Frames de Ofício

Críticas dos Indicados a Melhor Filme no Oscar de 2021

Thomas Garcia (Palmirinha) – TIX FDRP

MANK Nota: 2,5☆

David Fincher é um dos diretores de cinema mais celebrados da contemporaneidade. Seu talento e originalidade marcaram as últimas décadas e não é pouco dizer que ele ajudou ao dar o tom do zeitgeist hollywoodano moderno. Engraçado notar, portanto, que seu trabalho mais recente é o que mais destoa com o resto de sua obra.

Mank traz a história de como o roteirista Herman J. Mankiewicz escreveu o roteiro de um dos filmes mais celebrados da história: “Cidadão Kane”. Em paralelo ao tempo presente em que Mankiewicz escreve sua obra isolado em um rancho, vemos trechos da história pessoal do roteirista, um ilustre boêmio, na época de ouro dos grandes estúdios. A obra se foca em mostrar a relação que Mank tinha com o magnata da mídia William Randolph Hearst e como este serviu de inspiração para o personagem de Charles Foster Kane na película de Welles. 

Mank é um personagem bem desenvolvido ao decorrer do filme, seja pelo roteiro de Jack Fincher (pai do David), seja pela atuação de Gary Oldman. O contraponto de seu lado fanfarrão descontraído com seu lado humanista sóbrio dá o tom do filme. A influência dos grandes estúdios nas eleições para governador da Califórnia mostra um debate moral interessante em que o protagonista vai aos poucos tendo que se posicionar, abandonando seus desvaneios para conseguir crer na realidade por vezes cruel que o cerca. Desses embates nasce a faísca que se tornará chama com o sucesso do espantoso do filme.

Muito se debateu, antes e após a estreia do filme, se Mank pretendia questionar a centralidade de Welles enquanto autor de “Cidadão Kane”. A meu ver, o filme de Fincher é propositadamente dúbio principalmente quando notamos o embate entre roteiro e direção deste. Mesmo destacando a participação central de Mankiewicz para elaboração da obra, inegável que a estética do filme remete diretamente ao modo de direção de Welles. Mesmo que o diretor seja retratado como egocêntrico e autocentrado, o filme lhe traz uma aura grandiosa, como na cena da visita que este faz para Mankiewicz no hospital. Mais do que desmerecer o trabalho intelectual de Welles, acredito que o Mank se foca em mostrar as contradições inerentes a este importante diretor, que além de plausíveis não diminuem sua qualidade.

Fincher se interessa em recriar a atmosfera da época e isso se estende para além do mero uso de fotografia em preto e branco. Conseguimos enxergar rimas com a direção de “Cidadão Kane”, como na garrafa que cai da mão do escritor e a atmosfera onírica em que se passa a cena da convenção republicana. O próprio uso de flashbacks também contribui para isso, embora não tão contundentes quanto aqueles da película homenageada. É um tanto desonesta a comparação entra as duas obras, afinal uma homenageia a outra.

Confesso que a imagem digital me incomodou, principalmente pelo uso de efeitos para tentar reproduzir as ranhuras de filmes antigos. Ora, já que se deu a esse trabalho, melhor seria filmar o filme inteiro em película.  No fim, temos mais um filme que traz Hollywood se auto homenageando. Tenho a impressão, entretanto, que em Mank temos um relato mais pertinente, debatendo a moral dúbia da indústria e dos gênios que a compõem.

OS SETE DE CHICAGO Nota: 1,5 ☆

“Os 7 de Chicago” nos remete a uma história real do julgamento dos líderes de um protesto contra a Guerra do Vietnã que aconteceu naquela cidade em 1968. Os protestos conseguiram reunir grupos bem divergentes, começando pela esquerda universitária, passando por hippies e pacifistas e culminando com a presença até de membros dos Panteras Negras.

