Texto da semana

A Obscura Compreensão de Política: uma Alusão à Alegoria da Caverna

Por Bianca dos Santos Soares, TXIII – FDRP.

Na pequena cidade do interior de Minas Gerais, chamada Itamogi, vivia Seu Antônio, um agricultor que cultivava café em sua pequena propriedade e que morava na zona urbana com seu filho Ricardo. Sua esposa Marta faleceu no hospital público da cidade durante o parto do primeiro filho do casal, após sofrer uma parada cardiorrespiratória. A gravidez dela era de risco devido a sua idade já avançada, 42 anos, mas mesmo assim insistiu em ter o filho e faleceu. Ela era uma mulher alegre, cuidava do marido e sua profissão era a de costureira em uma fábrica de jeans.

Com a morte da esposa, Antônio cuidou e criou do filho Ricardo sozinho, ele não conversava com seus irmãos Caio e Pedro e nem com seu pai José, que era divorciado de sua mãe Rita, ela já havia falecido quando seu filho nasceu devido a uma complicação respiratória, após passar três anos em uma profunda depressão, resultado da triste separação com o seu pai José, que a abandonou para viver com outra mulher. José foi prefeito da pequena cidade de Itamogi nos anos de 2004 a 2008 e após cumprir seu mandato continuou envolvido na política assumindo cargos públicos importantes.

Seu Antônio não concordava com a carreira política do pai, que para ele foi fonte de muitas brigas, discórdias e decepções, uma vez que José envolveu-se em escândalos de desvio e lavagem de dinheiro e em polêmicas na vida pessoal, após manter casos com várias mulheres ainda quando casado. Seus irmãos seguiram a carreira pública do pai, Caio e Pedro eram advogados do munícipio e sempre que havia eleições para vereador e prefeito eles se candidatavam, mas ainda não conseguiram se elegerem.

Rita sempre falou para Antônio, seu filho mais apegado a ela, para seguir seu caminho sem se envolver na política e em uma vida corrupta e desonesta. Ele cuidava do pequeno pedaço de terra que a mãe havia recebido de herança do pai e ela antes de falecer passou a propriedade para o nome do filho, para que ele pudesse tirar dali o sustento da sua família.

Diante do sofrimento causado pela vida política do pai e sobre influência das decepções da mãe, Antônio cresceu odiando política, recusando-se a votar, a assistir campanhas políticas nacionais e da própria cidade e até mesmo, em alguns momentos, não sabia o que acontecia no país e no mundo por não ver ou não ler os jornais, na parte relacionada à política, restringindo-se a cuidar da plantação de café da sua propriedade, para tirar dali o seu sustento e do seu filho e em seu tempo livre lia romance, muito dos quais de ficção.

Antônio cuidava do filho Ricardo com muito amor e paciência, sempre que podia levava o filho para a roça com ele, ensinava as técnicas do plantio do café e ali eles também brincavam muito. Quando Ricardo não estava com o pai, ele ficava com uma tia de Antônio, irmã de sua mãe, que era uma doçura de mulher, cuidando dele como se fosse uma mãe. Assim como Rita falava para Antônio nunca se envolver na política, ele também explicava a Ricardo que a vida política apenas trazia desgosto para uma família e que quanto menos soubesse sobre isso mais feliz seria.

O mundo de Antônio e Ricardo era restrito as suas próprias necessidades, a felicidade de ambos viverem um para o outro, sem qualquer preocupação com o bem-estar de outras pessoas e com a situação político econômica da cidade e do país. Para Antônio esse era o melhor mundo que ele poderia oferecer para o seu filho, sem os sofrimentos que ele havia passado com os escândalos de seu pai.

Percebe-se que a atitude de Antônio assemelhasse aos dos prisioneiros na alegoria da caverna de Platão, pois assim como eles acreditavam que as sombras que observavam nas paredes da morada subterrânea eram a realidade e a verdade, Antônio restringe a concepção de política a suas experiências e a sua visão de mundo limitada, não compreendendo a sua abrangência e como ela afeta a sua vida. Além disso, ele transmite o seu pequeno entendimento como sendo o verdadeiro e o certo a ser seguido pelo filho, rejeitando qualquer outra ideia a respeito disso, semelhante ao que acontece com os prisioneiros quando um deles ao sair da caverna volta para lá e diz aos outros que o que eles viam nas sombras e julgavam ser a realidade eram cópias imperfeitas de uma pequena parcela do mundo, entretanto, os que ficaram na caverna não acreditaram no liberto, pensando que seria uma loucura de sua mente.

Desse modo, Antônio quanto tenta esconder ele e o filho de qualquer situação política não compreende a importância dela para a vida deles, como ela influencia no preço dos alimentos que eles consomem, na saúde pública que eles utilizam, no valor do café que é produzido na propriedade e vendido para o sustento deles, na qualidade da escola que o filho, em algum momento, vai frequentar, na precariedade das estradas que se locomovem, ou seja, eles desconhecem toda a lógica por trás da política, restringindo ela a governantes corruptos, a disputas entre partidos e candidatos, a ineficiência em resolver problemas públicos/ sociais e ao desvio do dinheiro da população.

Antônio, no seu mundo totalmente fechado, não percebe que afastar-se da política prejudica ele e o filho e que pode utilizar todo o sofrimento que passou vendo a carreira política traumática do pai para, dentro de suas condições e disposições, contribuir para mudar a triste realidade de uma pequena cidade do Brasil, mas que se repete em diversos outros locais do país. Isolar-se da realidade não resolve nenhum problema, apenas o procrastina, e não se cumpre com o dever de cidadão perante a sociedade. Além disso, mudar a realidade não significa participar diretamente da política, candidatando-se para cargos do sistema eleitoral, mas acompanhar os acontecimentos da cidade e do mundo, votar de forma consciência e observar as atitudes dos governantes, para que eles cumpram com suas obrigações e responsabilidades perante a sociedade, em busca do bem-estar social.

Assim como Antônio muitos outros brasileiros afirmam que odeiam política, não votam no período das eleições e quando votam não sabem nem qual foi o candidato que escolheram, não cumprindo com o seu papel de cidadão perante a sociedade, em um dos poucos momentos que é possível fazer mudanças no rumo que o país pode seguir. Portanto, nesse sentido, sair da caverna, seria se libertar desse conhecimento errôneo e enganoso a respeito da política, a fim de entender a sua importância. Ainda pode-se destacar que, de certa forma, todos os indivíduos estão presos a suas compreensões, que o mundo não necessariamente é aquilo que se entende dele. Dessa forma, é como se cada pessoa ou grupo vivesse em uma caverna, em um mundo limitado as suas crenças, ideias e experiências.

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