem um exame de consciência e sem direito de defesa.

            É preciso lembrar que Kafka era um escritor do início do século XX, época em que a Europa e o mundo ocidental passavam por grandes transformações, muitos territórios segmentados passaram por grandes unificações, intensos avanços científicos nos períodos anteriores à Grande Guerra e o gradual surgimento do Capitalismo Financeiro. Todas essas mudanças trouxeram um novo tipo de homem ocidental que ainda não sabia o que fazer de si, essa era uma época de invenção, o ser humano estava se reinventando no início do século XX e tinha perspectivas otimistas quanto ao futuro, que só iriam ruir com a crise de 1929 e a 2ª Guerra Mundial.

            Assim, o homem ocidental não se encaixava mais na racionalidade do século XIX, ele estava se reinventando. Por isso no conto “Na Colônia Penal” a máquina responsável por punir os condenados trabalha de forma totalmente diferente sobre o primeiro condenado e sobre oficial. No primeiro caso vemos um indivíduo submetido à razão de sua época, o “rastelo” – parte da máquina diretamente responsável por infundir na carne da pessoa sua condenação – inicia seu trabalho de forma prevista: a sentença será gravada na carne do condenado até que este seja morto. Já no segundo caso a máquina entra em colapso e apenas perfura o oficial de qualquer jeito, matando-o, ou seja, não há a execução de uma sentença condenatória definida, o que ocorre é um assassinato.

            A máquina responsável pelas sentenças opera conforme os julgamentos de uma época, com a substituição do comandante da colônia ela, assim como os valores inseridos em determinada racionalidade histórica, se deteriora até se ver considerada obsoleta, onde entra em colapso. O assassinato do oficial pela máquina representa aquilo que ocorre quando os homens de um passado não tão distante são julgados pelos novos valores: sabe-se que eles são culpados, mas não se sabe qual a sentença e quais os melhores mecanismos para puní-los, dessa forma, eles são rechaçados por carrascos que ainda estão confusos, utilizando mecanismos que não foram otimizados para o tempo contemporâneo.

            Portanto, não é sem motivo que o lugar é uma colônia penal, na história todos são condenados e juízes, vítimas e carrascos. Quem dá a palavra final que faz o oficial se submeter à máquina é um estrangeiro, alguém que representa os homens responsáveis pela transição histórica, possuem outros valores, mas não possuem novos mecanismos e, como não estão no futuro, onde se é possível olhar de forma mais crítica ao passado, nem mesmo compreendem claramente seu tempo, evidente pela sua falta de compreensão dos desenhos que coordenam a máquina. Nessa obra, culpa e punição são esporados de forma majestosa.

            Por fim, é preciso reiterar que tudo que foi dito sobre a obra de Kafka até aqui não foi feito com o intuito de excluir o mérito das interpretações legais e psicológicas de sua obra. Pois, é inegável que ele encontrou nesses dois aspectos de sua vida – relação com o pai e com a burocracia austríaca –  elementos que ajudaram a expressar sua angústia como um indivíduo tanto do início do século XX, quanto um que procura uma literatura transcendente, universal e atemporal. O que se buscou aqui foi revelar um dos principais aspectos de suas obras, que, usualmente, é deixado de lado em interpretações mais acadêmicas.

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