Ócios Queer

O caso de Blair St. Clair e o sofrimento de todes nós que fomos violentades

Por Seu Amigo Queer (EERP)

Há algumas horas que assisti o episódio seis da 10ª temporada de RuPaul’s Drag Race e não consigo tirar o relato da Blair St. Clair acerca do estupro que ela vivenciou em uma festa na faculdade. Naquele momento eu senti a dor dela e pude abraçá-la, ainda que em pensamento, porque sei o que é violência sexual, como tentamos escondê-la e como é difícil, na verdade, entender e aceitar que isso aconteceu.

No episódio, a drag queen recebe uma crítica de um dos jurados, dizendo que não consegue entendê-la muito bem, devido à sua expressão sempre muito doce. Após essa crítica, ela relata que sua primeira experiência sexual foi um estupro na época em que era universitária, e que ela buscava agir daquela forma para encontrar delicadeza, pois se sentia nojenta em alguns momentos. E foi bastante significativo para mim ouvir a vulnerabilidade de Blair, porque sei que não sou o único a tentar superar os danos da violência sexual.

Muito se tem falado sobre esse assunto e algumas pessoas têm trazido mais conhecimento acerca do tema (e aqui quero destacar o trabalho da Amanda Sadalla, que desenvolve atividades educativas muito influentes nesse tópico), deixando claro que a violência não ocorre só na penetração, mas também no assédio verbal, no toque de forma indesejada, na insistência de práticas que o outro já expressou não querer realizar, e muitas outras formas de violência sexual podem ser citadas (as quais podem ocorrer dentro ou fora de uma relação afetiva-sexual), mas esse não é o foco do texto. Aqui eu quero falar sobre a experiência de passar por isso e da importância de falar com alguém de confiança sobre o assunto.

Digo que é importante falarmos com alguém em quem confiamos porque essas experiências são muito traumáticas e por vezes não conseguimos entender o que realmente aconteceu, então significar, aceitar e enfrentar essa memória é não apenas uma forma de se curar, mas também de se equipar para que isso não mais aconteça. E infelizmente as diversas expressões de violência sexual são muito presentes em qualquer comunidade, até mesmo entre nós, LGBTQIA+. Tente lembrar se em algum momento você disse não e a pessoa ainda sim insistiu em transpor a barreira que você colocou. Sabia que isso é violência sexual e que o normal é que isso não aconteça?

Pode parecer óbvio para alguns, mas para mim, que passei por essa situação, não é. Quando eu tinha 14 anos, numa busca por aceitação, cuidado e identificação da minha orientação sexual, acabei me envolvendo com um homem de 39 anos, que morava próximo à minha cidade. Essa relação foi completamente tóxica, porque ele não respeitava praticamente nenhum dos limites que eu colocava, pois não me sentia confortável em fazer muitas coisas que fazíamos (na verdade, não me sentia confortável com ele). Somado a isso, ele falava de maneira grosseira da experiência sexual que ele teve com outros garotos que também eram jovens e adolescentes, e dizia que os meninos se aproveitavam dele para aprender sobre sexo e depois o largavam. Ainda disse que ele era o melhor que eu poderia encontrar.

Apesar dele ter dito todas essas coisas horríveis (e muitas outras), o que mais me deixou traumatizado foi o fato de não ser respeitado e de não ter os meus limites levados a sério. Essa sensação de ser violentado era tão ruim e ao mesmo tempo tão recorrente com ele que de alguma forma eu internalizei que “tá tudo bem dizer não e a outra pessoa insistir”. E essa mesma experiência se repetiu em outras relações. Simplesmente parecia que eu dizer “não” e isso ser respeitado era um ato de extrema educação do outro indivíduo, e não sua obrigação.

A dor é ainda maior quando penso: por que eu não fui mais firme? Por que permito que essas coisas aconteçam comigo? Por que não cuido de mim da forma que deveria cuidar? E tudo ganha uma característica de culpa, vergonha e fraqueza minha. Essas memórias e toda vez que me coloco nessas situações na verdade só colabora para a voz que diz que sou incapaz de cuidar de mim mesmo. Consegue entender o peso que a violência tem agora?

É por isso que falar abertamente sobre o assunto com aqueles que nos amam é tão essencial! E a vulnerabilidade de Blair St. Clair nos encoraja a contar nossa própria história e iniciar a jornada de cura, que é bem particular (como a própria drag fala em uma entrevista concedida ao Mic, no YouTube). Precisamos falar sobre violência sexual no nosso meio! Pessoas LGBTQIA+ precisam expor essas situações e combatê-las, para que a consciência desses fatos nos eduque quanto ao que é normal e saudável, para que possamos cuidar da melhor forma de nós mesmos, sendo incisivos nos nossos limites e fortes o suficiente para sair de situações abusivas quando elas estiverem prestes a acontecer (ou acontecendo).

Quando incentivo a cuidar de nós mesmos, em momento algum quero trazer culpa ou vergonha para a nossa experiência, mas sim empoderar a nós, queer (e a todos que for possível) para que possamos reconhecer uma situação de violência sexual, não praticá-las e também nos proteger, na medida do possível, para que não precisemos vivenciá-la novamente. As experiências que citei aqui aconteceram há algum tempo, mas ainda hoje me incomodam de formas que antes eu não conseguia reconhecer, e não desejo que outres passem por isso. O simples fato de ser queer já significa que passaremos por alguns problemas, então que a violência sexual não seja mais um.

Por fim, o meu mais acolhedor abraço a você, que está lendo esse texto e se identificou, de alguma forma, com a história da Blair e a minha. Você não tem culpa do que aconteceu, porque naquele momento você não estava preparado ou bem o suficiente para se defender, e talvez isso nem fosse possível, mas saiba que você não é uma vítima, mas sim um sobrevivente! Procure alguém que te ama para conversar sobre o assunto e, se estiver confortável, junte-se na luta para conscientizar as pessoas sobre estes atos de violência, para promover a segurança e o respeito nos relacionamentos.

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