Texto da semana

Subjetividades, preconceito, cancelamento e amizades

Por: Anônimo

Um dos aspectos mais duros de ser parte de uma minoria social é viver num mundo avesso ao que a sua identidade é. Construir a própria identidade num contexto que tenta apagá-la a qualquer custo deixa feridas que levam anos para cicatrizar, quando sequer cicatrizam. Na minha vivência como LGBT, esse fenômeno não foi diferente. Cresci numa família extremamente religiosa que, além de cobrar-me o tempo todo posturas esperadas de uma pessoa heterossexual, apontava como ser gay era errado e motivo de chacota. Já no âmbito das minhas amizades, essa expectativa pela heterossexualidade ocorria de maneira particularmente singular.

Durante a minha vida inteira cresci ao redor de meninos heterossexuais e acredito que isso tenha contribuído em grande medida para o meu autoengano em relação a minha sexualidade. Nesse sentido, creio que a cobrança vinda de si próprio pode ser o principal fator que nos leva a enganar nós mesmos. Perceber como eu destoava dos meus amigos e de como eu não correspondia àquilo que, não só os outros, mas também eu mesmo esperava de mim, talvez tenha sido uma das experiências mais dolorosas que eu tenha passado – e ainda passo de algum modo – quanto ao processo de aceitação da minha identidade.

Quando eu já havia feito as pazes comigo mesmo quanto a essa questão, tomei uma decisão que algum tempo depois iria me fazer repensar todas as certezas que eu havia construído: eu não iria criar laços profundos de amizade com homens heterossexuais. A princípio, ponderei que seria uma decisão radical, porém o que havia me levado a esse posicionamento era o fato de, além de eu ter poucas pessoas LGBTs na minha vida com as quais eu tinha laços profundos, eu passara a minha vida inteira deslocado num círculo de amizades em que todos eram diferentes do que eu era, aprofundando assim uma visão bastante dolorida que eu tinha em relação a mim. Nada mais justo, portanto, de querer cercar-me apenas de pessoas que se parecessem comigo e que tivessem experiências de vida similares às que tive quanto a essa questão.

Entretanto, entre o semestre passado e este, eu conheci uma pessoa com a qual fui criando gradativamente laços muito doces de amizade. Conhecendo essa pessoa, fui obtendo a experiência de cultivar uma amizade (o que, convenhamos, é bastante difícil em tempos de pandemia) de forma remota e que, além de me surpreender pelo seu caráter inusitado, me fazia muito bem. Ocorre que havia um pequeno problema em meio a tudo isso: a pessoa com quem eu cultivara tais laços é um homem heterossexual. Nesse ínterim, minha decisão foi posta em xeque e muitas vezes eu me via cercado pela seguinte dúvida “Será que as minhas experiências dolorosas passadas com pessoas desse tipo vão se repetir?”.

Mesmo com receio em muitos pontos, deixei-me levar pelo andar da carruagem para ver como as coisas iam transcorrer. À medida que me aproximava cada vez mais dessa pessoa, fui percebendo que esse rapaz se distinguia em muito do perfil dos meninos heterossexuais com os quais eu havia crescido, além de possuir uma sensibilidade como eu vira em poucas pessoas na minha vida. Assim, de modo bastante sucinto, nossos santos “bateram”, fazendo com que a minha consideração por essa pessoa só crescesse. Tudo isso me levou a rever, como havia dito anteriormente, muitas das percepções que eu havia firmado.

Aproximar-me dessa pessoa me fez perceber que cada pessoa tem uma subjetividade diferente, com uma experiência de vida diferente. Não é porque uma pessoa é de um determinado gênero, possui uma determinada orientação sexual ou pertence a uma determinada classe que necessariamente ela possuirá as concepções que esperamos que esses grupos possuam. Em outras palavras, não é porque uma pessoa pertence a uma determinada minoria que ela necessariamente possuirá uma visão “desconstruída” de mundo, assim como também não é porque uma pessoa é de um grupo privilegiado que necessariamente ela terá percepções equivocadas das minorias sociais. Subjetividades são complexas e o que as faz ter uma determinada visão ou comportamento não é necessariamente o fato dela “ser isso ou aquilo”.

