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“Os sofrimentos do jovem Werther” e a depressão: a literatura como forma de se conectar com sentimentos humanos que transcendem os séculos

Por Júlia Duarte (Gump) – TXII da FDRP.

Escrito em 1774, “Os sofrimentos do jovem Werther” foi a primeira obra do escritor romântico Johann Wolfgang von Goethe, considerado um dos maiores escritores da Alemanha e um grande nome do Romantismo. O livro é um romance epistolar, baseado numa série de cartas escritas por Werther a seu amigo Wilheim descrevendo seu amor não correspondido pela típica musa romântica Charlotte, a filha de um funcionário público de relevo e prometida para outro homem, um noivo que se encontrava ausente quando Werther a conheceu e por ela desenvolveu sentimentos amorosos intensos.

Para mim, entretanto, a importância dessa obra reside não em seu caráter inaugural, no sentido de trazer ao cenário literário a grande figura de Goethe, mas sim em sua capacidade sublime de tratar o tema das doenças mentais numa época em que essa ciência ainda se encontrava em estado seminal. Freud, por exemplo, escreveu “Luto e Melancolia” somente após quase 15 décadas desde a publicação de “O sofrimento”.

Gosto de contar essa pequena história relacionada a minha experiência pessoal com o livro: uma tia que gosta de ler, assim como eu, me questionou sobre o tema do livro e eu, ingenuamente, respondi que era “só a história de um garoto que se apaixonou pela pessoa errada e acabou tirando a própria vida por causa disso”. Realmente, quando comecei a ler, eu pensei que se tratava somente de um romance no estilo Romeu e Julieta, com paixões arrebatadoras e um final trágico e precipitado, e que sinceramente só havia me interessado pelo livro porque é o primeiro de um grande autor alemão e tinha ouvido falar dele algumas vezes nas aulas de literatura”. Com a leitura do livro, porém, essa visão foi sendo desconstruída paulatinamente. Werther não morre de amor, mas de tristeza. Ele se mata não porque seu amor não era correspondido por Charlotte, mas porque sua energia de viver estava sendo aos poucos sugada pela tristeza e melancolia latentes típicas de um quadro depressivo.

E como eu posso ter tanta certeza disso? Agora entramos no tema presente no título do texto, “a literatura como forma de se conectar com sentimentos humanos que transcendem os séculos”. Faço uso do ditado popular “só um louco reconhece outro” para justificar minha afirmação, pois eu sou um dos “loucos”. A depressão é algo que acompanha minha trajetória há quase 3 anos, e mesmo estando medicada no momento em que li esse livro, a precisão com que Goethe descreve tudo aquilo que senti nas piores fases do meu quadro clínico nunca deixará de me surpreender, principalmente quando se pensa que o autor escreveu o livro com base em sua própria experiência de vida, pois ele havia se apaixonado por uma mulher comprometida, de forma que em Werther tem-se muito de Goethe.

Perceber essa consonância exata (e até em certo sentido assustadora, em virtude dessa identidade perfeita) entre meus sentimentos e os de um homem europeu que viveu 250 anos antes de mim me abriu os olhos para essa base psicológica comum a todos os seres humanos. Independentemente de onde viemos, de nossa sociedade, de nosso contexto histórico, ainda somos sujeitos a sentir a melancolia, a felicidade, o luto, a tristeza e o amor de maneiras incrivelmente semelhantes. Creio que isso tende a ser esquecido por nós, principalmente em tempos de ódio como os que vivemos agora. Esquecemos que do outro lado existe alguém que sente, que sofre e que ama. Imagino o quanto seríamos um mundo melhor se essa ideia fosse mais difundida.

Por fim, gostaria de deixar um último ensinamento que obtive com a leitura de “O sofrimento”, que é não julgar a dor do outro, ou não julgar no geral, além de que problemas complicados podem parecer simples para quem olha de fora, afinal, como já dito acima, o preconceito me fez julgar uma obra construída em torno da depressão como um exagero romântico. Agradeço ao universo por ter me feito terminar de ler essa obra e perceber que o que ceifou a vida de Werther foi a tristeza, não o amor, dois sentimentos tão distintos, mas que infelizmente muitas vezes andam de mão dadas. Num país com 400 mil mortes, fica claro essa relação para todos aqueles que perderam alguém que amam, como aconteceu comigo e com centenas de milhares de pessoas. O amor e o sofrimento andam de mão dadas.

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