Frames de Ofício

Críticas aos Indicados a Melhor Filme no Oscar 2021

Por Thomas Garcia (Palmirinha) – Turma IX, FDRP.

Nomadland – 4 estrelas

Nomadland traz a história de Fern (Frances McDormand) uma mulher de idade mais avançada que percorre o interior do Oeste norte americano em seu trailer realizando pequenos serviços e interagindo com as pessoas que vai conhecendo. Recém viúva, Fern ainda está lidando com sua perda.

Chlóe Zhao nos entrega em seu terceiro longa-metragem um retrato da cultura dos “nômades” modernos do EUA. São pessoas que, depois das crises financeiras recentes nos estados unidos passaram a viver em trailers e rodar cidades em busca de subempregos. O filme revela, porém, outras facetas dessas pessoas, como seu senso de coletividade e seu sentimento por aventuras. Não à toa, em demasiado momento do filme há a comparação deles com os primeiros desbravadores dos EUA, comumente reverenciados nos filmes de faroeste. Essa comparação inclusive os dignifica, ao ponto que são comumente tratados como losers pela sociedade.

Uma das questões centrais abordadas pelo filme é o conceito de lar. O filme já começa com uma frase clichê retirada de uma tatoo dizendo com outras palavras que “você é seu próprio lar”. Porém, esse conceito vai se desenvolvendo de várias formas ao decorrer do filme. Fern, se recusa a criar raízes nos lugares em que passa, mas se recusa a tirar a aliança do falecido esposo. Quando seu trailer quebra, ela se recusa a comprar outro, dizendo que aquele era seu lar. Podemos ver o retrato de uma mulher que busca manter sua autonomia a todo custo e que, teme acima de tudo em não se reconhecer caso acabe se alocando em único lugar.

Frances McDormand brilha em dar luz a essa personagem. Seu brilho discreto e enrustido, mas sempre autônomo. Ela se mostra dona de seu próprio destino, contrariando aqueles que a julgam velha ou rebelde. Sua jornada de autodescobrimento e cura se dá em seus próprios termos, aceitando os auxílios quando não impositivos. Sua jornada poderia ser uma longa aventura sob outras lentes, mas aqui ela é mostrada na integralidade com os pequenos momentos que de fato a tornam humana e real.

Buscando se aproximar ainda mais do real, a opção do filme em utilizar pessoas comuns interpretando a si mesmas é encantadora. O longa acaba brincando com gêneros como road movie e falso documentário, mas de forma que parece mais preocupado com um sentido a frente, e não com a homenagem ao estilo em si. O filme se preocupa em captar a vida das pessoas, e as experiências reais e humanas que esses atores provocam engrandecem o filme. O discurso de Swankie sobre sua relação com a natureza e seus objetivos na vida influenciam diretamente Fern, que passa por muitos desses encontros no avançar do filme.

Acredito que o que há de mais encantador no filme é sua montagem. Os cortes são constantes e implacáveis, muitas vezes nos dando a impressão de estarmos vendo um amontoado de pequenos momentos da protagonista, o que é favorecido também pelo uso de luz natural na maior parte do filme. A constância com que os momentos vão passando, impede criar um apego maior os momentos em que Fern tem. Conversas não tem início, meio ou fim, são só apresentadas em seus ápices. Momentos se impões e depois passam, fazendo tudo parecer uma memória mais do que uma história.

A história, entretanto, é observada conforme o filme inevitavelmente avança. O fluxo constante de Fern se mistura com o fluxo das imagens de forma em que não há como não reconhecer o imenso talento da diretora e editora Chlóe Zhao. Ela conseguiu fazer uma obra lírica e reflexiva sem apelos visuais. A história não é mastigada, mas está sempre presente, da mesma forma que o luto da protagonista e seu ciclo relacionado a obra.

No fim, o ciclo se completa, o passado é enfrentado, mas não encerrado. Há caminhos que ainda devem ser explorados.

Bela Vingança – 3 estrelas

Bela Vingança conta a história de Cassandra (Carrey Mulligan), que mesmo completando 30 anos no começo do filme, se recusa a dar prosseguimento em sua vida. Trabalha em uma cafeteria em meio período e ainda mora com os pais. A noite ela frequenta baladas sozinha fingindo estar bêbada para “testar” os homens que frequentam esses lugares, caso eles tentem se aproveitar do estado dela, ela é impiedosa com eles.