O filme de Aaron Sorkin pretende a todo momento nos mostrar como esses homens estavam certos e as instituições estavam corrompidas durante o governo Nixon, que teria incentivado a investigação e o processo dos organizadores daquele evento. Embora seja possível comprar a tese, o filme acaba por ficar sempre em um lugar comum. Desde o começo do filme é fácil de perceber tanto que o promotor não acreditava piamente no trabalho que realizava, quanto que o juiz estava decido em contribuir para a condenação dos réus. Além disso, não havia dúvida de que em algum momento os protagonistas seriam absolvidos.

Todas as questões centrais da história são relevadas nos primeiros instantes e pouco evoluem. A direção não parece querer em momento nenhum aumentar a tensão e o roteiro se mantém previsível. Tudo isto posto, é nítido que o filme não se propõe a nada que não esteja sob medida para agradar a academia. Temos a impressão de mais um filme genérico a la Argo e Spotlight. 

O final do filme inclusive me causou uma impressão vazia. Além de pouco crível que o julgamento terminou daquela maneira, a mera crítica ao sistema como apareceu me soou vazia. Além disso, todo o plot dos Panteras Negras, que poderiam trazer novas camadas para o filme, foi abandonados do meio para o final.

Mesmo as trilhas que são usadas aparentam só servir para indicar que tal sequência é feita para ser tensa ou descontraída, sem maior qualidade ou conteúdo. A montagem inicial também decepciona, mostrando a já conhecida transição entre cenas filmadas e trechos documentais, porém é necessária certa habilidade para fazer com que isso não caia em lugares comuns, algo que por exemplo Destacamento Blood fez, mas que Os 7 de Chicago não chegou nem perto.

O que ajuda o filme, sem dúvida, é o elenco. Se os personagens parecem mal desenvolvidos, a atuação consegue dar textura para o filme. Muito além das estrelas como Joseph Gordon-Levitt e Eddie Redmayne, o forte das atuações se centra tanto em Mark Rylance quanto em Frank Langella que conseguem dar um tom interessante e vivo ao julgamento. Sacha Baron Cohen e Michael Keaton também entregam boas passagens, mesmo estando em lugares comuns dentro de suas carreiras.

Resumo da ópera: nada demais.

MINARI Nota: 3☆

Minari é o quarto longa ficcional do diretor Lee Isaac Chung, um diretor estadunidense com ascendência sul-coreana. Sua trama gira em torno de família de Coreanos que se mudam para o interior do Arkansas para fundar uma fazenda de vegetais naturais do país asiático. Enquanto o pai Jacob (Steven Yeun) está focado na empreitada rural, a mãe Anne (Noel Cho) demonstra alguns resguardos, preocupada com a frágil saúde do filho mais novo David (Alan S. Kin) e da adaptação de sua mãe que é recém imigrada.

Minari é um filme sobre a renovação do sonho americano. Até hoje, o país é visto como uma terra de oportunidades para aqueles que se aventuram a desbravá-lo. O país que foi fundado e construído por migrações muitas vezes é visto como já consolidado e muitos de seus habitantes olham com desdém os imigrantes modernos. Estes só buscam oportunidades como as gerações anteriores tiveram.

O filme se mostra pertinente, principalmente no momento histórico atual, em que a cultura coreana está se difundindo para além da Ásia e conquistando espaços do mainstream estadunidense. Ao mesmo tempo em que há celebrações, há reações conservadoras, como os recentes ataques que a população de origem asiática vem sofrendo no solo dos EUA.

O filme, situado integralmente nos EUA, não se pretende mostrar os dilemas da migração enquanto ato, mas a adaptação a que as pessoas são submetidas com a migração. A principal metáfora do filme, referente a seu título, evidencia isso. Do mesmo jeito que os pés de Minari (planta típica coreana) conseguem crescer livremente nas beiras do lago da propriedade, as novas gerações de asiáticos vão se adaptando e crescendo em solo americano.

