Ócios Queer

Não só bixa, mas também ex-monogâmica.

Por Alef Diogo – doutorando da EERP

O termo bicha, ou simplesmente bixa, vem sendo ressignificado há um tempo. Lembro que ainda em meados de 2013 ou por ali em 2012 – assim quando eu entrei na universidade – o termo não tinha essa dimensão política que possui hoje, tampouco pudera. E eu ainda um jovem LGBT+ que, apesar de não ter dúvidas quanto a minha sexualidade, ainda assim, achava de um exagero tremendo usar o termo “bixa” quando se designavam a mim (muito pelos ataques que recebia dos colegas na escola devido ao meu jeito afeminado). Isso, claro, durou um tempo para que pudesse ser ressignificado. Assim que entrei na universidade, comecei a me engajar com o movimento estudantil a partir da minha aproximação com o Diretório Acadêmico (DA) e Diretório Central dos Estudantes (DCE). Foram momentos extremamente importantes na minha construção enquanto profissional – sou enfermeiro – e também quanto à minha identidade bixa. Não à toa, aos poucos, o termo parava de ganhar alguma estranheza à medida que os anos se passavam. O tom político ali já alcançava outro Alef.

Minha trajetória acadêmica e profissional foi mediada, muitas vezes, por esse tom político que, mesmo saindo da graduação, ainda permaneceu e permanece. Foi esse mesmo tom político que me instigou a realizar o mestrado em Enfermagem na linha de estudos de gênero e sexualidade, ou estudos LGBT+. Se durante a minha graduação – me formei na Universidade de Pernambuco (UPE) – pouco tinha me integrado aos assuntos que permeavam os indivíduos LGBT+, no mestrado o movimento foi, sobretudo, de me conectar e integrar aos estudos dessa área. Muito, obviamente, por um desejo pessoal e também pela receptividade em que meu ex-orientador teve ao me receber para compor o grupo de estudos LGBT+ de Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ali pude, dentre outras questões, me aprofundar e conhecer temáticas que outrora apenas tinha ouvido e visto falar de forma um tanto rasa e repleta de sensos comuns durante a graduação. Acredito que seja legítimo pontuar que nossos currículos de graduação – os de saúde, em especial – são defasados e essencialistas quando discutimos questões de gênero e sexualidade, sobretudo, pela visão biomedicalizante que recai sobre nossos corpos.

Não à toa, certamente, concluí meu mestrado em que defendi a dissertação que se concentrava no eixo da saúde coletiva, enfermagem, psicologia e em algum nível, nas ciências sociais e humanas. Nesses dois anos tive oportunidades ímpares de conhecer pesquisadores e ressignificar outras questões. A minha inserção no Doutorado em Enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da Universidade de São Paulo (USP) foi, no entanto, ponto primordial para que eu desse continuidade ao tom político que outrora já vinha sido gestado.

Foi aqui que, além de bixa, me descobri não-monogâmica. Claro que isso não foi do dia para a noite, tampouco em uma única conversa e ou leitura. Logo eu, que sempre desejei um namorado para o resto da minha vida. Afinal, é isso que a monogamia e o mito do amor romântico vendem para a gente. E que facilmente assimilamos no nosso dia a dia, nas nossas práticas, nos nossos pensamentos e até nas nossas projeções. No entanto, para que eu pudesse ter a noção do quão opressora é a estrutura monogâmica, foi necessário um grande esforço prático (a partir de uma experiência singular ainda no final de 2018 com um ex-amor) e uma boa dose de leitura e diálogos com amigos/amigues não-mono. Não leituras sobre não-monogamia, não ainda. Mas sim leituras que puderam me dar suporte para compreender como a estrutura capitalista foi e continua sendo a principal motriz de todas as grandes opressões que conhecemos – racismo, lgbtifobia – além da própria monogamia.  

Foi nessa chave que lancei o meu primeiro livro, o “bixa ex-monogâmica”, de forma independente e, até então, digital. Nele, eu delimito como ponto de partida quando me reconheço enquanto bixa não-monogâmica e faço um exercício de revisitar o meu passado, ainda enquanto bixa monogâmica e que por muito tempo desejei, incitei e reproduzi um amor ideal, uma família ideal, um casamento ideal e todas as hierarquias possíveis que são estabelecidas – de forma muito dada – nos relacionamentos. Certamente o livro não é um convite para que todos se identifiquem enquanto pessoas não-monogâmicas, na verdade, o movimento do livro é muito mais de reconhecer como a “chave analítica” que concebi ainda nesse percurso de formação do doutorado, foi poderosa ao ponto de me fazer conectar e interligar várias situações vivenciadas anteriormente, situações estas muitas vezes, imbricadas por preterimentos, por situações conflitantes entre e na minha família, LGBTIfobia e o racismo. Essa chave proporcionou com que eu refletisse e analisasse o local que meus afetos e amizades ocupavam dentro dessa grande estrutura e sistema monogâmico, como já nos informa a escritora Brigitte Vassalo. Comecei, enfim, a entender quando mencionaram que a monogamia não é saudável.

O livro “bixa ex-monogâmica” é uma obra feita nas e pelas emoções. Foi idealizado para ser uma trilogia, mas mais do que isso tem se mostrado como uma obra em que consegue interligar os diversos pontos de diversos momentos vivenciados durante a minha vida, e em vários contextos. Há narrativas no livro que entrelaçam amizade, paixões e família, partindo sempre de um lugar e experiência de não-integralização na sociedade, o lugar que muitas de nós, bixas negras e afeminadas, socialmente ocupamos. O tom do livro é, sobretudo, político – pois é uma “veia” minha que não tenho a menor pretensão de deixá-la obstruir – mas também social, visto que proponho tensionar algumas questões dadas, essencializadas, além de ensaiar a proposta de outras reflexões. Há também uma categoria específica que não poderia deixar de problematizar no livro, que é a minha própria formação enquanto enfermeiro. “Bixa ex-monogâmica” é um dos meus trabalhos que possuem um significado e importância singular, especialmente pelo momento e fase de vida que experiencio. O movimento para com a visibilidade e divulgação que venho tendo no livro e pelas ideias ali contidas é de contribuir de forma reflexiva e potente na construção de produções científicas de (e com) sujeitos que, historicamente e socialmente considerados abjetos, cada vez mais assumem o protagonismo de suas próprias produções na contemporaneidade.

A quem se interessar, “bixa ex-monogâmica” está disponível no Amazon Kindle.

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