A estagnação da protagonista é colocada em xeque quando ela reencontra Ryan, um ex-colega de faculdade. Ao mesmo tempo em que o jovem tenta seduzi-la, cicatrizes do passado de Cassandra vão se abrindo.

Promising Young Woman é a bela estreia da diretora Emerald Fennell na direção. A trama busca atualizar a temática Rape and Revenge para a contemporaneidade, introduzindo questões centrais para discussões anteriormente ignoradas principalmente palpadas na centralidade que o ser feminino nesse doloroso processo.

Na história do cinema, em todo seu machismo, o mais comum em tramas com essa temática que homens buscassem a vingança por suas amadas violadas. Embora a vítima costumeiramente seja feminina, o redentor costuma ser masculino. O problema é que o violador é sempre masculino e trazer o homem para a posição de redentor, inviabiliza a mulher. Condenando-a sempre a ser somente a vítima. Bela Vingança vem para inverter essa lógica.

Aqui a redentora é Cassandra. O filme é enfático em mostrar como os estupros decorrentes de nossa sociedade machista atinge todas as mulheres, internalizando nelas o medo e a dúvida. Depois de eventos trágicos sofridos por Nina, melhor amiga de Cass, a protagonista carregou consigo essa dor, a ponto de estagnar completamente sua própria vida. É interessante como a vítima não é diretamente Cass, e a sua vingança, embora pessoal, possa refletir todas as mulheres de nossa sociedade.

O filme é um excelente suspense, trazendo misturando os signos referentes a assassinos seriais (mesmo que em alguns momentos a trama deixe em aberto o fim que as vítimas de Cass, é inquestionável que sua figura é cercada de alusões a esses personagens) com o moderno discurso feminista. Em algumas cenas o filme joga de forma escancarada como as hipocrisias do machismo em nossa cara, como no prolongado discurso “desconstruído” que Neil (Christopher Mintz-Plasse) tem antes de tentar se aproveitar de Cassandra. Nesse sentido o filme lembra “Corra!” (2017), outro suspense que lida com questões indenitárias, nesse caso o racismo, as escancarando por alguns momentos. 

O filme é coroado em vários aspectos. A atuação de Carrey Mulligan é ótima, a direção de Fennell é consistente e a trilha sonora regada de músicas alegres de divas pop dão um tom ao mesmo tempo moderno e agoniante para a película. Nesse sentido destaca-se a passagem instrumental de “Toxic” da Britney Spears. 

Dito tudo isso, o mais forte do filme é sem dúvida o roteiro. A trama consegue mesclar elementos cruciais do suspense como tensões, alívios e reviravoltas com um discurso quase que didático sobre a hipocrisia de como a sociedade trata os estupros no ambiente universitário. Há quase que um dégradé da culpa, cada qual levando a parte que lhe cabe da vingança. 

No fim, o maior mérito do trabalho de Fennell é ser implacável, banindo espaço das relativizações do machismo que tanto permearam o cinema.

Meu Pai – 2 estrelas

Meu Pai é o primeiro longa-metragem de Florian Zeller. Ele narra a história de Anthony (Anthony Hopkins) um homem idoso que está sobe os cuidados de sua filha Anne (Olivia Colman). Ao mesmo tempo que a filha busca certa autonomia, o pai está cada vez mais dependente dos outros.

À medida que a história vai avançando, percebemos que situações estranhas vão se sucedendo, com personagens entrando em constante contradição e os próprios elementos de cena se alterando com objetos sumindo e aparecendo e com atores diferentes representando os mesmos personagens.

O que a princípio pode soar como um mistério é rapidamente decifrado como o embaralhamento das ideias na cabeça de Anthony, decorrentes de sua avançada idade. Toda esta inconstância tanto de narrativa quanto de mise-in-scene servem para demonstrar como o personagem está se perdendo dentro de seus próprios pensamentos num cenário pessimista referente a velhice. 

Para representar toda essa agonia o filme adota tons polanskyanos. É nítido a referência a filmes como Repulsa ao Sexo e o Inquilino tanto no suspense escalonado quanto na claustrofobia do ambiente. Porém, Zeller carece de certa sofisticação.

Meu Pai é um filme que vive basicamente da repetição. Os ciclos do personagem são sempre os mesmos: perder seu relógio, desconfiar daqueles que o cercam, comer frango ou falar de sua outra filha. Esses momentos se repetem de formas diferentes ao decorrer do filme. Porém tais repetições se esgotam em sentido na medida em que não há narrativa que avance para alcançar algum outro lugar. 

