Ócios Queer

Carteirinha LGBTQIA+: validação da orientação sexual/identidade de gênero de pessoas queer

Filipe Lopes (Pepe) – Turma 66 da EERP

Tenho refletido sobre a validação coletiva da orientação sexual e identidade de gênero de pessoas autodeclaradas LGBTQIA+, sobre como e quando alguém realmente pode dizer que não é hétero e/ou cisgênero. Isso porque tenho percebido que há uma certa divergência no pensamento de pessoas que experienciam a atração por indivíduos do mesmo sexo ou dissimilação entre identidade de gênero e sexo biológico, a qual, ao meu ver, gira em torno da questão: o que preciso ter ou fazer para ser considerado queer?

Mais especificamente, essa pergunta pode significar, por exemplo: sou gay porque sou um homem atraído romântica e sexualmente por outros homens, ou sou gay porque me relaciono com homens da forma em que os desejo? Sou trans porque não me identifico com meu sexo de nascimento, ou porque faço adequações corporais para me adequar em minha identidade de gênero? O cerne das questões consiste na reflexão da validação da orientação sexual/identificação de gênero através da atração sexual e/ou diferenciação com o sexo de nascimento, ou se isso acontece no estabelecimento de relações condizentes com a orientação sexual do indivíduo e/ou através da efetivação de alterações corporais. É algo que ocorre no campo das emoções/percepções ou da ação/comportamento?

Todo esse questionamento me ocorreu porque percebo a existência de minorias não heterossexuais e que não se identificam com o sexo biológico, que por motivos diversos, não se relacionam sexo-afetivamente com ninguém e/ou não iniciam processos de transição de gênero. Por isso, essas pessoas não podem se identificar como gays, lésbicas, bissexuais ou transsexuais? Acredito que sim, elas podem.

Isso porque defendo que ser queer é, antes de tudo, uma parte da identidade que se revela na nossa experiência e percepção de si mesmos. Um homem, de acordo com o meu pensamento, não é gay a partir do momento que beija, namora, faz sexo ou se casa com outro homem, mas sim a partir do momento que percebe sua inclinação romântica e sexual em direção a pessoas do mesmo sexo, e não do sexo oposto. E se formos validar a identidade sexual deste homem somente quando ele está em uma relação sexo-afetiva com outro homem, isso significa que se ele entrar em celibato, ou adoeça de modo que não consiga se relacionar dessa forma novamente, ele deixará de ser gay? Se sim, o que ele será, então? Ouso dizer que não se tornará heterossexual.

Essa questão gera um desarranjo singular para as minorias supracitadas. Por exemplo, uma mulher com perda total das funções motoras dos membros superiores e inferiores, que pelo preconceito social não encontra a oportunidade de se relacionar sexo-afetivamente com outra, pode encontrar dificuldade na aceitação coletiva de sua autoidentificação como lésbica, caso a validação da orientação sexual por aqueles que a cercam ocorra somente após a consumação dessa relação. O mesmo exemplo também é visto entre aqueles que, por convicções ético-religiosas, escolhem se abster de relações amorosas condizentes com o próprio desejo não-heterossexual. Não que essas pessoas necessitem de fato da concordância alheia, mas a ausência desta pode ser um incômodo real para os que não a possuem.

Portanto, se assumo que as pessoas são LGBTQIA+ a partir de suas experiências internas (desejo/atração), além dessas experiências, há algo que une todos nós? Minha resposta é: com certeza, sim! E o vídeo “AS 10 MAIORES VANTAGENS DE SER HETEROSSEXUAL” (2019), do Quebrando o Tabu, explicita questões vivenciadas por muitos (senão todos) que se identificam como LGBTQIA+, independente de estarem ou não em relações sexo-afetivas. Algumas das vantagens citadas no vídeo são: héteros não precisam se assumir, não sofrem bullying por não se comportarem da maneira socialmente esperada para eles, não enfrentam “questões” relacionadas à orientação sexual na adolescência, ninguém os diz que sua sexualidade é um pecado, suas capacidades intelectuais e profissionais não são diminuídas por serem héteros, são aceitos em qualquer instituição religiosa, e se veem representados em todos os lugares.

Esse vídeo é sensacional pois mostra, de maneira didática e divertida, as dificuldades que enfrentamos ou podemos enfrentar pelo simples fato de sermos queer. E muitas delas acontecem a despeito de estarmos ou não nos relacionando sexo-afetivamente com alguém. Por isso, a minha proposta é que a validação da orientação sexual e identidade de gênero aconteça de forma mais inclusiva, considerando como fator determinante a experiência emocional e subjetiva dos indivíduos (especificamente, o caráter de sua atração sexual e/ou a sua não identificação com o sexo de nascimento, apenas) a fim de representar também aqueles que não expressam sua sexualidade através das relações românticas e sexuais, ou que não expressam sua transgeneridade através de adequações externas à sua identidade de gênero.

Vale o comentário: este texto não tem a pretensão de ser conclusivo ou de ser determinante na maneira como entendemos a existência das orientações sexuais e identidades de gênero. Ele é apenas mais uma perspectiva do assunto, a qual aponta para uma validação das orientações sexuais e identidades de gênero de forma mais abrangente, a fim de incluir algumas das “minorias dentro da minoria”. Não que os outros precisam da validação externa para a sua própria auto identificação, mas, como foi dito, a invalidação pode, sim, ser um sofrimento aos que são alvo dela.

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