Texto da semana · x

Você acredita em vida após o vício?

Por Companheiro

Este é mais um texto introspectivo sobre saúde mental, porém, dessa vez, escrito sob a perspectiva de um dependente não químico, para elencar questões importantes sobre mecanismos de enfrentamento de adversidades, sobriedade e maturidade. Então, para iniciarmos, quero especificar o termo “dependente não químico”, que estarei usando no decorrer do escrito: trata-se de um sujeito que não é, necessariamente, viciado em substâncias químicas (álcool, tabaco, entre outras), mas sim que possui um comportamento dependente de outras coisas, tais como amor e sexo, que pode se manifestar de diferentes formas, a saber, dependência e co-dependência emocional, voyeurismo, exibicionismo, fantasias, pornografia, sexo pago etc.

Atenção: nem todas as pessoas que apresentam estes comportamentos são dependentes dele. Neste texto pretendo aprofundar em reflexões acerca dessas atitudes feitas de forma compulsiva, persistente e em que haja uma relação de dependência entre elas e o indivíduo. Também não tenho a pretensão de definir a experiência de todos os dependentes não químicos, mas pretendo, sim, falar sobre o papel que esse vício representa na vida de alguns que o possuem e como é desafiador estar em recuperação dele.

Tendo dito isso, quero problematizar duas questões que dificultam a detecção do problema da dependência não química: primeiro, o tabu em cima das relações sexuais transforma muitos comportamentos disfuncionais nessa área em motivos de vergonha e, segundo, comportamentos sexuais vividos de forma compulsiva (o sexo propriamente dito ou o consumo de pornografia, por exemplo) são minimizados com justificativas superficiais da atitude do outro, seja dizendo que ele ou ela é jovem, possui muita “energia sexual” ou apontando seus feitos como uma expressão de sua liberdade sexual.

O grande problema é quando essas condutas são tomadas pelos indivíduos na tentativa de encerrar grandes insatisfações internas. Esse é um terreno fértil para o comportamento vicioso, visto que a prática sexual, seja ela qual for, não se constitui como real solução para os problemas que enfrentamos, mas é, sim, a princípio, um alívio momentâneo da dor, que se torna, posteriormente, uma de suas causas principais. Digo isso porque, bem como em uma grande parcela dos casos de vício em álcool e drogas, a dependência não química se mostra bastante eficaz na dissipação efêmera e aparente dos problemas da vida, mas traz consigo, em sua progressão, problemas como: alteração da capacidade de focar em atividades cotidianas, perda do senso de valor e amor próprio, disfunção erétil, distorção da percepção do funcionamento das relações interpessoais, entre outros.

Acredito que isso se deva, em grande parte (ou, talvez, em totalidade), pelo Efeito Coolidge, que é, basicamente, um fenômeno cerebral em que o estímulo sexual inicial torna-se, em questão de tempo, incapaz de satisfazer o indivíduo com o mesmo vigor do primeiro contato, levando-o a buscar esse prazer de formas variadas, seja aumentando a frequência e/ou intensidade do comportamento sexual, ou alterando frequentemente seus parceiros(as). E você pode se questionar: como isso se relaciona com a dependência não química?

Como o próprio nome sugere, há uma relação de dependência entre a pessoa e a prática, a qual é construída e amadurecida com o tempo. O indivíduo descobre que o prazer sexual/emocional, seja ele obtido sozinho (através da masturbação e fantasia, por exemplo) ou com outros (através das diferentes manifestações da relação sexual), é capaz de aliviar tensões da mente. Logo, este torna-se um mecanismo de “enfrentamento” de adversidades (que não o ajuda a superar seus problemas) a ser usado em diversas situações, sejam elas de estresse, ansiedade, frustração, tristeza, euforia etc. Tendo em vista a existência do Efeito Coolidge, há a necessidade de aumentar o estímulo sexual progressivamente, o que concretiza, então, o vício.

Até aqui me propus a argumentar sobre o problema, mas agora pretendo falar da jornada de recuperação, afinal, tem que haver esperança para os que percebem os efeitos destrutivos desse vício em si mesmos. Então, desde que iniciei o processo de recuperação em uma irmandade de 12 passos e 12 tradições, pude perceber muitas coisas acerca de mim mesmo e do significado dos meus comportamentos sexuais disfuncionais. É recomendado que este processo comece diretamente com uma abstinência dos padrões dependentes, sejam eles quais forem (masturbação, sexo casual, co-dependência, entre outros).

Esse é um momento especialmente doloroso, e digo isso porque, para mim, meus padrões são uma fuga total da realidade, uma maneira de ignorar a insatisfação com a vida e os sentimentos não tratados de culpa, abuso, negligência e desmerecimento. E eu vivia essa fuga, até então, de maneira frequentemente inconsciente, visto que o menor estímulo de dor emocional era (e, às vezes, é) um gatilho para praticar a dependência de amor e sexo.

Encarar a dificuldade da abstinência me propôs sobriedade suficiente para perceber como eu permaneci emocionalmente estagnado na infância: me vi totalmente despreparado para lidar com a insatisfação, tristeza e frustração presentes em minha própria vida. Além disso, a sobriedade me tornou mais sensível a quase todas as emoções, o que me deixa ansioso e angustiado algumas vezes.

Hoje, assim como qualquer adicto em busca de recuperação, tenho enfrentado a dificuldade de “simplesmente” aprender a viver. Sinto como se estivesse entorpecido pelo meu comportamento dependente por quase toda a vida, o que me impossibilitou de aprender a vivê-la como um homem adulto. Para mim, a percepção de uma situação que é oposta ao que eu realmente gostaria de estar vivendo, já se constitui como um grande obstáculo que preciso aprender a superar de forma emocionalmente saudável, através de mecanismos de enfrentamento que não causem danos a mim ou aos que convivem comigo.

É por esse motivo que busco respeitar a jornada de pessoas que enfrentam o vício diariamente, pois apesar de termos sido treinados por nossas próprias escolhas imaturas a não viver a realidade, temos a coragem de aprender a existir no mundo, lutando para não apenas conhecê-lo, mas também conhecermos a nós mesmos, pois nos perdemos no processo de adicção. Para mim, a recuperação é muito mais do que parar de praticar meus padrões de dependência de amor e sexo, mas é também descobrir o meu valor, me reconectar comigo mesmo e com Deus, enquanto aprendo a viver em um mundo imperfeito, que está distante de ser como eu realmente gostaria.

Para finalizar, quero deixar expressa aqui a minha admiração a todos os que, corajosamente, assumem seus monstros internos e buscam lidar com eles sem anestesiar a si mesmos. Vocês me inspiram na minha jornada. E a você que ainda sofre com algum vício, seja ele químico ou não, quero dizer que existe vida após o vício, nós apenas precisamos aprender a vivê-la. Por isso, não desista de buscar ajuda, ainda que fracasse no processo, porque investir em recuperação é apostar em si, e você tem muito valor. Desejo paz e serenidade a todos os leitores.

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