Mais, as cenas mais impactantes visualmente, aquelas em que Anthony sofre agressões, são totalmente deslocadas dos outros momentos do filme, dando a sensação da violência contra o personagem se dar meramente por algum fetiche inoportuno. 

O final do filme, que poderia dar uma baliza, se mostra novamente fraco. O problema não está em não trazer resposta, há diversos filmes interessantes que não se fecham com o preto no branco. Mas em Meu Pai o final em aberto, onde tendemos a crer que o protagonista está internado em um asilo durante praticamente toda a narrativa, se mostra mais como uma saída fácil para maquiar todas as inconsistências que o filme traz. A própria rima entre o discurso do protagonista e a imagem final se mostra prejudicada na medida em que ela acontece literalmente na sequência da frase do personagem, tratando o telespectador como tutelado.

Se há salvação para este filme, está reside na atuação triunfal de Anthony Hopkins que consegue trazer camadas e tornar crível as confusões do protagonismo.

Judas e o Messias Negro – 3 estrelas

Judas e o Messias Negro é o segundo longa do diretor Shaka King. Sua trama gira em torno do revolucionário do partido dos panteras negras norte americano Fred Hampton (Daniel Kaluuya). Conforme o ativista vai ganhando projeção, o FBI começa a se preocupar que ele se torne um “Messias Negro”. Nesse contexto, o agente Roy (Jesse Plemons) contata o delinquente Bill O’Neil (LaKeith Stanfield) e o instiga a ser um agente infiltrado na organização antirracista.

O centro da obra gira em torno do contraste entre os personagens de Kaluuya e Stanfield. Hampton se mostra um personagem duo, transparecendo um fervor e uma violência energética em seus discursos que contrasta com seu jeito tímido e sereno no privado, com ares quase melancólicos. Já O’Neil é retratado como um tom paranoico, se sentindo constantemente cercado tanto pelo FBI quanto por seus “colegas” panteras, o personagem se concentra em se demonstrar um homem robusto mesmo desesperado. Ao mesmo tempo, sabendo do perigo, ele aproveita ao máximo tudo que os dois grupos lhe oferecem. Os dois atores fascinam ao trazer esses ares tanto de Messias quanto de Judas.

O filme busca trazer um debate sobre a função histórica ocupada pelos Panteras Negras no fervor cultural dos anos 70. Ao mesmo tempo em que ele não se omite de revelar alguns excessos que de fato o partido cometeu, desde uma mentalidade excessivamente militarizada até violência propriamente dita. O filme, entretanto, tenta fazer um relato que vai além da camada rasa com a qual muitos falam sobre a organização. As ações sociais, a diplomacia e a força do discurso antirracista que muitas vezes são omitidas aqui tem lugar de destaque, mostrando uma organização complexa. Mais, toda violência que os PN cometem é respondida de forma exagerada pelos órgãos policiais, legitimando sua luta. Esse descontrole dos oficiais em sua investida contra o partido alcança o cumulo no climax, no qual Fred é brutalmente assassinado enquanto estava dormindo.

Para além dos PN, o FBI também tem papel de destaque. King não esconde sua visão negativa da instituição, retratando J. Edgar Hoover, maior oficial do FBI naquela altura e figura famosa no imaginário estadunidense, como um grande canalha. Porém, o personagem Roy se mostra muito mais interessante. Ele é retratado como um burocrata que tem que servir seus superiores, relevando toda a hipocrisia em que está envolvido para que seu trabalho seja cumprido. Mesmo afirmando discordar de muitos posicionamentos de seus superiores, isso nunca o impede de patrocinar as injustiças que eles cometem. Um verdadeiro Adolf Eichmann.

O filme se encaixa perfeitamente nesse movimento recente de filmes que misturam retrato de época com “baseado em fatos reais”. Usa de vários clichês desses filmes como a utilização de imagens de arquivo, textos antes do crédito dizendo o destino dos personagens, foco em atuação e fotografia em tons escuros. Dito isso, o filme tem uma decupagem e montagens consistentes, o que garante o peso dramático para a obra.

Principalmente quando comparado com o seu candidato mais diretamente semelhante nesses aspectos formais, que por ironia do destino é “Os Sete de Chicago” outro filme que relata temas bem semelhantes na mesma cidade e no mesmo período, porém com bem menos consistência, Judas e o Messias Negro se mostra um bom filme para aquilo que se propõe.

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