A priori, tudo o que estou relatando pode soar óbvio e superficial. Porém, quantas vezes deixamos de nos aproximar de uma pessoa pensando que ela tivesse uma determinada visão preconceituosa só porque ela possuía um determinado perfil privilegiado? Ou quantas vezes recorremos a uma pessoa influente do meio da militância perguntando “o que ela achou de determinado episódio racista ou homofóbico” tomando como pressuposto que ela saberá falar tudo a respeito só porque “é desconstruída”? Muitas vezes, nós, pertencentes a minorias sociais, a partir de nossas experiências dolorosas, tendemos a generalizar que as pessoas as quais possuem privilégios terão necessariamente as mesmas visões e pensamentos equivocados quanto a nós e, naturalmente, sentiremos menos desejo de criar laços profundos com tais pessoas, “cancelando-as” em alguma medida.

Ocorre que, caso fechemo-nos em nossas bolhas partindo desse pressuposto, certamente deixaremos de cultivar amizades maravilhosas com pessoas que são simplesmente diferentes do que somos, mas que não necessariamente reproduzirão em nós todas as vivências dolorosas que tivemos. Obviamente, ninguém está isento de possuir percepções equivocadas, afinal estamos numa sociedade permeada de preconceitos, mas aqui quero elucidar outra questão: tendemos a achar que uma fala ou atitude preconceituosa de alguém faz com que este alguém seja preconceituoso em toda a sua integridade. Desse modo, tentamos corrigir os preconceitos em uma dimensão individual (vide a cultura do cancelamento) e não na dimensão social que eles se dão.

Nesse âmbito, não quero dizer que devemos “passar pano” para o preconceito ou para pessoas que claramente pretendem reafirmar seus posicionamentos discriminatórios independentemente de terem sido “esclarecidas” por outrem. O que quero dizer resume-se em dois pontos. O primeiro é que acredito que não devemos nos deixar levar pelo pressuposto de que só porque alguém é privilegiado terá necessariamente uma visão preconceituosa ou que alguém pertencente a determinada minoria será necessariamente desconstruído. Esses pressupostos, além de reforçarem estereótipos rasos, podem fazer com que não nos aproximemos de pessoas com quem poderíamos ter uma relação profunda, saudável e transformadora. O segundo ponto é que, por mais que alguém tenha um posicionamento preconceituoso, isso não o faz necessariamente preconceituoso(a) como um todo, especialmente se essa pessoa está disposta a aprender e rever suas visões as quais são muitas vezes fruto de um contexto intolerante muito maior do que ela.

Mais uma vez ressalto: subjetividades são complexas e não podem ser resumidas a um mero ponto de vista, mesmo que ele esteja equivocado. De todo modo, acredito que seja na diversidade de relações que não só podemos ajudar outrem a melhorar como pessoa, mas também podemos nos ajudar, nos permitindo criar laços transformadores com pessoas que são diferentes de nós e elucidar (e, quem sabe, sermos também elucidados) pontos de vistas equivocados os quais elas eventualmente os tenham. Nesse processo, só temos a ganhar em todos os sentidos.

O exercício de autoaceitação é constante. Sobreviver num mundo que é avesso à nossa própria identidade também é um exercício constante, para não dizer árduo. Porém, cercarmo-nos de pessoas que gostam de nós e que podemos contar nos momentos mais difíceis torna esse processo mais ameno. Por isso acredito que, livrando-nos de estereótipos aprisionadores e sendo abertos ao conhecimento de todo tipo de subjetividade, conseguimos redobrar nossas chances de sucesso em achar tais pessoas. É nesse exercício de busca que me empenho todos os dias para, não só ganhar aliados, mas também me tornar uma pessoa melhor. E acho que estou conseguindo.

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