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Fearless (Taylor’s Version)

Franciele Amorim e Felipe Petrucci (ambos TXIII – FDRP)

A regravação do álbum Fearless (2008), agora chamado “Fearlerss (Taylor’s Version)“, por Taylor Swift é um retorno ao passado, é como aquela sensação de ler um diário antigo e recordar fases de sua vida, é como voltar a ser adolescente com a Taylor adolescente… quem cresceu junto com a loirinha e aguardava ansiosamente por seus clipes em frente à tv, sabe do que estamos falando!

O álbum “Fearless” foi, para muitos, o primeiro contato com a cantora. Além disso, trata-se daquele que mais representa uma Taylor Swift adolescente – no melhor sentido da palavra. Ali se vê toda a capacidade criativa, sentimental e inocente de Taylor, ainda que se observe a existência de sofrimentos, amorosos e não amorosos, em suas letras. É, porém, uma Taylor que demonstra, explicitamente ou não, uma crença sobretudo no amor.

Mas mais do que revisitar esse baú cheio de emoções (from the vault), esse álbum representa um marco na indústria musical! Um grito de liberdade aos artistas que deveriam ser os verdadeiros donos de seus trabalhos e, se você não está entendendo do que estamos falando, aqui vai um resumo:

Scott Borchetta era dono da Big Machine Label Group, gravadora de Taylor entre 2006 e 2018, e dona das masters de seus primeiros 6 álbuns, isso porque, na indústria da música norte americana, existem os direitos autorais, pertencentes a quem escreveu as canções, no caso, a própria Taylor Swift e, os direitos conexos, pertencentes a quem pagou pelas gravações, geralmente conhecido como direito sobre as masters e é essa parte que a Taylor não detém (ou não detinha). A Big Machine se recusou a vender as masters para a Taylor, mesmo após a mesma tentar várias vezes e, em 2019, vendeu para a Ithaca Holdings de Scooter Braun, o mesmo que trabalhava com Kanye West na época da briga dele com a Taylor, então imaginem só… Na prática, isso significa que a Taylor não possui inteiramente os trabalhos que escreveu, produziu e gravou, os royalties da execução de suas gravações iriam para Scooter Braun, que recentemente, após saber das intenções de regravação por parte de Taylor, os revendeu para um grupo de investimento.

Felizmente, em novembro de 2018, Taylor assinou contrato com a Universal Music Group e começou uma nova era em sua carreira, lançando o álbum “Love“, mas e os 6 anteriores? Responsáveis por toda a carreira que ela construiu?

Taylor afirmou que regravaria TODOS os seus primeiros álbuns, em suas próprias palavras manifestadas por meio de suas redes sociais “Esta é a única maneira de recuperar o orgulho que já tive de ouvir as músicas dos meus primeiros seis álbuns e também de permitir que meus fãs ouçam esses álbuns sem o sentimento de culpa de beneficiarem o Scooter”.

E mostrando que cumpre com o que fala, no dia 09/04/2021 à 1h da manhã no horário de Brasília, fomos presenteados com o Fearless Taylor’s Versions, um álbum repaginado, melhorado e cheio de diferenças similares que deixaram o AOTY (Album Of The Year) ainda melhor.

Taylor trouxe as 19 faixas originais do Fearless de 2008, 6 músicas inéditas, “Today Was a Fairytale” originalmente escrita para o filme “Valentine’s Day” ou “Idas e Vindas do Amor” (que tem participação especial de Swift) e ainda um remix. Segundo ela, lá em 2008 não caberiam tantas músicas num CD físico, seja por limitações de quantas músicas seria de bom tom se ter em um álbum (26 parecia demais), seja por não poder falar demais de término, ou de romances fantasiosos ou de temas de escola, enfim, liberdade essa que a indústria não permitia e que Taylor alcançou agora, 12 anos depois, aos 31 anos, regravando as suas músicas de adolescente.