Ao invés de se concentrar no lado exterior, mostrando o convívio deles com os locais, o filme tem seu triunfo em mostrar o lado interno desse processo. Os dilemas tratados mostram muito das dúvidas e inseguranças dessas pessoas, a ambição do pai em contraposição à cautela da mãe ou a imaginação do filho em contraposição ao pragmatismo da avó.

Como opção para retratar esse cenário, a direção opta por focar em questões mais cotidianas da relação da família, tanto entre si quanto com a natureza que a cerca. A iluminação vazada, os closes e a câmera tremida, além da própria edição de som, provocam muitas passagens contemplativas, principalmente quando retratam o homem lidando com a natureza, seja essa representada pela terra ou pelo fogo. Tais opções me soaram agradáveis, mas fogem de serem originais. Principalmente considerando que “Moonlight” venceu o prêmio poucos anos atrás.

O SOM DO SILÊNCIO  Nota: 3,5☆

O Som do Silêncio é mais um dos candidatos ao Oscar de 2021. Original do Amazon Prime Video, o filme é a primeira aventura do diretor Darius Marder e conta o arco de Ruben, um baterista que participa de um duo de Metal com sua namorada, Lou. Os dois rondam pelos EUA em um trailer fazendo shows em clubes alternativos. Um dia, Ruben começa a notar problemas de audição e se vê obrigado a interromper seu estilo de vida.

Impossível não iniciar esse review com a observação da infeliz adaptação do título do filme para o português. No original, “Sound of Metal”, é possível ter uma interpretação múltipla ao título. Podemos citar desde o som da banda de Metal propriamente até o som do aparelho de surdez colocado no terço final do filme. Há como estender ainda mais as referências, como o próprio som do badalar de sinos da cena final. O próprio metal pode ser interpretado como uma metáfora ao protagonista, que tenta se manter firme e rígido mesmo diante da condição adversa em que se encontra. O título nacional, infelizmente, retira todas essas nuances, deixando todas essas nuances de escanteio e abraçando um lugar comum.

Narrativamente, o arco de Ruben traz muitos debates interessantes. Mesmo quando as atitudes deste se mostram equivocadas, não tem como julgar com muito afinco suas escolhas. O baterista que tenta sempre se mostrar forte nitidamente perdeu o controle da situação, mas não consegue admitir esse ponto. Inicialmente se nega a buscar ajuda profissional, e mesmo depois de entrar na clínica para surdos, continua pretendendo fazer sua cirurgia acreditando poder voltar a escutar.

O período que Ruben passa na clínica é a alma do filme. Além de interessante por si só assistir a como pessoas na condição de surdez lidam com seus problemas do cotidiano, o drama do protagonista que passa pelo dilema moral optando por se vincular ou não à clínica é muito bem construído. Principalmente pelo contraponto que Joe, personagem de Paul Raci, faz ao protagonista. Por um lado, ele estende a mão e o introduz no universo da surdez, por outro tenta lhe negar qualquer esperança de retornar a escutar, quase que o obrigando a aceitar a realidade como imutável.

Ruben escolhe a esperança, e é castigado. Em uma visão realista e crua, o filme nos mostra que mesmo depois da operação a audição do protagonista está longe de se considerar normal. Quando esse tem que abandonar a clínica, busca auxílio na namorada. Mesmo assim, ele não é o mesmo, e não consegue se adaptar ao mundo.

Ao mesmo tempo que cruel, é interessante como esse terço final da obra é didático em demonstrar as barreiras que a falta de audição cria para uma convivência na nossa sociedade.

A cena final, embora não traga benesses para o protagonista, mostra o fim do seu ciclo. Finalmente aceitando sua condição de surdez. Tal aceitação se mostra até como libertadora em frente ao zumbido metálico que a operação lhe trouxe.

Por fim, para dar uma sustentação digna a este filme, impossível não destacar a primorosa edição de som, instrumento fundamental para a narrativa, aonde silêncios e zumbidos dizem muito sobre tudo que se passa no personagem.

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