Fearless foi, como dito, o primeiro contato de muitos e isso por si só já é carregado de sentimentalismo e saudade, o que poderia ser empecilho ao novo álbum, mas não foi! O álbum é, sim, excelente. Evidente que toda a questão dos direitos sobre as masters contribuiu para o sucesso, entretanto há que se exaltar o trabalho por outros feitos.

O novo Fearless é interessante pois traz uma Taylor Swift atual, mulher de 31 anos, regravando músicas de sua versão adolescente – ainda que não fosse uma adolescente no sentido estrito do termo. Essa mistura é inebriante: temos uma mulher cantando seus medos, sonhos e sentimentos de quando menina. Não podemos saber com certeza as emoções que ela sentiu quando regravou o álbum, mas, sim, podemos imaginar. Além disso, há um fator mais técnico: a voz! O seu vocal mais maduro ao cantar, por exemplo, “The Way I Loved You” produz sensações que são indescritíveis por uma mera análise e que, certamente, não precisa de descrição visto que todos os fãs compreendem o sentimento produzido.

Ouvir “Fifteen” e seu violão marcante na voz madura dizendo “na sua vida você fará coisas melhores do que namorar o menino do time de futebol, mas eu não sabia disso aos 15 anos” é quase como uma premonição que se concretizou, após tantas desilusões amorosas exploradas publicamente e tanto machismo escancarado, Taylor se consolidou como artista, como cantora, como compositora e é um ícone para as novas gerações (seus pupilos Olivia Rodrigo e Conan Gray que o digam). Nessa versão também temos uma “White Horse” com batidas mais marcantes, mas com uma tristeza tocante. Temos uma Taylor rindo em “Hey Stephen” (será que ela se lembrou da situação em que escreveu a música?) e se divertindo em “You Belong With Me”. 

E ela merece se divertir! Única mulher a conquistar 3 Grammy’s de Melhor Álbum do Ano (empatando com Frank Sinatra, Paul Simon e Stevie Wonder), sendo 1 deles pela versão original de Fearless, Taylor não decepciona, tendo sua nova versão do álbum com críticas ainda mais positivas que o original no Metacritic, atingindo 87 em contrapartida da nota 73 conquistada há 12 anos, além de ser a segunda melhor nota de sua carreira. Os fãs também não decepcionam, no Reino Unido, por exemplo, Fearless TS Version atingiu o topo das paradas, sendo o terceiro álbum da loirinha em 259 dias, batendo, por 59 dias, um recorde que há mais de 50 anos era nada mais nada menos do que dos Beatles. Também é o maior lançamento de álbum country em 6 anos nos EUA e o melhor lançamento geral de álbuns por lá, até agora, em 2021.

O novo Fearless é um álbum diferente, o que foi bom ficou, com efeito, melhor. Seja pelo contexto comercial, mas principalmente pela produção e contraposição com a primeira versão, Fearless TS Version faz sentirmos na pele uma gostosa nostalgia e o ontem sendo revisitado pelo hoje.

É possível, também, perceber que temos no novo álbum uma Taylor Swift que, em seu íntimo, provavelmente não acredita na mesma intensidade em partes do que havia cantado na primeira versão, assim como questões que pareciam tão importantes, como a opinião e os porquês dos outros, passam agora a ter menos ou nenhuma importância. Trata-se de seu amadurecimento e resiliência. Difícil, porém, entender que ela hoje é descrente ou mesmo melancólica quanto aos assuntos e histórias narrados em Fearless. Em grande verdade o que ocorre é que temos uma mulher que muito viveu, conquistou, sorriu e chorou ao ponto de, em Fearless TS Version, se dar ao luxo de não acreditar mais cegamente em algumas questões, sobretudo sentimentais, bem como, apenas, não dar a mínima. Reforçamos e pedimos-lhes desculpas pela necessária repetição: estamos diante de uma Taylor Swift amadurecida e resiliente. O breve exposto neste parágrafo pode ser observado quando se escutam, em sequência, as versões de “Tell me why” e “Forever & Always”. Destas, infere-se que, se por um lado Taylor continua um raro exemplar de uma romântica incorrigível – e que bom por isto! – por outro, não nos parece que qualquer situação irá afetá-la de forma muito impactante.

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